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janeiro 09, 2006

Interesse público

A investigação do Tal & Qual (de há duas semanas), denunciando que há droga a ser transaccionada na internet, é claramente uma reportagem de interesse público (nem consegue ser feita se não forem ultrapassados alguns pressupostos deontológicos). A atitude da PJ é profundamente ridícula.

novembro 03, 2004

Direito à imagem

A jovem que ontem foi a julgamento por conta de um aborto pediu, através da sua advogada e da juíza, para não ser filmada ou fotografada.
Por aquilo que se vê nos jornais de hoje esse pedido foi respeitado.
Ou seja, vingou o direito à imagem em vez do "interesse público"! Mas qual é o "interesse público" de uma foto dessa jovem?

PS - A propósito da notícia do DN sobre este caso retive um excerto: "A «menina» que o era aos 17 anos e talvez o seja aos 21, que vive num barraco no sopé de uma urbanização suburbana, que está desempregada e, para juntar ao rol, é negra, pode ir em paz. É oficial: não cometeu nenhum crime.
Porque é pobre e menina e negra, e assim podemos ficar todos de consciência tranquila e continuar a dizer que a lei que criminaliza o aborto não tem mal, porque os tribunais não condenam.
"
Posso estar a ser injusto com a jornalista em causa (uma excelente jornalista, por sinal, que sigo há vários anos), mas qual é a pertinência de relevar a cor (negra) neste caso?

setembro 08, 2004

Voyeurismo mas não privacidade... no banco de suplentes

O episódio da gravação e posterior transmissão de uma conversa entre o treinador do Benfica e o seu adjunto remete, aparentemente, para o domínio da privacidade.
Mas remete, mais, para a obtenção de informações por meios leais.
Ou seja, pessoalmente, e neste caso em concreto, não me importa tanto que seja "seja lamentável que num espaço reservado, não exista privacidade" (Álvaro Magalhães) mas já acho que o director de comunicação do Benfica, Cunha Vaz, tem razão quando diz que "O técnico e o técnico-adjunto do Benfica foram escutados sem que para tal tenha sido dada autorização".
Essa é que me parece ser a questão principal.
O banco de suplentes não é um local reservado, mas as conversas que lá decorrem só podem ser transmitidas se houver autorização prévia.
A gravação, como aconteceu, sem que soubessem que isso podia acontecer, foi obtida por meios desleais. E aqui não se pode invocar qualquer interesse público - que seria justificado no caso-Octávio Lopes (os dois casos têm semelhanças mas não ouvi nada nesse sentido).
No basquetebol é normal assistir às conversas dos treinadores com jogadores, nos intervalos, mas eles sabem que anda um microfone (e uma câmara) por lá.

agosto 20, 2004

Ainda as gravações sem autorização

Por uma definição dos termos
Lê-se:
"...à revelia da vontade das suas fontes, muitas das quais exprimiram mesmo a vontade de só dialogar com o jornalista em "off" [the record], o que na gíria significa que o diálogo não é para ser gravado."
Uma conversa em "off" não implica que não possa haver registo. "Off", do meu ponto de vista, significa confidencial, significa que o que é dito não pode ser atribuído directamente a ninguém (antes, "uma fonte do....", "o jornal apurou que...").
Também por isto seria importante uma (re)definição dos termos, pelo menos ao nível do Conselho Deontológico do Sindicato; sempre ficaria alguma jurisprudência para o futuro.
Isto equivale, no jornalismo norte-americano (mais adiantados do que nós na questão das fontes) ao "deep background".
Mas - repito - não me parece que haja uma relação directa com a gravação.

agosto 13, 2004

As gravações sem autorização

No Público de hoje "Directores de Informação Contra Uso de Gravações Não Autorizadas"
Algumas considerações:
- Apesar do que o título deixa perceber, a ideia geral do artigo não é essa: o interessa público pode levar a uma decisão em contrário (como já escrevi, só gravando é que posso avaliar, a posteriori, se há ou não interesse público...);
- Duas frases de José Manuel Fernandes que subscrevo:
- "há situações em que os jornais entendem que devem pisar o risco". "São situações limite, que implicam que os directores e os jornalistas assumam que poderão vir a ser julgados por isso." Mas o caso das cassetes roubadas não é, em sua opinião, uma situação limite.
- "Há pessoas que dizem coisas aos jornalistas que nunca deveriam dizer, escudando-se no sigilo profissional", e no facto de ser "o jornalista a dar a cara quando há violação do segredo de justiça".
- A fechar, já agora: JAS, do Expresso, diz que "não devemos publicar material obtido de forma ilícita". O Código de Conduta não admite o contrário?

