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setembro 30, 2005

Em defesa do azul!

Não trabalhando eu num jornal (sem nenhum interesse directo ou indirecto a defender), acho que estou perfeitamente à vontade para dizer que – como director – teria aceite sem reservas aquela proposta da TMN de pintar o jornal de azul.
Mais, aceitaria idênticas propostas se – como aconteceu – elas deixarem clara uma separação entre “conteúdos jornalísticos e mensagem publicitária” (para usar a expressão do Sindicato dos Jornalistas). Aceito que se pense o contrário, que os jornais se venderam, mas não acho que isso retire credibilidade aos jornais.

Muito mais grave, na minha opinião – e sobre isso nunca ouvi o Sindicato – é a prática infelizmente comum de confundir marketing promocional dos jornais e “sinergias de grupo” com notícias – veja-se a última página do Público de hoje, em contraste flagrante com o que diz o novo livro de Estilo *.
Muito mais grave é publicar reportagens ou entrevistas pagas, dissimuladas de jornalismo ou dar uma dimensão jornalísticas a actividades do próprio jornal (auto-promoções) ou do grupo em que se insere.

Estes três exemplos – claríssimos – demonstram promiscuidade entre conteúdos jornalísticos e mensagem publicitária. Isto, sim, é enganar os leitores. Contra isto me bato há anos. Mas sobre isto não tenho lido nada.

PS1 – O Sindicato sabe que há vários jornais com a corda… nas mãos do accionista. O Sindicato não pode rejeitar este tipo de receitas e lamentar, depois, os despedimentos;
PS2 – A menos que, em cada um dos oito jornais, apenas a direcção aprove “o azul”, este é mais um caso que demonstra um divórcio entre o Sindicato e os seus associados. Isto merece ser melhor discutido!

* O conteúdo promovido, um disco original a propósito do Dia Mundial da Música, que o Público distribui gratuitamente, pode ser notícia. Mas na secção de cultura. Não na última página. Quando é que um disco, original, volta a ser notícia na última página do Público?

agosto 05, 2005

Preocupante

O Público fechou o primeiro semestre deste ano com prejuízos de 1,55 milhões de euros, oito vezes mais do que 202 mil euros negativos no mesmo período de 2004.
De acordo com o Diário Económico (de 29/7), isto deve-se sobretudo a uma redução (de 45%) das vendas de produtos associados - marketing).
E é preocupante porque mostra que o Público não vive sem esses produtos. Ou seja, para viabilizar o jornal já não basta comprá-lo. É preciso comprá-los...

junho 26, 2005

Apenas coincidências (ou distracção?)

Só o li o Público de ontem hoje. E primeiro o de hoje e só depois o de ontem. Por que é que isto é importante? Apenas porque uma infeliz coincidência me atirou para algo que não gostei de ver.
Acabara de ler na edição de hoje Luís Marinho dizer, entre outras coisas, que "há estações [de televisão] que promovem os seus produtos dentro dos espaços informativos, como se esse produto, por ser dessa estação, fosse matéria noticiosa que coubesse num telejornal. Penso que essa confusão não se deve fazer", quando vejo a última página do jornal de ontem: "Museu de Serralves reúne obras de Álvaro Siza num DVD inédito". Estranhei de imediato, porque desde a publicação da nova versão do Livro de Estilo que a última página deixou (e bem) de servir de vitrina. Depois li o texto de abertura e confirmei: "O arquitecto serve de guia a 18 museus e espaços expositores que projectou. O DVD é distribuído amanhã com o Público por mais 8,9 euros".

