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março 16, 2006

Tão óbvio que...

Por acaso tive acesso a um email de um ouvinte que ontem à noite questionava a opção da TSF durante os jogos Académica-Sporting e Benfica- Guimarães. Pergunta o ouvinte:
«Gostaria de tentar perceber qual a lógica, se é que ela existe, numa altura em que estão dois jogos de futebol importantes, a contar para a Taça de Portugal, a ocorrer ao mesmo tempo Académica-Sporting e Benfica-Vitória de Guimarães, a TSF prefere dar primazia a este segundo em detrimento do primeiro, tendo como premissas os seguintes dados:
- O jogo do Sporting começou cerca de 15 minutos mais cedo;
- O jogo do Benfica dá na TV em canal aberto (RTP) o do Sporting não dá sequer em canal codificado;
- O jogo do Benfica é em casa (local onde há mais sócios que de uma maneira fácil se podem dirigir ao estádio);
- Nenhuns dos clubes (Sporting vs Benfica) deve ser considerado mais importante, e por consequência ter maiores taxas de audiência; Sporting 2º classificado, Benfica 3º classificado na LPFP
- Nenhuns dos clubes (Académica vs Guimarães) deve ser considerado mais importante, e por consequência o jogo teoricamente ter mais interesse; Académica 9º classificado, Guimarães 16º classificado na LPFP
»

Se este ouvinte se dá ao trabalho de elaborar este texto, com argumentos razóaveis e lógicos, certo da sua perplexidade, é porque não percebeu aquilo que para nós - jornalistas - é óbvio: que com o Sporting a ganhar e o Benfica a perder o interesse jornalístico estava na Luz. Mas quantas vezes aquilo que é óbvio para nós acaba por ser «ruído» no receptor?

fevereiro 01, 2006

Chama-se a isto enviesamento (e é grave!)

Luís Paixão Martins não tem dúvidas em afirmá-lo. E se ele o diz, desta forma, vale a pena contestá-lo? Será mais interessante perceber porquê. Porque os jornalistas são, sociologicamente, de esquerda (são mesmo, ou é um lugar comum?)?

"a comunicação social penaliza mais as candidaturas de direita (...) Outro exemplo é Jerónimo de Sousa, que fez um grande evento no Pavilhão Atlântico com dezenas de autocarros alugados. Isso era uma coisa impensável numa candidatura de direita, pois os jornalistas não chegariam a entrar no pavilhão, ficavam à porta a mostrar os autocarros e a fazer contas ao dinheiro gasto. Numa candidatura de direita temos de ser ainda mais rigorosos do ponto de vista mediático do que numa candidatura de esquerda

janeiro 13, 2006

Crime e castigo

A maior parte dos órgãos de comunicação social parece estar a redimir-se da segregação feita a Garcia Pereira durante a pré-campanha, compensando-o agora com a mesma atenção dada aos restantes candidatos (em muitos casos, um jornalista por candidato).
Acontece que, como é claro nesta altura, Garcia Pereira não tem nem programa de campanha nem dinâmica que justifiquem essa afectação de meios (restam as suas divertidas afirmações). Contudo, o espaço (em tempo ou caracteres) de cada rádio, televisão ou jornal está como que reservado prévia e administrativamente: o mesmo espaço dado a candidaturas que têm programas preenchidos, uma dinâmica evidente, capacidade de criar factos.
Houvesse uma avaliação jornalística mais fria (mais... jornalística!) e Garcia Pereira estaria a ter muito menos espaço do que aquele que tem conseguido. Qual é a explicação? É o castigo depois do crime!

PS - antes que apareçam alguns comentários mais inflamados, este não pretende ser um comentário político!

janeiro 02, 2006

Duas opiniões que gostei de ler

"O candidato presidencial do MRPP, o advogado Garcia Pereira, protestou com toda a veemência de que é capaz (...) contra a exclusão dos debates televisivos de pré-campanha e tem muita razão. Não tem toda a razão, mas tem bastante, porque os critérios jornalísticos que o excluíram, incluíram Alegre que à, partida, nem sequer tem qualquer resultado anterior que o sustente, como é o caso do próprio Garcia Pereira"
Pacheco Pereira, "As razões de queixa de Garcia Pereira", Sábado, 29/12/05

"Prémio Ó Mana, Desculpe Lá Perguntar: para Maria João Avillez, pela entrevista à irmã Maria José Nogueira Pinto antes das autárquicas. Se a moda pega, Judite de Sousa entrevistará o marido Fernando Seara, Sandra Felgueiras a mãe Fátima, Rita Ferro Rodrigues o pai Eduardo (...) e não tenho espaço para mais, que isto de jornalistas e políticos é pano para muita manga".
Eduardo Cintra Torres, "And the Olho Vivo goes to...", Público, 31/12/05

dezembro 29, 2005

(ainda) A escolha dos candidatos presidenciais

A escolha feita pela comunicação social de cinco (pré)candidatos presidenciais em detrimento de outros que estariam, à partida, nas mesmas condições, suscitou aqui dois textos e várias interrogações.
Ontem, no editorial do Público, Nuno Pacheco explica por que é que o seu jornal os excluiu:
"Nestas eleições presidenciais (...) as candidaturas que se apresentam como marginais ou alternativas ao sistema sofrem de uma extrema debilidade, a ponto de não apenas darem um retrato pouco recomendável do país como ainda serem capazes de reduzir à caricatura a tal cidadania que tanto invocam".

