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janeiro 23, 2006

(En) comendas

Jorge Sampaio condecorou na semana passada várias "personalidades", entre elas o advogado Morais Leitão, o empresário Rui Nabeiro, Murteira Nabo ou Pinto Balsemão, todos com a mesma distinção.
No Expresso de sábado, pág. 15: "Sampaio condecora Pinto Balsemão". 10 linhas de texto, com uma foto a cores: Pinto Balsemão a receber a comenda.

É curioso este comportamento: os empresários de média reclamam - e eu acredito - a máxima independência nas suas redacções - menos quando se trata de si próprios!

Das duas uma: ou há instruções das administrações para valorizar os factos em que são protagonistas ou são os jornalistas a auto-censurarem-se. De qualquer uma das formas é perigoso. (penso que o Expresso não noticiaria se Balsemão não tivesse recebido a comenda).

(uma nota: estou a valorizar este caso porque ele surge na linha de outros que se passaram nos últimos tempos no Expresso, várias vezes aqui referidos).

janeiro 15, 2006

O Expresso no seu pior

Da edição desta semana - novo director, velhos hábitos:

1) A notícia da primeira página "China faz de Portugal quinta potência na Europa" (apresentada como sendo novidade) saiu há mais de um mês em diversos lados (aqui, aqui, aqui, ou aqui, para não me alargar!)

2) Coluna de "Últimas" com cinco notícias: uma é sobre a edição do Courrier Internacional, outra diz isto: "Pedro Abrunhosa, The Gift, e Donna Maria vao actuar ao vivo próxima semana das tardes na SIC, «Contacto». Ao longo de duas horas diárias, os apresentadores Rita Ferro Rodrigues, Nuno Graciano e Cláudia Semedo pretendem criar um novo ponto de encontro entre gerações".

3) Cartas dos leitores: 9 cartas, sendo que apenas cinco são de leitores, as restantes quatro (as últimas quatro na paginação...) são de Jorge Coelho, Martins da Cruz, Carlos César e do jornalista do Diário de Alentejo António José Brito (o Expresso continua a esconder ou desvalorizar as cartas que de alguma forma o contestam).

julho 08, 2005

Auto-censura

Já o escrevi mais do que uma vez: em 15 anos de TSF a única limitação que senti foi quando tive de noticiar assuntos que interessam ao accionista/proprietário (e não eram coisas da ou sobre a TSF)...
A generalidade dos empresários de comunicação social defende a liberdade de expressão, acredita nas virtualidades económicas do pluralismo e até está preparado para ouvir queixas dos amigos, quando estes são visados por alguma notícia. Agora nas suas próprias coisas...
Nunca fui censurado, mas já fiz, uma ou outra, vez auto-censura!
Por que é que me lembrei disto? Comprei o número de Junho da revista Marketeer. E logo a abrir pode ler-se uma entrevista do director editorial ao (seu) administrador-delegado.
Que termina com esta pergunta: "Um último desejo?"
Não faria sentido que estas entrevistas fossem feitas por jornalistas exteriores à publicação?

junho 03, 2005

Sinergias de grupo

Porventura será uma tendência irreversível do jornalismo contemporâneo (pós-moderno?) e eu é que sou um velho do restelo, mas continua a custar-me ver a adulteração dos critérios jornalísticos em nome das sinergias de grupo.
No Record de hoje há duas "notícias" sobre duas publicações do grupo: "Mais uma grande «Sábado» na banca" e "«flash!» faz dois anos" (e fala-se na edição que assinala o segundo aniversário).
Gostaria de enfatizar que estas duas referências não aparecem como publicidade, o que seria perfeitamente legítimo, mas como "notícias": ao lado da que fala na «Sábado», diz-se "Venda de carros aumenta em Maio" e na da «flash!», "Ricardo Gomes nega contactos [com o] Marítimo".

abril 26, 2005

Credibilidade do JNegócios em causa?

No Expresso de sábado (última página do primeiro caderno) li uma breve que me deixou apreensivo: "Oliveira contra Fernandes"; a meio da notícia, que dá conta de uma queixa de Joaquim Oliveira contra o Jornal de Negócios, fala-se em "quebra de independência editorial e incumprimento das regras deontológicas" por parte do jornal.
Parece uma coisa grave. Ou será apenas fruta da época (a guerra é mais vasta e o jornal «apanha por tabela»)? O futuro o dirá. Mas parece-me que a credibilidade do Jornal de Negócios é atingida por esta acusação. E a credibilidade é o valor mais importante de cada meio de comunicação social. Esperei pela edição de hoje do JNegocios. Mas nada. Só no Diário Económico é que a questão é desenvolvida (e explicada).
Leitor irregular do JNegócios e admirador de Sérgio Figueiredo, não fico indiferente. E - devo confessar - não é a primeira vez que ouço, entre os jornalistas que fazem economia, acusações de alguma excessiva proximidade com o accionista. Também por isso gostava que isto se esclarecesse...

