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abril 12, 2006

Quem controla a agenda é quem paga!

O presidente da concessionária dos aeroportos portugueses, ANA, com ligações ao aeroporto de Macau, decidiu visitar a Região Administrativa. Poderia ser uma discreta visita de trabalho, mas através da sua participada macaense, a ANA decidiu convidar três jornalistas (Público, Expresso e Diário Económico) para acompanhar o gestor.
E ontem saíram três notícias com algum destaque nos respectivos jornais (no caso do Expresso, foi no on line, para não se perder a informação).

Algumas notas:
- a visita passaria despercebida, se não houvesse jornalistas;
- nenhum jornal enviaria um jornalista se tivesse de pagar as despesas;
- a visita poderia gerar uma ou outra notícia na Lusa, mas sempre de tamanho reduzido;
- o facto de haver jornalistas destacados «compromete» os órgãos de comunicação social com uma disponibilização de espaço mais relevante (uma página, por exemplo);

Exemplos como este mostram que, por muito que (nos) custe, não são os jornalistas que controlam a(s) agenda(s) - só houve/foi notícia porque os jornalistas viajaram a convite (Público e DE referem essa condição, Expresso não), só houve notícia porque - desculpem a franqueza - alguém pagou essa possibilidade.

(que me lembre, apenas viajei uma vez naquelas condições, a convite dos CTT. Tive tanta sorte que o acontecimento que iríamos cobrir foi adiado e fiquei uma semana na China a passear, sem fazer uma notícia...)

abril 06, 2006

Dizer mal de quem nos paga?

Já suscitei algumas vezes a questão da necessidade de transparência nas deslocações pagas (que só o Público segue com algum rigor em Portugal; O Diário Económico, por exemplo, parece ter regredido). Este texto vem dar alguma razão:

«O eurodeputado Hans-Peter Martin insurgiu-se ontem contra o facto de o Parlamento Europeu (PE) subsidiar alguns jornalistas para fazerem a cobertura das sessões em Estrasburgo. A denúncia do austríaco divide os profissionais portugueses: uns defendem as ajudas financeiras e outros consideram-nas uma condicionante à liberdade de Imprensa (...) Jaime Duch, porta-voz do PE, revelou ao jornal britânico ‘Herald Tribune’ que são cerca de 60 os jornalistas a beneficiar dos apoios, entre eles, provavelmente, portugueses, mas neste caso as opiniões também se dividem, havendo, apenas, consenso num aspecto: não verem os seus nomes citados»

fevereiro 22, 2006

(Alguma) sinceridade

Estão 20 jornalistas em Timor-Leste, a acompanhar a visita de Jorge Sampaio. Só o Público refere que o seu jornalista viaja a convite da Presidência da República. Mas os outros terão viajado nas mesmas condições...
- Esta divergência na abordagem provoca algum tipo de perplexidade aos leitores que têm oportunidade de comparar?
- Os outros jornais não acham importante relevar este facto? (que me lembre, apenas o Diário Económico o faz, e num jornal económico é ainda mais relevante esta sinceridade...);
- Uma nota final: pelo Diário de Notícias está em Timor Ana Sá Lopes; se tivesse viajado pelo Público a indicação estaria anexa à sua reportagem; no DN não. Faz diferença?

dezembro 01, 2005

As (boas e más) prendas de Natal…

(está um bocadinho grande mas é uma vez sem excepção...)

Uma empresa de informática, para lançar uma nova campanha de marketing, decidiu recentemente oferecer a alguns jornalistas um leitor digital de áudio, demonstrando, com uma nota anexa, que não era possível comprar aquele produto mais barato. Eu recebi um.
O objectivo da empresa era conquistar notoriedade para esta nova campanha, tentando conseguir algumas notícias sobre. A oferta é um acto puro de relações públicas, no sentido em que desperta simpatia e pode ser uma forma de induzir à realização da notícia (cada um dos leitores custa, vi no site dessa empresa, 40 euros; se ela tiver oferecido 30 a outros tantos jornalistas não gastou, a preços de custo, mil euros; que publicidade é que comprava com mil euros? E com que resultados?).
No meu caso nem fiz notícia nem, por acaso, fiquei com o aparelho. Mas não deixo de me interrogar – agora que se aproxima o Natal – sobre o poder de sedução destas prendas. Quando é que deixam ser simbólicas (simpatia?) e passam a ser tentativas de comprar espaço mediático (corrupção)?

Vejo três respostas: o jornalista aceita tudo; não aceita nada; ou só aceita algumas das prendas que lhe oferecem. Esta última remete de imediato para a história que me contaram: consta que no Público existe um funcionário encarregado de conferir o valor das prendas que chegam à redacção (de Lisboa?). Se estiverem abaixo do limite definido pelo Livro de Estilo são entregues aos jornalistas; se forem acima são devolvidas… “De todas as ofertas deve ser dado conhecimento à hierarquia e ofertas de valor estimativo superior a 60 euros devem ser remetidas ao expedidor” (pág. 30 da 2ª edição do Livro de Estilo). No livro que escrevi para a TSF não tive coragem de impor um valor. Deixo esta citação do código deontológico da associação norte-americana "Sigma Delta Chi": «“Não (...) aceitar nada de valor” (porque quanto mais valiosa for a oferta mais expectativas favoráveis tem quem oferece!)» (Tudo o que se passa na TSF, pág. 232).