As gravações sem autorização

Sigo sempre com especial atenção as observações de Estrela Serrano sobre o jornalismo. A entrevista, hoje em O Independente, é, como esperava, interessante.
Retenho duas frases:
- "Há uma regra básica que é a lealdade entre o jornalista e a fonte e uma gravação é diferente de um apontamento escrito";
- "Ele [o jornalista do Correio da Manhã] podia ter gravado as conversas, feito a transcrição para papel e depois destruído as gravações
".

agosto 12, 2004

As gravações sem autorização

(a propósito disto)

"SEJAMOS CLAROS
Se eu fosse o jornalista do Correio da Manhã, Octávio Lopes, também tinha gravado as conversas, com ou sem o consentimento dos seus interlocutores. Tendo consciência do risco em causa, por acaso existia outra forma de Octávio Lopes se defender?
A questão central aqui é outra: a que propósito é que tantas pessoas falaram ao telefone com o jornalista sobre o processo Casa Pia?
"
in http://bloguitica.blogspot.com/

agosto 10, 2004

As gravações sem autorização

Em mais de um ano, este é o assunto mais complicado de tratar. Confesso, até, que preferia estar de férias e, assim, ter o pretexto para passar ao lado (ou, pelo menos, só o tratar quando estivesse mais esclarecido), mas estando a escrever sobre outras coisas, seria pura cobardia nada dizer.
Ainda assim, evito uma posição mais definitiva; para já deixo algumas interrogações:
- se alguém conta tudo em "off", aceita também que o jornalista tome notas; se o jornalista, por acaso, até sabe estenografia conseguirá reproduzir palavra a palavra. É muito diferente de uma gravação? Quem não quer gravações é para poder desmentir-se?
- quando alguém insiste com o jornalista que não quer gravações está a dizer textualmente que não quer que registem a sua voz ou apenas, em sentido figurado, a insistir que a conversa é num registo "off"? (já me aconteceu esta situação);
- o Estatuto do Jornalistas, artigo 14º (alínea I), admite excepções à recolha de sons sem autorização, em nome do interesse público. Mas eu só posso saber se aquilo que a fonte me está a dizer é de interesse público se gravar; depois já não é possível ("importa-se de repetir tudo, porque eu estava distraído?");
- mas, nesse caso, também acho que as gravações devem ser imediatamente destruídas, se não configurarem qualquer "interesse público";
- o Código Penal (artigo 199) fala em gravações ilícitas quando não há consentimento; mas isso implica pedir textual e previamente autorização ou apenas parar de gravar se houver indicação em contrário por parte da fonte?
Ou seja, pelo tom das perguntas, penso que fica uma ideia clara: pelo menos nesta fase, não acho que seja tão simples dizer que "o jornalista não pode, em qualquer caso, fazer gravações sem avisar a pessoa em que causa de que o está a fazer" (Arons de Carvalho) ou que é "um comportamento deontologicamente censurável" (PGR).
Mas nada disto pretende contrariar dois valores essenciais: o sigilo relativamente às fontes e o respeito pelo compromisso do "off".
Voltarei...

agosto 09, 2004

Obter (boas) informação por meios desleais

A BBC mostrou (mais uma vez) como é possível conjugar serviço público, jornalismo e informações obtidas de forma desleal. Aparentemente este é um tríptico inconciliável, até porque, por exemplo, o Código Deontológico dos Jornalistas diz (ponto 4) que "o jornalista deve usar meios leais para obter informações, imagens e documentos".
Mas as excepções estão enquadradas em situações de "incontestável interesse público". Que, nomeadamente, o "Press Complaints Comission" tipifica em nome do "interesse público". E onde se enquadra o caso dos subornos olímpicos.
O problema não está em conciliar disfarces com jornalismo em situações destas, mas na sua banalização ou recurso sem razão plausível - lembram-se de quando uma jornalista entrou numa assembleia geral de uma empresa cotada, que era vedada a jornalistas, com o recurso ao estatuto de accionista, para depois poder escrever?