As dúvidas do blasfemo João Miranda fazem algum sentido.

dezembro 06, 2005

Critérios de notícia: proximidade (Benfica)vs actualidade (FC Porto)

A minha experiência a leccionar matérias jornalísticas no ensino superior diz-me duas coisas:
- a dificuldade de explicar aos alunos (pelo menos em poucas aulas) as lógicas que marcam os critérios de notícia é directamente proporcional à importãncia dessa mesma matéria;
- por isso ou por outra razão, a matéria não tem nos curriculos dos cursos superiores a importância merecida ou desejada;

Lembrei-me disto a propósito de duas situações com o mesmo sentido: ontem o Telejornal da RTP mostrou uma reportagem sobre a saída de Jorge Costa do Fc Porto e outra sobre o jogo do Benfica, dois dias depois. Hoje as capas do Record e de A Bola têm Benfica em destaque (O Jogo faz duas capas, a sul e a norte).
E o jogo do FC Porto, que é hoje?
Eis um exemplo claro da falta de força do critério de "actualidade" face ao gigante "proximidade" (ou "interesse geral")!

novembro 16, 2005

"Voo para a Venezuela"*

Hoje ouvi uma notícia que dizia, entre outras coisas, isto:
Há sete pessoas em Portugal há mais de três anos à espera de serem julgados (em prisão preventiva, portanto). 57 aguardam pelo julgamento há mais de dois anos. E na mesma peça um elemento da Ordem dos Advogados dizia que em 2002 mais de 180 pessoas estiveram três anos em prisão preventiva e, quando julgados, foram absolvidos.

Depois de ter ouvido isto fiquei ainda convencido que a galinha da vizinha é muito melhor do que a minha (e que Hugo Chavez até foi muito brando quando nos puxou as orelhas...)!

*por acaso, nome de uma das mais bonitas músicas que ouvi até hoje

novembro 09, 2005

(act) O jornalismo é conservador!

Um dos objectivos deste blogue é tentar demonstrar a precaridade do trabalho jornalístico, para que possa ser melhor compreendido, tentando revelar algumas das fragilidades mais comuns (apenas para se falar na coisa,não com pretensões de resolver alguma coisa, obviamente).

Uma das maiores dificuldades do jornalismo é conseguir dar as mesmas oportunidades aos vários protagonistas, na base de um tratamento com equidade (por falta de espaço mediático ou de meios humanos). Quando se chega a eleições essa dificuldade aumenta - como falar de todos os candidatos com algum equilíbrio?

Mas a situação mais grave é aquela em que vivemos actualmente, a das pré-candidaturas, em que não há realmente candidatos, mas muitos anúncios.

Do lado da comunicação social o argumento é simples: acompanham-se os candidatos considerados mais importantes (pela sua notoriedade, peso político ou apoios partidários). E lá temos os cinco tentando conquistar o máximo de espaço.

Do lado dos candidatos excluídos é uma frustração: a comunicação social cria o paradigma e não permite intromissões (o último foi o Bloco de Esquerda!), penalizando por exemplo os verdadeiros candidatos independentes - que terão de ser heróis para conseguir reunir as assinaturas sem visibilidade pública.

Como resolver isto?
É evidente que o espaço mediático (o tempo dos noticiários ou as páginas dos jornais) não é ilimitado, que têm de ser introduzidos alguns critérios de importância, mas não é uma demonstração de forte conservadorismo fazer sempre os mesmos?

ACt a 10/11: Um dado mais a equacionar: os cinco (ou seis...) só não serão candidatos se não o quiserem (têm formas de o garantir); já os independentes, justa ou injustamente, acabarão por não o conseguir (alguns aproveitam apenas para ganhar visibilidade junto dos vizinhos!).

outubro 24, 2005

Chamem-me nomes se estiver enganado, mas...

É - para mim - absolutamente incompreensível a super-atenção que a generalidade dos jornalistas têm dado ao piloto português preso na Venezuela.
É certo que, agora, Luís Santos está em prisão domiciliária e tem um telefone por perto, que facilita o contacto, mas a proximidade jornalística já vem de trás.
Algumas notas sobre a minha perplexidade:
- o piloto é um dos quatro portugueses detidos na Venezuela envolvidos no mesmo caso; e o que é que se sabe dos outros?
- os jornalistas acham que Luís Santos é mais inocente do que as três senhoras? E a presunção de inocência não é abstracta? As senhoras falam?