Relembro o ponto 121 do Livro de Estilo: "Os textos de apresentação de produtos associados ao jornal - como livros, CD-ROM ou DVD - deverão ser paginados em espaços distintos das secções normais do jornal e apresentados sob uma cabeça identificativa ("Colecções Público", "Iniciativas", etc.)".
Nada disto é cumprido! Espero que tenha sido uma apenas uma distracção.

maio 15, 2005

(jc) Análise dos três diários

Penso que o dia de hoje terá sido a última oportunidade para testar a experiência de A Bola.
Do dia de ontem houve duas situações claramente polémicas:
- as declarações do treinador do Rio Ave, contestando a arbitragem e, em concreto, o primeiro golo do FC Porto (1);
- as declarações violentas do treinador do Boavista que – com toda a razão, permitam-me – se atirou à arbitragem do jogo em Guimarães (2).
O que fizeram O Jogo e o Record? Publicaram-nas com normalidade; acrescentando no comentário ao jogo de Guimarães uma nota negativa para o árbitro;
O que fez A Bola? Fez a mesma coisa no Guimarães-Boavista (ou seja, reproduziu o “ataque” do treinador à arbitragem e a nota negativa para o árbitro) mas ignorou a parte das declarações do treinador do Rio Ave, em que este se referia aos eventuais erros da arbitragem. Porque não se enquadram? Por falta de espaço? E no caso do Boavista
Terá sido este o seu contributo para a Semana do Futebol?

(1) “O primeiro golo foi fora-de-jogo, tendo ainda McCarthy dominado a bola com o braço”.

(2) "Era impossível ganhar aqui"
Pedro Barny não poupou críticas à arbitragem, que acusou de ter errado em lances cruciais. «Como o golo do Vitória, precedido de fora-de-jogo e a expulsão de Carlos, que justificava, isso sim, um cartão amarelo ao Silva, por simular falta inexistente», protestou. O técnico boavisteiro afirmou ainda que, «por tudo o que se viu», era «mesmo impossível ganhar em Guimarães». Para Pedro Barny, o encontro ficou decidido exactamente após a expulsão de Carlos, «que marcou a equipa», numa altura, lembra, «em que o Boavista estava a dominar o jogo e o Vitória ainda não tinha ido à baliza adversária». «Tenho jogadores a chorar no balneário, mas eles lutaram contra todas as adversidades e mereciam melhor sorte», lembrou. Quanto à expulsão de João Pinto, um comentário: «Parece que no seu final de carreira os árbitros sentem prazer em expulsá-lo. Não acredito que cada vez que ele fale com um árbitro seja mal educado, de modo a justificar tamanho castigo.»

Censura?

Relativamente a isto e a isto:

Vítor Serpa congratula-se, na edição de hoje, com os resultados da sua “Semana do futebol” – ou seja, numa semana tão decisiva não ter havido grandes polémicas. A Bola reclama a sua quota-parte no sucesso.
Terá razão?
Acho muito duvidoso.
Um mérito é indiscutível: ao anunciar uma medida que é insólita em Portugal provocou a discussão. Não apenas em espaço meta-jornalísticos, mas – acredito – no próprio universo do futebol.
Mas acho duvidoso, porque tenho muitas dúvidas sobre 1) a experiência em concreto; 2) a metodologia que terá sido seguida.
1) a experiência não foi verdadeiramente testada porque não surgiram dois ou três casos que a pusessem à prova; dir-se-á: foi por mérito de A Bola. Poderá ter o seu quinhão, mas daí até…
2) censurar é uma opção errada; A Bola não explicou como faria isso, mas deduz-se que seria da forma mais simples: ignorando pura e simplesmente essas declarações. Penso que haveria outras formas, mais pedagógicas, de sinalizar a intervenção editorial no próprio espaço do jornal – afinal, em muitos casos não será fácil perceber quando é que estamos perante "expressões, atitudes, ou comportamentos que apelem à violência, ao desrespeito por princípios éticos desportivos ou à dúvida infundada sobre a integridade moral e cívica de qualquer cidadão".
Como se vê pelo exercício seguinte, ficam dúvidas.
Vítor Serpa promete, entretanto, outras semanas iguais a esta.

maio 10, 2005

(act) Mais de A Bola

(mais)

