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março 22, 2006

Teoria da conspiração?

Até que ponto este artigo do DN de hoje serviu ao governo para «testar» as reacções da opinião pública?
O certo é que originou um Fórum na TSF (com reacções muito negativas) e o esclarecimento do governo - anónimo - a dizer que não é bem assim («Em declarações à agência Lusa, fonte do Ministério das Finanças explicou que "um grupo de trabalho coordenado por Luís Laço [inspector-geral da Direcção-Geral de Alfândegas e dos Impostos Especiais sob o Consumo] está a estudar essa possibilidade, que é uma entre muitas", mas que "ainda não está tomada uma decisão").
Que o jornalista foi mal informado, disso não tenho dúvidas («O imposto passará obrigatoriamente a ser liquidado através da Internet, com o pagamento - uma receita camarária, mas cobrada pela máquina fiscal - a ser efectuado no mês da matrícula do automóvel. Os novos moldes de pagamento entram em vigor já este ano, provavelmente em Maio»). Só não posso provar que o foi deliberadamente...
Mas cheira-me a manipulação.

setembro 16, 2005

Cavaco, o (director do) Público e uma certa notícia...

Faz hoje oito dias, o director do Público assinou uma notícia no seu jornal ("Prestações de reforma e subvenções de Cavaco Silva somam 9356 euros"), o que é sempre insólito.
A notícia - com chamada à primeira página - tinha outra particularidade: insistia em expressões como "como o próprio afirmou ao Público", "esclareceu Cavaco Silva ao Público" ou "Cavaco Silva esclareceu ainda ao Público que".

Hoje, no seu veredicto na Antena 1 (por volta das 8.25), José Manuel Fernandes acrescentou um dado relevante: foi Cavaco quem tomou a iniciativa de tornar públicas as duas pensões e a subvenção vitalícia, contactando o jornal (deduz-se). Porquê? Como explicou também JMF, foi uma forma de "esvaziar" um assunto que poderia (vir a) ser polémico.

Algumas notas:
- raras são as notícias que não interessam às duas partes; Cavaco - que mostrou com isto ser candidato à Presidência da República - tem a sua estratégia e a divulgação destes pormenores insere-se nessa estratégia;
- Cavaco contactou directamente o director do jornal e este assimiu a responsabilidade (ainda por conta daquele caso com Manuela Ferreira Leite, em Junho do ano passado, que levou à demissão de Ana Sá Lopes?);
- deveria a notícia do Público dizer que foi o protagonista que contactou o jornal para publicação? Sim. Mas isso levaria a que os jornalistas fossem mais transparentes em muitos outros casos;
- visto, a esta distância, JMF tentou dizer isso mesmo ("como o próprio afirmou ao Público"). Mas na altura não cheguei lá...

julho 06, 2005

(act) "Fala Sócrates" (1) - o momento

Ainda a propósito deste texto, alguns dados mais:
- Sócrates escolheu o momento. E o momento foi a mensagem (posterior ao plano de investimentos, antes do orçamento rectificativo e do debate do estado da nação);
- A preocupção com o momento revela-se noutra situação: o governo assinalou os 100 dias não a 19 de Junho (cem dias desde a posse) mas duas semanas depois. 19 de Junho não era um bom momento, duas semanas depois dava muito mais jeito. De tal maneira que se pode dizer que 100 dias é quando Sócrates quiser!*

* Felizmente, a esmagadora maioria da comunicação social assinalou os 100 dias por volta de 19 de Junho. Era o que faltava...

Act a 7/7: Miguel Gaspar no DN de hoje explica melhor a coisa: "(...) Pelas minhas contas, já é a terceira vez que se assinala a passagem dos primeiros cem dias da governação. Como diria o outro, longos dias têm cem dias. Uma autêntica liberalização do calendário.
O calendário é a chave para interpretar a entrevista de José Sócrates à SIC. Em vésperas de Orçamento Rectificativo, o plano de investimentos do Executivo visava recentrar o debate político, perspectivando-o em termos de futuro. Isto apesar de a Ota e o TGV mais do que soarem a déjà vu."

julho 05, 2005

Fala Sócrates (0)

O primeiro-ministro dá hoje uma entrevista (na SIC)!
Se Santana Lopes falava de mais, José Sócrates fala de menos (é uma opinião... mas uma coisa pode ter a ver com a outra).
De tal maneira que uma entrevista do primeiro-ministro é notícia.
Porquê hoje? Porque o governo anunciou o pacote dos milhões e José Sócrates tem coisas para dizer (é também uma forma - legítima - de condicionar as perguntas, que não poderão ignorar essas medidas).
Não sei se Sócrates virá a ser um bom primeiro-ministro, mas tem uma estratégia de comunicação muito bem definida.
Tentarei analisar essa estratégia a partir de agora, na secção "Fala Sócrates".