- Luís Santos (que obviamente beneficia e faz muito bem) fala quase todos os dias. Porquê?
- o que é que é notícia, aqui? Um ano à espera de julgamento? Há tantos Luís Santos em Caxias, Custóias, etc... 20 adiamentos? E quantos adiamentos, em dois ou tres anos de espera, não acontecem por cá todos os dias (os dirigentes venezuelanos até já nos puxaram as orelhas...);
- a intervenção do poder político? Devo acrescentar que as notícias começaram muito antes dessa intervenção, mas agora os nossos políticos intercedem por uns e não por outros?

Eis um caso lamentável, sem justificação ou enquadramento jornalístico. Muito diferente deste, na minha opinião.

outubro 11, 2005

Os bombos da corte *

Avelino Ferreira Torres responsabilizou os jornalistas pela sua derrota em Amarante. Toda a gente respirou de alívio. Mas como Valentim, Isaltino e Fátima ganharam, os jornalistas é que tiveram a culpa (como ontem se ouviu no Prós e Contras, mas não apenas).

Em que ficamos? Nestas autárquicas não se falou em Cascais? Pois não. São 308 concelhos e a esmagadora maioria terá de ficar sem cobertura dos órgãos de comunicação social nacional. Falar de Cascais obrigaria a falar da Amadora, de Gaia, de Valongo, da Maia, do Barreiro, para referir apenas os concelhos proporcionais.

Como é que se resolve a discricionariedade nas rádios, televisões e jornais nacionais? Definindo um conjunto de critérios. É notícia quando um homem morde um cão? É. Por isso é que candidatos expulsos pelos seus partidos e concorrendo como independentes são notícia (e os critérios de notícia são quase universais). Ou seja, não é só o que o público quer (mas como o DN de hoje mostra, Fátima, Isaltino ou Valentim tiveram mais audiência do que Sócrates).

* expressão usada por um colega de redacção, que plagio sem a devida permissão...

setembro 30, 2005

Em defesa do azul!

Não trabalhando eu num jornal (sem nenhum interesse directo ou indirecto a defender), acho que estou perfeitamente à vontade para dizer que – como director – teria aceite sem reservas aquela proposta da TMN de pintar o jornal de azul.
Mais, aceitaria idênticas propostas se – como aconteceu – elas deixarem clara uma separação entre “conteúdos jornalísticos e mensagem publicitária” (para usar a expressão do Sindicato dos Jornalistas). Aceito que se pense o contrário, que os jornais se venderam, mas não acho que isso retire credibilidade aos jornais.

Muito mais grave, na minha opinião – e sobre isso nunca ouvi o Sindicato – é a prática infelizmente comum de confundir marketing promocional dos jornais e “sinergias de grupo” com notícias – veja-se a última página do Público de hoje, em contraste flagrante com o que diz o novo livro de Estilo *.
Muito mais grave é publicar reportagens ou entrevistas pagas, dissimuladas de jornalismo ou dar uma dimensão jornalísticas a actividades do próprio jornal (auto-promoções) ou do grupo em que se insere.

Estes três exemplos – claríssimos – demonstram promiscuidade entre conteúdos jornalísticos e mensagem publicitária. Isto, sim, é enganar os leitores. Contra isto me bato há anos. Mas sobre isto não tenho lido nada.

PS1 – O Sindicato sabe que há vários jornais com a corda… nas mãos do accionista. O Sindicato não pode rejeitar este tipo de receitas e lamentar, depois, os despedimentos;
PS2 – A menos que, em cada um dos oito jornais, apenas a direcção aprove “o azul”, este é mais um caso que demonstra um divórcio entre o Sindicato e os seus associados. Isto merece ser melhor discutido!

* O conteúdo promovido, um disco original a propósito do Dia Mundial da Música, que o Público distribui gratuitamente, pode ser notícia. Mas na secção de cultura. Não na última página. Quando é que um disco, original, volta a ser notícia na última página do Público?

setembro 28, 2005

(2 x act) Publicidade ou jornalismo? Jornalismo

Hoje, na redacção, as opiniões dividiram-se: foi correcto ter explicado aos ouvintes, no noticiário das oito da manhã, que os principais diários portugueses estavam vestidos de azul? É que isso é uma manobra de marketing da TMN, que tem a partir de hoje um novo design, uma nova imagem, um novo slogan.

Eu não tenho dúvidas! É notícia. Da próxima vez, se houver uma próxima vez, que alguma empresa pinte as primeiras páginas de tantos jornais (incluindo desportivos, como agora) isso já não será notícia, mas - aqui - temos claramente os critérios da originalidade e da novidade a pesar.