ACTUALIZAÇÃO a 27/4: o JNegócios refere-se hoje, pela primeira vez, ao caso (que a sua edição on line noticiou na sexta-feira e que deu origem a tudo isto!!!). Mas apenas com uma notícia, que, basicamente, repõe a que o Expresso trouxe no sábado e a do DE de ontem. DE que volta hoje ao assunto, com os mesmos argumentos de ontem, mais a confirmação da queixa entregue pela Controlinveste contra o JNegócios na AACS. Por mim, reafirmo o que escrevi ontem.

fevereiro 27, 2005

Exp2 - Sinergias perigosas

A edição de sábado terá entrado para a história do jornalismo português - pelo menos quando se estudarem as diferentes sinergias de grupo e os diversos impactos em cada um dos produtos irmãos...
E digo terá entrado porque pela primeira vez (?) um jornal publicou um desmentido de outro (como notícia e não como publicidade)!
O insólito acontece na primeira página do caderno de Economia, com uma carta da revista Exame (do universo de empresas de Pinto Balsemão). Aconselho a leitura, pelo inesperado, mas aqui fica o início:
"A «Exame» e Teixeira Pinto (título)
A Revista «Exame» publicou esta semana um comunicado, que reproduzimos na íntegra...
(e segue-se uma correcção da Exame a um artigo sobre o novo presidente do BCP, com um pedido de desculpas "a Paulo Teixeira Pinto e aos nossos leitores". Quais leitores? Os leitores? Mas quais leitores? Os leitores!

dezembro 21, 2004

Os interesses do accionista

Em quase 20 anos de jornalismo devo confessar que apenas uma vez um político me pressionou (e conseguiu...) para obter uma entrevista, era Guterres primeiro-ministro, e que apenas me sinto constrangido quando tenho de noticiar assuntos do meu accionista (seja este, seja o anterior).
A minha experiência diz-me que os proprietários dos órgãos de comunicação social - genericamente - sabem da importância da independência editorial (porque isso se traduz em credibilidade e credibilidade vale dinheiro), mas quando se trata de noticiar os seus próprios assuntos já têm mais dificuldade em perceber: "então a nossa rádio não noticiou a nossa iniciativa?...".
Vem isto a propósito de algo que - se calhar - não tem nada a ver, mas... na última página do primeiro caderno do Expresso, coluna de "últimas" (edição de sábado), pode ler-se:
1) "A iniciativa é da revista «Cais», com o apoio de várias empresas, de uma instituição bancária e da Câmara...";
2)"A Impresa [não diz, mas é a empresa proprietária do Expresso] foi a única companhia que na sexta-feira registou uma subida no mercado de capitais..."
Ou seja, as várias empresas e a instituição bancária são suficientemente importantes para serem referenciadas mas não para serem nomeadas, já a Impresa...

novembro 05, 2004

Pressões internas

Da lista de pressões internas que afectam uma redacção há duas mais graves: a pressão do marketing/publicidade para fazer publicar "press releases" como se fossem notícias/entrevistas e as relações com as administrações/accionistas (que têm tradicionalmente dificuldade em lidar com as notícias que lhes dizem respeito), levando a algum tipo de auto-censura.
Aquilo que Fernando Lima ontem contou na AACS é um exemplo disso mesmo (mesmo com boas intenções):
"O ex-director do DN admitiu, por outro lado, ter feito um tratado de lealdade com a administração, quando entrou no jornal, em que a direcção se comprometia a dar conhecimento prévio à administração sobre as notícias que saíssem em relação à PT. No entanto, Fernando Lima garantiu que “nenhuma notícia deixou de sair, nem nenhum jornalista foi condicionado”. Apenas havia o compromisso de ouvir a versão da PT, se esta assim o entendesse."
A propósito do que acabei de escrever, um excerto do editorial de hoje de José Manuel Barroso no DN: "Se for corajoso [Pacheco Pereira], não precisa da boleia dos editoriais do DN para fazer política partidária travestida de análise isenta. A menos que seja o recente reforço da operação comercial montada para convencer alguns leitores de que só há um jornal independente. Pacheco: no DN, não há jornalistas nem colunistas que façam fretes à direcção comercial."

setembro 28, 2004

A invasão do marketing no produto editorial (e a força dos accionistas)