O meu autor fetiche do momento, J. Martins Lampreia, no seu A Assessoria de Imprensa nas Relações Públicas, aborda também o assunto: “Alguns profissionais têm, por vezes, dado a este assunto uma importância exagerada, enquanto a maioria dos autores tem evitado falar nele. (…) As ofertas têm de ser sempre feitas com certa dose de tacto e de diplomacia, e sob certas condições, a fim de não provocarem melindres da parte de quem as recebe. Há que ter em conta as pessoas contempladas, a ocasião escolhida, a natureza da oferta e sua frequência."(pág. 161)
E como não podia deixar de ser, a já clássica franqueza do autor: “a altura em que se dá um presente não deve ser aproveitada para pedir um «favor» ou um pequeno serviço». É preferível, quando isso for imprescindível, esperar pelo menos alguns dias, pois é importante que se sinta o acto de oferecer completamente desligado de qualquer ideia de retribuição” (págs. 164/165) (sublinhados meus...)


PS - Óscar Mascarenhas, num texto que publicou nesse mesmo livro de J. Martins Lampreia, equaciona um dado interessante: “Nos termos dos Códigos de Atenas e de Lisboa, um profissional de relações públicas não pode deixar-se subornar. Mas já não é certo que seja impedido de oferecer presentes tais aos destinatários das suas mensagens (nomeadamente jornalistas) que lhes amoleçam o ânimo. Pressupondo que quem tem de rejeitar o suborno é o jornalista, através do seu próprio código de ética, dispensaram os Códigos de Atenas e de Lisboa de fixar uma proibição específica de suborno aos profissionais de relações públicas” (pág. 11).

agosto 22, 2005

Aposta e ganha (1)

Leio no DN de sábado:
"Mesmo antes de arrancar o campeonato de futebol, a betandwin.com aproveitou a conferência de imprensa sobre o patrocínio para promover o seu negócio junto dos jornalistas. O dossier de imprensa com a informação sobre o acordo com a Liga de Futebol continha também um 'voucher' no valor de 50 euros. O cartão distribuído pelos jornalistas convidava-os a apostar, fornecendo um código de acesso ao site e as instruções de como jogar nas diferentes opções disponíveis online."
Algumas considerações:
- é uma técnica de relações públicas usada frequentemente (envolver os jornalistas com o produto, deixá-los mexer e - se possível - até ganhar...);
- do ponto de vista do meu trabalho jornalístico faz sentido que eu saiba o que é e como funciona a "betandwin.com". Só assim posso explicar aos ouvintes/leitores/telespectadores; e para isso tenho de experimentar;
- mas com o dinheiro da própria "betandwin.com"? Se, por sorte, ganhar nas apostas conseguirei manter a mesma isenção?
Uma nota final, em suspenso, porque o assunto é ingrato: sei que, como jornalista, estou frequentemente a ser envolvido em estratégias de comunicação das entidades que me contactam; também sei que não são os 50 euros que me retiram independência; mas sinto que não devo aceitar a oferta se tenho uma expectativa editorial de me relacionar com a "betandwin.com".

maio 16, 2005

Viajar a convite...

Começou por ser um acto isolado do Público, mas hoje há outros jornais a seguir a regra de identificar as viagens ao estrangeiro quando são feitas/pagas a convite da entidade que se quer promover: o Diário de Notícias, o Diário Económico* e o Jornal de Negócios, por exemplo já o fazem.
O processo está ainda muito no início e ainda não é coerente (nos suplementos de economia do DN e JN há hoje, por exemplo, reportagens feitas na Coreia do Sul, sobre a chegada da empresa LG a Portugal, mas não aparecem identificadas como tal), mas parece irreversível. E vai ter consequências. Os que não se identificarem correm o risco de perder (um traço de) credibilidade - sobretudo quando o mesmo assunto está na concorrência assinalado como tal!

* A maioria diz qualquer coisa como "o jornal ou o jornalista viajou a convite de..."; o DE é menos firme: "Esta é uma viagem da Jerónimo Martins com um grupo de jornalistas para conhecer as operações do grupo na Polónia"

novembro 11, 2004

No Público:

"O Público viajou a convite da Portugal Telecom"
e
"O Público viajou no avião fretado pela Presidência da República". Esta é nova.

julho 07, 2003

Um bem informado (ainda que parcial...) texto na última revista "Jornalismo e Jornalistas" e uma referência feita por Elihu Katz no "Público" de hoje ao tema dos jornalistas incorporados nas colunas militares que avançaram no Iraque justificam este texto: trata-se de uma questão completamente nova (ainda que a ideia já tivesse sido experimentada antes), mas que promete fazer jurisprudência, a partir de agora: devem ou não os jornalistas seguir nas colunas militares, sujeitando-se às regras de quem os "convida"?
Não restam dúvidas sobre a motivação dos militares ("é uma grande ideia", ironiza Katz), resta saber quanto ganham e quanto perdem os jornalistas.
Muitos defendem que o "embedding" deve ser rejeitado à partida, mas - sem prejuízo de voltar ao assunto com mais pormenores posteriormente - penso que devem ser esgotadas formas de intermediação, até chegarmos a essa recusa:
- garantir, desde o início, uma plataforma de entendimento (acautelar princípios básicos de independência e segurança);
- ter o cuidado de escolher repórteres mais maduros (menos susceptíveis às pressões e provavelmente capazes de lidar com conflitos);
- seguir, enquanto for possível trabalhar nas condições mínimas (dando, sempre que possível, a contextualização das condições existentes).
Não mais sendo possível, explicar aos ouvintes o que se passa e abandonar a "comitiva".
O compromisso é sempre com os ouvintes, não é com os protagonistas!