A TMN ganhou com essa notícia? Ainda bem para ela! Mas todos os ouvintes/leitores que esta manhã virem a mancha azul nos quiosques, e souberem explicar aos seus amigos/colegas a razão, vão sentir que também ganharam em ouvir a TSF (não ouvi com atenção a Renascença nem a A1 nem vi a televisão para poder dizer se também noticiaram, mas o princípio é o mesmo).

act: No Atrium uma questão interessante. As edições online passam ao lado da maré azul...

act: O habitualmente quedo e mudo Sindicato dos Jornalistas acaba de divulgar um comunicado com o título "Não há limites às pressões da publicidade?", em que considera "chocante a submissão dos órgãos de comunicação ao recurso publicitário utilizado" por pôr em causa o "princípio da clara separação entre publicidade e informação". Claramente, não concordo. Mas é bom falarmos destas coisas.

setembro 14, 2005

Telecerimónias

Um leitor questionou-me, a propósito deste texto, sobre uma questão que para ele era fundamental: mais importante do que saber se Sócrates foi ou não o verdadeiro demolidor, seria abordar aquilo que ele considerava um exagero: 20 minutos sobre as demolições nas televisões.
A minha resposta a esse leitor foi a seguinte: obviamente não discuto a duração em concreto, mas a (tele)cerimónia tinha todos os ingredientes para se poder transformar em grande notícia: a novidade da implosão, a dimensão (qualidade?) do projecto e, principalmente, a multiplicidade de imagens.

Por que é que recuperei este assunto velho? Porque este domingo sucedeu o inverso: Tiago Monteiro conseguiu uma proeza, no GP da Bélgica, muito mais relevante do que aquela ida ao pódio, por desistência colectiva, em Junho (GP dos EUA). Na altura não houve media que não levasse aos píncaros um feito quase nulo (eram só seis pilotos, dois dos quais da Minardi…). Até o nosso Presidente se congratulou! Mas a proeza desta semana (8º lugar numa prova normal, entre mais de 20 pilotos, 13 dos quais cortaram a meta) não tinha a imagem do pódio. Não havia a telecerimónia. E a coisa passou ao lado.
Há valores noticiosos com mais valor do que outros...

agosto 29, 2005

(act) Publicidade na Sábado?

O que dizer da capa desta semana da revista Sábado?
A propósito de um trabalho desenvolvido sobre "os brinquedos dos adultos" e, em concreto, do lançamento da nova consola portátil da Sony, a PSP (Play Station Portátil), a revista contratou dois modelos (que aparecem também na foto de abertura do trabalho, no interior) e fotografou-os pretensamente a jogar a PSP. Nas duas fotos, de página inteira, é claramente visível o aparelho da Sony (no caso, dois).

Primeiro: acredito que tenha sido uma opção meramente editorial (caso contrário, seria muito grave), mas igualmente discutível. É certo que se o gancho de actualidade que suporta o trabalho é a nova PSP, esta justificaria o destaque.
Mas há várias questões a ter em conta:
- o trabalho não é sobre a "play station portátil" mas sobre "a febre dos brinquedos digitais" (os "gadgets");
- há, no resultado final das fotos, uma colagem - na minha opinião excessiva - ao produto;
- haveria sempre outra forma de fazer, menos ostensiva, mais sugestiva (e, podendo parecer um pormenor, é aqui que a fronteira aparece);
- embora o trabalho me pareça muito equilibrado e com qualidade, as fotos dão claramente um sinal publicitário. Injusto?

PS - não sou leitor semanal da Sábado, mas penso que não é prática corrente esta colagem publicitária. Ou estou enganado?

Act a 1/9: que diferença na BBC

agosto 17, 2005

(act) Fazer a diferença

A Lusa publicou ontem, por volta da uma da tarde, a notícia de que saiu em Diário da República a lei que vai regulamentar a venda de medicamentos fora das farmácias.
Hoje essa informação é notícia em todos os jornais.
Mas com abordagens diferentes:
- o DN valoriza a questão da pilula do dia seguinte;
- o JN destaca o facto de ser já em Setembro que começa;
- o Correio da Manhã diz que serão poucos os remédios fora das farmácias;
- e o Público valoriza o facto de não ser necessário um farmacêutico em cada posto de venda(basta um por cada empresa);
A notícia é a mesma, mas cada jornal escolheu um ângulo diferente. Qual deles é o mais importante? Sinceramente, não sei, porque não domino o assunto. Mas sei que o ângulo do Público tem "picante", até porque (li...) representa uma alteração ao anteprojecto que esteve em discussão pública. E foi essencialmente isso que a jornalista do Público fez, comparou! A notícia teve grande eco na emissão da TSF desta manhã e já motivou a intervenção do ministro da Saúde.