Coisas curiosas que (não) encontrei nos jornais de hoje:
- O Jogo e o Record ignoram o assunto nas suas edições de hoje;
- Mas os directores de O Jogo e do Record assinam textos no Correio da Manhã sobre o assunto e falam no Público;
- O presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas elogia, no mesmo CM, a opção;
- No DN, Vítor Serpa confirma que se trata de uma acção pontual, e assume «esta atitude como "uma pedrada no charco" contra a manipulação que os diários desportivos têm sofrido»*;
- Neste mesmo artigo, um sociólogo do desporto, António Sousa Santos, critica a opção: «este tipo de notícias vai aguçar a curiosidade dos leitores, o que faz desta decisão editorial uma simples "operação de marketing". "Pode ter um efeito de choque, mas que é absorvido de imediato", resumiu. "O jornal A Bola está com problemas de consciência e com esta decisão não vai apagar nenhum fogo", acusou o sociólogo, garantindo, mesmo assim, que não vai perder leitores porque tem um "público fidelizado".»;
- Em A Bola, apenas um pequeno texto chamado "Decisão editorial de «A Bola»", que em três parágrafos resume a posição divulgada ontem;

* Isso quer dizer que a manipulação segue dentro de momentos? Um mérito A Bola tem: permite discutir o assunto!

Act: Sugiro este texto: «"A Bola", calculista ou não, ao lançar a "semana do futebol", veio dizer que há problemas no desporto que não são do foro desportivo e problemas no no jornalismo de desporto que não são jornalismo»

maio 09, 2005

O texto de A Bola na íntegra

«A Bola» e a semana do futebol
O descontentamento foi-se generalizando, muitos dirigentes desportivos, no desempenho das suas importantes funções, foram perdendo o sentido do rigor, do bom senso e até das suas próprias responsabilidades desportivas e cívicas; os processos judiciais, ainda em desenvolvimento, vieram reforçar a dúvida quanto à honestidade do jogo e à transparência dos resultados; a arbitragem viu a sua credibilidade dizimada; os jogadores foram atirados para um estúpido degredo social, evitando a todo o custo qualquer discurso além do entediante lugar-comum; os técnicos vivem a amargura da necessidade do resultado imediato, como factor decisivo de sobrevivência profissional.
Ajudou-se, assim, a instalar um ambiente de guerrilha crónica, aqui e ali caótico na discussão, que agride quem gosta de futebol e, acima de tudo, paralisa a evolução do jogo e desrespeita a natural vocação dos estádios como espaços de festa e lugares de entretenimento, propícios, pois, a ser usufruídos pelas famílias, por crianças, por adolescentes e por adultos.
A tudo isto não queremos, nem podemos, ficar indiferentes. Por isso, A BOLA decidiu não pactuar com este estado de coisas, assumir-se como forte opositora da guerrilha institucionalizada no futebol e lançar o desafio do arranque de um movimento verdadeiramente regenerador, capaz de devolver ao jogo a sua alma, a sua essência de espectáculo mítico, vibrante, emotivo, apaixonado, mesmo. Capaz de defender o futebol português dos ventos da violência e da acção manipuladora do espectáculo.
Por isso A BOLA decidiu lançar esta semana, e, não por acaso, a semana de um jogo que será certamente decisivo para o título, como a SEMANA DO FUTEBOL.
Ao longo da semana, A BOLA compromete-se a não publicar, por opção editorial, todas as afirmações, venham de onde vierem, de dirigentes, de treinadores, de jogadores, de árbitros e até de colunistas, que de forma directa e declarada optem por expressões, atitudes, ou comportamentos que apelem à violência, ao desrespeito por princípios éticos desportivos ou à dúvida infundada sobre a integridade moral e cívica de qualquer cidadão que, por qualquer forma, seja protagonista no grande jogo ou em qualquer outro jogo da jornada.
Esta é a nossa decisão, amadurecida e desde já anunciada pela razão prioritária da relação de A BOLA com os seus leitores. Não seremos, pois, por decisão própria, veículos da violência verbal, da suspeição, da manipulação de todos os que entendem que tudo vale para atingir os fins, e que esperam, por isso, usar e abusar da imprensa desportiva.
Fazemo-lo em nome da defesa dos mais legítimos direitos de cidadania dos intérpretes do espectáculo; em defesa dos valores éticos e desportivos essenciais à credibilidade do jogo de futebol; em defesa da honestidade na relação com os nossos leitores, a quem certamente não servimos se nos conformarmos com a missão de meros agentes no acto premeditado da manipulação; mas, acima de tudo, creiam, tomámos esta opção em defesa do respeito que todos nós, aqui em A BOLA, temos por nós próprios.