Do texto do Provedor do Público de domingo:
"(...) Acácio Barradas (...) falou da sua experiência no «Diário de Notícias», em que as reclamações em relação aos cinemas Lusomundo (que pertencem ao mesmo grupo económico do jornal) nunca eram publicadas, sendo exercido um «veto de bolso» por parte do director".
(da notícia "Interesses Económicos Influenciam Escolha das Notícias", que saiu no Público de 20/9 e me passou despercebida)

DESENVOLVIMENTO: O provedor do Público voltou este domingo (3/10/04) ao tema, estimulado pela referência feita neste espaço e, principalmente, pelo contributo de Rogério Santos. Fica um excerto:
"(...) Mas se esta é a substância do comentário de Rogério Santos, há nele uma outra dimensão que vem a propósito observar: há dois ou três anos, se quisesse prestar o seu testemunho, Rogério Santos teria escrito para o provedor, ou para o jornal e aguardaria que os critérios destes divulgassem o seu contributo. Hoje, em vez desse caminho "tradicional", escolheu intervir através de um veículo que lhe garante automaticamente a difusão da mensagem: a blogosfera, esse novo mundo que habita o mundo novo que é a Internet e que, cada vez mais se apresenta como incontornável aos "velhos" mundos da comunicação".

setembro 10, 2004

O que pensa um patrão de jornalistas*

Três frases de Pinto Balsemão, citadas no DN de hoje e importantes por ter sido ele a dizê-las:
1) actualmente ainda há muita gente que pensa que são «os proprietários dos grupos de comunicação que controlam os conteúdos e as notícias. E à volta disto surgem as teorias da conspiração»;
2) a busca desenfreada da audiência «prejudica a qualidade e afecta o produto informativo»;
3) «não há razão para uma total impunidade do lado do jornalista» no que diz respeito a violações do segredo de justiça»;
(*e - já agora - eu também...)

agosto 18, 2004

Grande reportagem - Até que enfim que alguém...

O presidente do Conselho de Administração da Investec (Correio da Manhã, Record, Sábado para referir as maioritárias), Paulo Fernandes, é o destaque da GR de sábado.
Ao seu perfil, "falta" juntar esta citação, notável, retirada do livro de Elsa Costa e Silva, "Os Donos da Notícia" (Porto Editora, Porto, 2004, pág. 167):
"(Fala nos media em geral, mas está sobretudo na imprensa. A imprensa é rentável?) A imprensa é muito rentável, escandalosamente rentável. O problema é que há pessoas que não sabem fazer imprensa e têm tendência para generalizar a situação deles para a situação do negócio. O negócio é francamente bom. Para quem vem de indústrias e de negócios com margens apertadas e onde é preciso estar sempre a controlar custos, este negócio é um autêntico doce".
(sublinhados meus)

julho 13, 2004

Interessante a notícia de hoje do Jornal de Negócios (Banif Investimento aposta na 'Carteira').
O banco Banif Investimento comprou uma percentagem importante (não se percebe ao certo quanto), através de uma sociedade de capital de risco que controla, da revista "Carteira" (dedicada aos investimentos pessoais).
O administrador do Banif considera que o investimento não compromete a independência da revista, "afinal quem escreve é o jornalista e não o accionista".
Já o director da 'Carteira' disse "não saber nem querer saber se o Banif Investimento é accionista. Quem gere é a New Capital [a capital de risco]".
Admitindo que o banco conseguirá digerir as apreciações menos positivas que a revista fará dos seus produtos financeiros, e que resistirá a intrometer-se nas prioridades editoriais, o problema está mais no "parecer" do que no "ser".
Não parece muito bem, mas...

julho 04, 2004

"Hoje, se se fala de alguma coisa que colide com os interesses económicos do grupo a que pertence o meio de comunicação onde estamos inseridos temos a censura, que é a censura da prateleira".
(Jorge Perestrelo, Focus, 30/6/2004);

PS - Da mesma entrevista (interessante, por sinal), outra citação, que se relaciona com um tema recorrente, aqui, nas últimas semanas: "Existe uma relação muito próxima entre jornalistas e jogadores. Eu, por exemplo, sempre me resguardei desse contacto, a nível de jogadores e de presidentes de clubes. O Sousa Cintra fartava-se de convidar jornalistas para irem a casa dele, com patuscadas. Eu nunca fui. Quero sentir-me à vontade para poder falar mal ou bem quando eu quiser".
Ainda na mesma entrevista, Jorge Perestrelo diz "recusei três campanhas de publicidade que me davam bom dinheiro. Recusei porque, como sabe, o nosso código deontológico proíbe-nos de fazer publicidade". O "kit kat" foi uma pausa?