Act a 18/8: Uma das formas de avaliar qual dos quatro ângulos era o mais importante é analisar o desenvolvimento que tiveram. Nos jornais de hoje há três desenvolvimentos: o Público desenvolve o seu; o Diário de Notícias recupera a perspectiva do Público; o Jornal de Notícias faz dois textos. Num deles segue a abordagem no Correio da Manhã e noutro desenvolve o ângulo de ontem do Público. O Correio da Manhã não volta ao assunto. E o Público sai vencedor deste mini-torneio editorial...

julho 07, 2005

O lado mau do jornalismo

Era uma vez um jornal que obteve uma boa dica: há um ministro que tem 11 motoristas, sendo que cinco deles estão ao seu serviço. Um ministro com cinco motoristas?! Francamente. Que desperdício dos dinheiros públicos!
Vai daí faz-se uma notícia, mas desvalorizando completamente a consulta ao visado.
Poucas horas depois, o ministro reage e explica que, afinal, até tem menos motoristas do que o seu antecessor. E dos cinco, só um está ao seu serviço.
No dia seguinte, o mesmo jornal tem de fazer uma nova notícia com a versão do visado e o título já é "Costa só usa um ministro".

Notas minhas:
- Não sei quem tem razão, mas teria sido melhor jornalismo se as explicações do visado tivessem aparecido na primeira (e porventura última) notícia;
- O ministro ter cinco motoristas é claramente notícia; já ter um...
- O ministro ter mais motoristas do que o antecessor é notícia; ter menos...
- A notícia original inclui mais uma "bicada" ao ministro: teria ido de automóvel para uma reunião a 250 metros; afinal a versão do ministro é completamente diferente (estava noutro local, mais longe...);
- O primeiro texto tem, na minha opinião, outro erro: usa uma fonte anónima para emitir um juizo de valor: "fonte do meio judicial, solicitando anonimato, considerou os onze motoristas “um verdadeiro exagero"
É por isso que falo no lado mau do jornalismo: o lado da precipitação, das fontes anónimas que instrumentalizam, da falta de equidade e de cuidado no tratamento das fontes
;

junho 28, 2005

(act) Os jornalistas estão mesmo a proteger o governo do PS? Porquê?

Volto a um dos clássicos desta página: o peso dos critérios não-substantivos (de notícia) no agendamento editorial. Ou, por outras palavras, de que maneira são determinantes, como influenciam e como combater (neste caso) as simpatias pessoais, as empatias, as convicções dos jornalistas.
Um dos temas mais interessantes do momento é observar a tolerância genérica da comunicação social para com o actual governo de Portugal. Por que os jornalistas são maioritariamente do PS? Não faz sentido. Porque simpatizam com o eng. Sócrates? Não acredito. Porque sentem (de uma forma inconsciente, claro) que, depois de Santana Lopes, Portugal precisa de um governo? É uma hipótese.
Mas custa-me aceitar alguma benevolência que se sente em determinados aspectos. Grandes e pequenos. Um exemplo destes últimos: depois de tanta polémica sobre a hipotética demolição da última casa de Almeida Garrett, esta começou mesmo a ser demolida. Vi apenas uma pequena notícia em O Independente e uma maior n'A Capital. O responsável pela demolição chama-se Manuel Pinho e é, além de proprietário do futuro condomínio, ministro da Economia.

PS - também é um mea culpa como jornalista. Só soube demasiado tarde.

act a 29/6: "Santana Lopes manda suspender demolição da casa de Garrett"

junho 27, 2005

Tabloidismo 1 – Complexos

A primeira página do Público de 19 de Junho é um bom exemplo para demonstrar o medo dos responsáveis pelos jornais de referência em tabloidizar o seu jornalismo.
A manchete é: “Regras da avaliação da função pública só mudam em 2007”; imediatamente abaixo, e ensanduichados com uma foto da manifestação da estrema-direita, três pequenos destaques: exames 9º ano, águia imperial volta a Portugal e uma reportagem na Serra do Caldeirão, “à beira da morte um ano depois do incêndio”.
Comparando as regras de avaliação da função pública e esta reportagem no Algarve não tenho dúvidas: a primeira não me interessa, muito menos sendo apenas para 2007 (o que não significa que não seja notícia), a segunda é uma excelente reportagem, importante e interessante. Demasiado humana? É esse um dos dramas do chamado jornalismo sério. É demasiado sério. E vive com o pânico de ser considerado tabloidista.
Na minha opinião, faz mal. Comparando os diversos critérios de notícia, a reportagem da Serra do Caldeirão ganha às regras de avaliação da função pública. E vender mais jornais não é crime…

junho 03, 2005

Sinergias de grupo

Porventura será uma tendência irreversível do jornalismo contemporâneo (pós-moderno?) e eu é que sou um velho do restelo, mas continua a custar-me ver a adulteração dos critérios jornalísticos em nome das sinergias de grupo.
No Record de hoje há duas "notícias" sobre duas publicações do grupo: "Mais uma grande «Sábado» na banca" e "«flash!» faz dois anos" (e fala-se na edição que assinala o segundo aniversário).
Gostaria de enfatizar que estas duas referências não aparecem como publicidade, o que seria perfeitamente legítimo, mas como "notícias": ao lado da que fala na «Sábado», diz-se "Venda de carros aumenta em Maio" e na da «flash!», "Ricardo Gomes nega contactos [com o] Marítimo".