A posição de A Bola

A posição do jornal A Bola, anunciada hoje em primeira página, e que está aqui na íntegra, suscita - desde já - uma série de questões:
- É uma forma de censura? E, sendo assim, isso é legítimo?
- Como será concretizado? Sinalizando determinada declaração (espaço em branco) ou ignorando-a pura e simplesmente?
- Começa hoje? Nesse caso, as declarações de José Couceiro e Reinaldo Teles, ontem no final do jogo (pág.8) não se enquadram? E o texto "Proença sob fogo" (pág. 29)?
- Porquê (apenas) uma semana? Tem um objectivo simbólico ou é para prosseguir, sendo uma experiência?
- Visa apenas provocar a discussão ou pretende ser mais consequente e profunda?

A iniciativa é tão insólita que fará sentido ver como evolui para uma opinião mais a sério.

abril 06, 2005

É só a crise ou vieram para ficar?

"Os grupos Cofina, Lusomundo Media, Impresa e o jornal Público viram a receita das vendas de produtos associados às suas publicações (como livros, CD...) subir 67 por centos em 2004, ultrapassando os 94 milhões de euros. [Só n]o Público os produtos em causa renderam 25 milhões de euros (...)".
In Público, 24/3/05

Marketing e jornalismo

O Expresso continua na vanguarda, admitindo nas suas páginas aquilo que - pelo menos por agora... - não se vê em mais lado nenhum: na edição de sábado, última página do primeiro caderno, coluna da direita, preenchida com notícias breves: "Michel Vaillant inédito no «Autosport». Dossier Ayrton Senna é um álbum de Michel Vaillant que agora será editado em Portugal, na colecção de 10 volumes que o «Autosport» vai lançar".

fevereiro 22, 2005

Marketing blitz!

Os jornais portugueses estão cada mais especializados em vender/oferecer produtos, mas na maior parte dos casos – quando estamos perante livros ou discos – são produtos requentados. Ou seja, as novidades ficam-se pelas páginas/notícias dos jornais; os extras do chamado “consent marketing” são antiguidades devidamente recuperadas...
Por tudo isto merece destaque o jornal Blitz que tem vindo a oferecer (a preços excelentes) produtos originais. Agora é o disco/livro dos Radio Macau. Um inédito, que é notícia!

novembro 19, 2004

A invasão do marketing contra o jornalismo - um caso pessoal

Partilho com os interessados uma experiência muito pessoal, mas que, por se enquadrar num conjunto anterior de reflexões sobre o poder crescente do marketing no produto jornalístico, faz sentido aparecer aqui.
No local onde moro (Vila do Conde) o órgão de comunicação social mais bem informado e mais equilibrado jornalisticamente é o suplemento semanal de O Primeiro de Janeiro - várias vezes assinei artigos de opinião sobre temáticas locais nesse suplemento.
No da última semana, porém, sucedeu algo - na minha opinião - intolerável: nas páginas de publicidade, da responsabilidade do departamento comercial, apareceu uma entrevista de carácter jornalístico (neste caso, ao Presidente da Câmara). Uma entrevista sem critério (o jornal tinha entrevistado o mesmo protagonista há pouco tempo) e que abre precedentes gravíssimos: a redacção entrevista uns, os comerciais outros? Quem tem dinheiro é entrevistado?
Escrevi, como leitor e colaborador do suplemento, uma carta (indignada) à directora do PJ, como artigo de opinião. Para ser publicado. Mas não o foi.

outubro 28, 2004

A importância do marketing nas receitas dos jornais

"De acordo com a publicação dos resultados consolidados da Sonaecom relativos ao terceiro trimestre deste ano, o Grupo Público - que engloba o diário com o mesmo nome, o público.pt e a revista Xis -, registou um aumento de 17% no volume de negócios, atingindo 14 milhões de euros. A impulsionar estes resultados esteve a venda de produtos associados, responsável por 33% do crescimento".

outubro 24, 2004

A importância do marketing...