novembro 15, 2004

Concordo com a Estrela Serrano

"Se há manipulação feita por políticos é porque há jornalistas que consentem em deixarem-se manipular. Sabemos que, em muitos casos, os há mas talvez nem se possa dizer que se trata de manipulação, uma vez que é consentida, isto é, muitas vezes os jornalistas sabem que estão a passar “recados” que interessam a fontes que pretendem preservar. E, como precisam de notícias, sobretudo se obtidas sob a forma de confidências, prestam-se a esses jogo".

novembro 12, 2004

Coisas que fascinam

Inês Pedrosa, Única de 6/11/04: "O agora demitido director do «Diário de Notícias» fez o que pôde: remeteu para as cafurnas do jornal todas as notícias - muitas delas em primeira mão - relacionadas com a vinda do barco do aborto a Portugal; cortou uma crónica de Fernanda Câncio pela sua contundência; em suma: procurou humildemente não criar ondas à governação. Mesmo assim, foi demitido por este mesmo governo - o que poderia ser uma interessante fábula de proveito e exemplo para os estudantes de Jornalismo (...)".

António Guterres, ontem no Congresso da Democracia: "O problema está sobretudo nos responsáveis do poder político que sucumbem à tentativa de manipular os media sem perceberem que acabarão por ser destruídos por eles".

Nota (mais) pessoal - Não tenho dados que me permitam confirmar o que escreveu Inês Pedrosa, até porque tenho a melhor impressão profissional de Fernando Lima. Mas não deixa de ser curioso que - afinal - também os jornalistas sejam destruídos...

novembro 03, 2003

Ainda a propósito da entrevista (de Sampaio)
Do livro de José António Saraiva (pág. 85), algo que se relaciona muito com o que se escreveu no texto do dia 28:
"À medida que a entrevista avançava, [Mário] Soares mostrava-se incomodado com as perguntas. A certa altura não se conteve mais e disse:
- Mas só me fazem estas perguntas! Se me perguntassem isto.... - e iniciou uma longa dissertação sobre as medidas que poria em prática num determinado sector se estivesse no Governo.
E insistia:
- Se me perguntassem aquilo... E descrevia outro conjunto de medidas.
Achei que tinha de o interromper:
- Mas somos nós que estamos a fazer a entrevista - atalhei.
Soares não se impressionou - e com ar cúmplice, respondeu-me:
- Eu sei, Saraiva, mas deixe-me vender o meu peixe..."
Saraiva, José António, "Confissões de um director de jornal", Dom Quixote, Lisboa, 2003
Todos diferentes, todos iguais?

agosto 29, 2003

Alguns comentários sobre o caso-Kelly e o jornalismo (sendo que, se calhar pela primeira vez, está a fazer-se história em cima do momento, e só mais tarde haverá outras certezas):
- este parece ser um caso de falta de fontes de informação; Andrew Gilligan, da BBC, conseguiu uma que lhe disse coisas muito importantes, mas apenas uma; teria precisado de outras, para testar todas as informações;
- encontrar uma fonte que ousasse dizer a um jornalista o que David Kelly disse é tão insólito que viu-se e está a ver-se ainda o resultado (e falta saber as consequências políticas para Tony Blair);
- o próprio Gilligan já reconheceu erros no seu trabalho, nomeadamente quando afirmou que Kelly acreditava ter sido o Governo a manipular o relatório das armas iraquianas;
Ou seja, parece certo que o jornalista explorou em demasia as informações dadas pelo cientista. levando longe de mais os dados na sua posse. O assunto era explosivo, mas Gilligan ainda o acendeu mais...
O jornalista merece críticas mas também elogios, pelo facto de ter "sacado" uma notícia de grande relevo, que ninguém desmentiu na essência. Só se desconhece - ainda - o autor das armas químicas em 45 minutos.
Entretanto, a divulgação da troca de correspondência entre Gilligan e deputados britânicos, sugerindo perguntas a Kelly, na comissão de inquérito, cujas respostas seriam devastadoras para o governo de Blair, mostra alguma promiscuidade, típica dos jornalistas em círculo fechado (os grandes especialistas... como Gilligan), os "lobby reporters", como são chamados na Casa Branca!