maio 19, 2005

(jc) Diferenças

A derrota no Sporting nos noticiários das oito da manhã de hoje:
TSF: 1ª notícia, durante seis minutos;
A1: 1ª notícia do desenvolvimento, durante três minutos;
RR: última notícia do alinhamento, durante 30 segundos;

Os critérios de notícia e a poção mágica

Os critérios de notícia são o segredo da aldeia jornalística, como a poção mágica que fez viver os gauleses.
Sem critérios de notícia (news values) não haveria jornalismo, tal como o conhecemos, como sem poção mágica os gauleses já teriam sido derrotados há muito. Mas, muitas vezes perante a incredulidade dos outros (mais novos ou o público), só alguns é que possuem a fórmula secreta de os misturar.

Os critérios de notícia são o argumento final que os jornalistas esgrimem quando não há mais nada a dizer. Os critérios de notícia são - além disso - a essência do jornalismo.
(discuti-los - da forma mais desapaixonada possível - tem sido um dos objectivos centrais deste espaço)

A propósito de quê?
Se o Sporting tivesse ganho isso seria notícia de abertura nos noticiários da rádio desta manhã. E a derrota?*

* Nos jornais é diferente: há, de véspera, espaços reservados, temas paginados, primeiras páginas programadas, equipas destacadas para um produto final que, esta manhã, seria teria o mesmo impacto qualquer que fosse o resultado.

maio 11, 2005

(act) Por que Ivo foi notícia

Várias pessoas já questionaram o excesso de cobertura noticiosa relativamente a Ivo Ferreira, preso no Dubai.
E questionaram, criticando a comunicação social
.Penso que, genericamente, têm razão.
Mas mais do que o maniqueísmo, interessa-me ver as causas; dito de outra maneira por que é que este caso foi notícia e outras centenas de presos portugueses no estrangeiro não?
Algumas explicações:
- Este caso soube-se; a maior parte dos outros não;
- O facto de ser relativamente fácil falar com ele, via telefone, para a prisão do Dubai, ajudou muito a crescer mediaticamente (para já não falar do contacto acessível com o pai);
- Se tivessem sido os (hipotéticos) amigos jornalistas a falar deste caso também já teríamos ouvido falar dos seus filmes; como é que se chamam? Ou seja, houve uma adesão genuína dos jornalistas, que - estou certo - não o conheciam de lado nenhum;
- Ivo não estava acusado de nenhum crime grave e moralmente repelente (tráfico de droga ou de armas, homicídio), sendo que - ainda por cima - a acusação por consumo de haxixe acontecia num país árabe, o que faz, naturalmente, despertar simpatias para o caso humano;

O que é que isto vale? Provavelmente nada, mas retiro duas conclusões (recorrentes):
- não é difícil controlar a agenda mediática (mesmo sem a intervenção de spin doctors ou bons técnicos de marketing), quando se reúnem determinadas condições;
- parece-me ter funcionado o critério do seguidismo (característica muito presente no jornalismo português actual); quando se percebeu que uns estavam a dar "gás" à história, os outros terão ido atrás...

Actualização a 12/5/05. por exemplo aqui e aqui.

Actualização a 13/5/05: Tudo isto remete para aquilo que por vezes se chama de critérios de notícia não substantivos - idiossincraticamente, os jornalistas!!!!

maio 04, 2005

As apostas editorais como critério de notícia

Penso que, dentro da lista de critérios substantivos que fazem o jornalismo (os news values), falta estudar o peso - cada vez maior - das apostas editoriais de cada órgão nos alinhamentos noticiosos
E não me estou a referir ao facto de haver um exclusivo, que pode condicionar esses alinhamentos. Falo, por exemplo, em produtos pagos (provavelmente caros...), como uma sondagem!
A propósito de quê? Da troca que aconteceu ontem entre TSF e DN.
Como é público, ambos mantém uma longa colaboração com a Marktest para um barómetro mensal, que inclui diversas questões de actualidade.
A apresentação é combinada, de modo a que as mesmas respostas saiam à meia noite e na manhã seguinte na rádio e no jornal desse dia.
Só que ontem a TSF divulgou as conclusões sobre os dois referendos mas o DN trouxe as respostas sobre as presidenciais, do mesmo barómetro. Um deles ter-se-á equivocado.
O que fez com que, hoje, a TSF divulgasse as presidenciais e o DN os referendos. Ou seja, ambos com 24 horas de atraso.
Porquê? Provavelmente porque o "produto" é caro e não se pode desperdiçar. Mas, claramente, o interesse, hoje, estava muito reduzido: sem novidade, sem actualidade, restava o quê?