Para perceber a importância dos "produtos associados de marketing" nos jornais portugueses e como as apostas de sucesso se fazem não tanto pela qualidade do jornalismo mas pela originalidade desse produtos, ler no Expresso de ontem: "Dois anos de crise" (sobre o DN).
Um excerto:
"A reestruturação culminou na ultrapassagem do Público na segunda metade da década. Alicerces desse sucesso foram as primeiras promoções de apoio às vendas...".

setembro 22, 2004

A invasão do marketing no produto editorial

Remeto os eventuais leitores para as páginas 16 e 42/43 de O Comércio do Porto de hoje:
- Na 16, página de "Política" aparece um texto, assinado, sobre guardas prisionais, composto num tipo de letra completamente diferente, e que termina assim: "comunicado de imprensa"; parece uma notícia...
- na 42/43, "Ano lectivo arranca envolto em incertezas" é uma entrevista a uma dirigente do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados e aparece em duas páginas denominadas "Especial Ensino". Curiosamente, o tipo de letra é o mesmo da tal "notícia" da página 16... e autora da entrevista também.
Descrito assim pode ser confuso, mas parece claramente um caso de invasão do marketing no produto editorial (até porque as notícias sobre o arranque do ano lectivo em O Comércio do Porto de hoje aparecem nas páginas de "Sociedade", como notícias!).

setembro 16, 2004

A invasão do marketing no produto editorial

O mais agressivo jornal português no domínio do "consent marketing" (as vendas de produtos associados, neste caso, a um jornal), o JN, faz hoje um exercício bastante honesto do lançamento da sua próxima promoção: "Notas e Moedas da Nossa História".
Duas páginas (44 e 45) de texto e fotos devidamente encimadas pela tradicional "Iniciativas JN". Assim há menos equívocos...

setembro 03, 2004

A invasão do marketing no produto editorial

Desenvolvimento (6/9/04): O provedor dos leitores do Público prometeu abordar este assunto e na primeira crónica depois das férias assina um texto muito bom.
Estão ali quase todas as questões que tenho vindo, aqui, a enunciar, com a vantagem de ter ouvido o director-adjunto do jornal. Nuno Pacheco explica-se, na minha opinião, de uma forma tímida.
Deixo estas duas citações de Joaquim Furtado: - "No caso dos produtos em causa, o seu lançamento torna-se notícia apenas porque o jornal decidiu lançá-los sendo, portanto, do seu interesse promovê-los (...). Na verdade, ao redigir textos daquela natureza, o jornalista aceita reduzir a margem de liberdade que exige noutras circunstâncias, alienando isenção e independência (ainda que o faça em nome do interesse do jornal e do leitor)."
- "Esta ambiguidade que poderia ser resolvida com recurso a soluções externas ao jornalismo, juntam-se outros equívocos: estes textos de promoção ou divulgação - nem sempre assinados - umas vezes surgem editorialmente desvalorizados na secção "Colecções", outras, pelo contrário, aparecem nas páginas da "Cultura".
Tal como é obrigatória a sinalização dos espaços e publicidade, também a verdadeira natureza destes textos deveria ser devidamente identificada. Isto, independentemente do direito que assiste ao jornal de publicitar estas iniciativas, cujo mérito foi, aliás, reconhecido".

Desenvolvimento: a "investigação" prossegue, com novos contributos.
Um deles bem interessante: o provedor do JN, no texto do passado domingo, fala de como vários leitores protestaram por um apoio promocional, que nada teve a ver com o conteúdo editorial. Mas a confusão instalou-se.
Ler em: promoção no jornal mas sem intervenção editorial.

agosto 19, 2004

MAIS "A invasão do marketing no produto jornalístico.