abril 29, 2005

Coisas que fascinam

Hoje, em diversos jornais portugueses (Publico, DE, A Capital, Correio da Manhã) há uma mesma notícia (Antena 3 compra empresa de eventos desportivos). Estamos a falar, claro, do canal espanhol de televisão. E, por isso, pergunto: qual é o interesse desta notícia para os leitores portugueses? Mais, haverá algum português a quem essa informação interesse? Mesmo sendo a empresa que organiza a Volta a Espanha em Bicicleta, parece-me que estamos perante um caso (mais um...) de inércia!

março 18, 2005

O equívoco de Pacheco Pereira

Não, Pedro, Pacheco Pereira não tem razão quando escreve que "os mesmos órgãos de informação que citavam religiosamente o Abrupto e que, nalguns casos, o reproduziam quase integralmente na sua parte política, esqueceram-se de o ler nesse dia, e não devem ter lido esta meia dúzia de palavras, certamente erradas e excessivas" ("Os colocadores de feltro", Público de ontem).
E não tem por duas razões: a primeira é porque faz todo o sentido "o critério jornalístico que considera mais interessante o que diz uma voz vinda do mesmo lado do que a de um adversário que critica por obrigação" (Eu não explicaria melhor...). E Pacheco Pereira sabe bem isso ("o meu blogue foi uma fonte de citações constantes contra Santana Lopes. Nada que eu não tivesse previsto e não desejasse, porque, em política, espera-se que aquilo que se diz tenha consequências e influência"); a segunda: se há quem não tenha legitimidade para contestar esse critério são os políticos - todos: por que é que um político não elogia as ideias/opções/opiniões de um adversário, aproveitando - em alternativa - qualquer pretexto para criticar negativamente (mesmo quando ainda não aconteceu)? Talvez porque fazer bem é o que se espera que aconteça; quando sucede o contrário é que é notícia???? (um exemplo apenas: algum dos partidos da oposição elogiou algum ponto do Orçamento de Estado? Como os anteriores, alguma coisa boa terá, não?)

fevereiro 22, 2005

A ténue fronteira entre informação e marketing

É obviamente um exercício simbólico, mas veja-se este caso, que mostra - penso eu - a diferença entre jornalismo e marketing, entre o rigor das notícias e a "liberdade" da publicidade.
Na Rádio Renascença, mal acabam os noticiários, há duas frases que se ouvem regularmente e que são puro marketing:
- "As notícias voltam às três ou a qualquer momento"
- "Estas e outras notícias em www.rr.pt"
E são marketing porque é, no primeiro caso, extraordinariamente raro a RR dar notícias "a qualquer momento"; no segundo, uma formulação como aquela diz que todas as notícias estão na página on line (além de outras). Estão mesmo todas? Correcto seria - por absurdo - "algumas destas notícias" ou "quase todas...".
O jornalismo apresenta-se rigoroso aos ouvintes; o marketing/publicidade não tem de ser comprovado.
O mais importante é isto: fará o ouvinte a distinção?

ACTUALIZAÇÃO a 23/2/05: nem por acaso, mais um exemplo da ténue fronteira!
Hoje de manhã, passou uma entrevista que fiz ao estratego da campanha de José Sócrates. Luís Paixão Martins contou algumas coisas bem interessantes, de uma área que é sempre desconhecida e, por isso, atractiva - os bastidores. O facto de ser raro (não digo inédito) ouvir quem tenha coragem de contar algumas dessas coisas e alguma curiosidade à volta da recente campanha vencedora foram os argumentos jornalísticos que justificaram a entrevista. Luís Paixão Martins saiu valorizado e a sua empresa pode beneficiar? Sim, da mesma forma que a Jordan passou a ter muito mais notoriedade depois de ter contratado um piloto português, que as empresas lutam por entrar no índice bolsista PSI20 (por causa da visibilidade/notoriedade) ou que este fim de semana a Guarda vai, provavelmente, receber muito mais turistas, por termos divulgado que tem estado a nevar...
Quem é que disse que nas notícias negativas só uma parte é que ganha?

ACTUALIZAÇÃO a 24/2/05: Já agora... (Francisco José Viegas, hoje no JN)

fevereiro 09, 2005

A proximidade como critério de notícia

... assim explicada pelo brasileiro Mário Quintana:

«A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...
»