Agora a reflexão de Eduardo Prado Coelho, hoje no Público, que começa assim:
"As relações entre venda comercial, publicidade e produtos são cada vez mais um processo insólito. Os jornais sentem isso de um modo preocupante: não interessa aos leitores o conteúdo do que eles comunicam, as notícias, as mensagens, os comentários, os "dossiers", o que não significa que eles não queiram ler. Mas o que os atrai são os "brindes", os livros que não teriam a iniciativa de comprar, os DVD que jamais veriam, as enciclopédias, os dicionários, os roteiros para dar a volta ao mundo, as listas de restaurantes, ou de praias, as bonecas para crianças, as sandálias com motivos florais, os sacos de praia".
(já agora, há, sobre isto, um texto mais vasto aqui)

agosto 11, 2004

A invasão do marketing no produto jornalístico. Preocupações e reflexões do novo inimigo das redacções.

Um texto mais longo do que o habitual, a ler aqui (já actualizado).
E que termina com esta citação genial:
“Sejamos realistas: no essencial, o papel da TF1 é o de ajudar a Coca-Cola, por exemplo, a vender o seu produto. Ora para que uma mensagem seja percebida é preciso que o cérebro do telespectador esteja disponível. As nossas emissões têm como vocação pô-lo disponível: ou seja, diverti-lo, descontraí-lo para o preparar entre duas mensagens. O que nós vendemos à Coca-Cola é tempo disponível”.
Patrick Le Lay (presidente da TF1) in "Les dirigeants face au changement" (Editions du Huitième jour), Paris, 2004

agosto 05, 2004

Mais marketing/pressões internas

Já poderia ter escrito antes, mas talvez faltasse o contexto.
Agora que - a pretexto do que escreveu o provedor do Público no domingo (texto, aqui, de 3/8) - a questão foi suscitada, gostava de deixar uma nota (crítica...) sobre a parceria anunciada entre o suplemento cultural do Expresso e o Millennium BCP.
No editorial de apresentação, o jornal diz que essa parceria não "quebra a nossa independência e liberdade crítica" e que se trata de "mais do que um simples patrocínio ou de uma mera operação publicitária". Antes, "um enriquecimento da nossa oferta editorial" .
Quem lê o suplemento cultural do Expresso, o "Actual", já viu as páginas patrocinadas pelo Millennium BCP. Só não percebeu o que é que o jornal ganhou com isso. Para o banco, independentemente do que lhe custa (e não será muito), é óptimo: é entrar na casa do jornalismo, é beneficiar da sua credibilidade e autoridade.
Mas e o jornal, insisto?

agosto 03, 2004

Marketing/pressões internas

Acontece noutros jornais, mas no Público tem assumido uma especial dimensão: os livros, os discos e os dvds promovidos com o jornal são tratados editorialmente, com textos por vezes assinados, obviamente sempre positivos, o que me parece pôr em causa a independência/isenção do jornal.
No último domingo o provedor chamou a atenção para o problema, prometendo voltar a ele proximamente. Faz muito bem, porque este é um problema grave no Público.
Uma citação: "(...) é natural que, para os leitores, os livros, os DVD's e os CD's lançados e promovidos pelo PÚBLICO (frequentemente através de textos escritos pelos seus jornalistas, o que suscita outra questão que não trataremos agora) surjam como extensões do jornal. E desse modo sujeitas às mesmas exigências de qualidade. Pelo que, frustrar essas expectativas pode atingir a relação de confiança com os leitores e a própria credibilidade do jornal."
Esta é uma realidade nova na comunicação social portuguesa, sobretudo na imprensa. Mas que poderá chegar a outros meios.
Aguardam-se esses comentários de Joaquim Furtado, que poderão ajudar a corrigir algo, no mínimo, suspeito (e seria interessante, também, ouvir o Conselho de Redacção do jornal).

PS - o resto do texto do provedor fala da publicidade como elemento pressionante junto dos conteúdos editoriais, com uma óptima citação de Claude-Jean Bertrand: "[os anunciantes] exercem pressão sobre os media (..) para que estes apaguem a fronteira entre publicidade e informação".