(obrigado Hugo)

janeiro 30, 2005

O poder dos jornalistas - um caso pessoal

Entendo partilhar com os leitores desta página uma história tão insólita quanto curiosa (espero não estar enganado...)!
Há cerca de um mês tive de ir a Lisboa de avião, coisa que já não fazia há mais de meio ano (a crise...). No regresso ao Porto, antes do embarque no aeroporto de Lisboa, mandaram-me tirar os sapatos e o cinto, porque o "pórtico" apitava e os seguranças não tinham detectores de metais. Achei embaraçoso (um buraco na meia?), calcei-me e segui viagem. Nos dias seguintes falei com algumas pessoas, um ou outro jornalista da minha redacção, mas ninguém demonstrou muito entusiasmo.
Há duas semanas tive de voltar a Lisboa e só não me aconteceu a mesma coisa porque levava uns sapatos de borracha (era dos pregos na sola!); mas à minha frente um conhecido empresário teve de ficar em meias.
A semana passada achei que deveria fazer uma notícia com isto! Afinal a coisa é estranha porque no Porto é a PSP que faz o controlo (com os devidos aparelhos) e em Lisboa são seguranças privados.
Contactei a ANA, expliquei o que pretendia (que me explicassem a diferença de tratamento e se acham razoável mandar descalçar só porque os seguranças não têm os aparelhos...) e pediram-me uns dias. Na quarta-feira voltaram a contactar-me para me dizer que no dia seguinte haveria novidades. Esperei. No dia seguinte o portavoz da ANA disponibilizou-se a gravar, com esta novidade: naquele mesmo dia, a administração da ANA decidira comprar os aparelhos para os seguranças em Lisboa! E na sexta-feira a notícia passou na TSF (acompanhada de alguns depoimentos de utentes, recolhidos no aeroporto).
O caso é insólito e curioso, penso. E permite várias leituras sobre o poder dos jornalistas. Pelo menos os passageiros que deixarem de se descalçar em Lisboa podem agradecer-me!!!!

janeiro 11, 2005

O PCP e o BE

Já muitas vezes se escreveu sobre a capacidade/facilidade do Bloco de Esquerda em aparecer na comunicação social. Ainda no final da semana passada, na TSF, ouvi um noticiário com três sons diferentes, sobre dois assuntos distintos, de Francisco Louçã!
Como é que me lembrei disto? Ao ler a crónica de Manuel Pinto no JN de domingo.
O provedor dos leitores trata de um dos assuntos mais recorrentes do jornalismo português: as queixas do PCP ("Será o Partido Comunista Português (PCP) discriminado e prejudicado pelo Jornal de Notícias? Dito por outras palavras haverá, neste diário, uma atitude deliberada de silenciar esta força política ou a coligação na qual concorre habitualmente a eleições?").
O PCP queixa-se que lhe dão pouca atenção; e pode apresentar como paradigma o Bloco de Esquerda...
(por falar nisso, é interessante ver, por estes dias, o esforço de Manuel Monteiro para inventar as propostas mais insólitas, para fazer as acusações mais estranhas e para sugerir os comentários mais bizarros - e assim conseguir espaço na comunicação social, como, em parte, aconteceu há uns anos com o BE...)

dezembro 28, 2004

Jornalismo comparado sobre o "tsunami"

A presença de enviados especiais, numa reportagem (só há enviados especiais no estrangeiro), pode representar um ganho de qualidade informativa mas desempenha sobretudo um papel de alerta/reforço psicológico junto do ouvinte/leitor/telespectador - como se o órgão de comunicação social dissesse aos seus receptores: atenção que o que vão ouvir/ler/ver foi presenciado pelo nosso repórter (e se entendermos o repórter como o prolongamento dos ouvidos e dos olhos do ouvinte/leitor/telespectador...).
Não admira, por isso, que - em face da tragédia no sudeste (já ouvi várias vezes sudoeste...) asiático - a comunicação social portuguesa se mobilizasse. Mas surpreende que nem todos tenham optado pela aposta num enviado especial.
Aqui fica a lista:
Antena 1 - António Veladas (na Tailândia, jornalista em Timor)
RR - Catarina Neves (na Tailândia, jornalista da Sic, em "serviço especial")
TSF - Paulo Azevedo (na Tailândia, correspondente em Macau)
RTP - António Veladas e Pedro Lavrador (?) (ambos na Tailândia)
TVI - Alfredo Vaz (na Tailândia, jornalista free lancer em Macau, em "serviço especial")
SIC - Catarina Neves (na Tailândia, "enviada especial")
Correio da Manhã: Rui Frias (em Macau) e Alfredo Vaz (na Tailândia, "serviço especial")
JN - Nelson Mateus (em Macau)
DN - João Costeira Valeira (em Macau)
Público - Luísa Pinto (na Tailândia, "enviada especial") e Carlos Picassinos (em Macau)
A Capital e O Comércio fizeram pela Lusa (mas sendo do mesmo accionista, faria sentido uma "vaquinha" nos custos).

Notas a retirar:
1) O assunto é hoje, como foi ontem e será amanhã, abertura de todas as edições. Com vários minutos e páginas; a excepção - coincidência ou não - encontra-se em A Capital e em O Comercio do Porto, respectivamente com o desejo de Paulo Pedroso continuar como deputado e as batatas fritas perigosas!
2) Todos sentiram a necessidade de ter relatos de proximidade;
3) DN e JN atrasaram-se perante a concorrência;
4) No caso da concorrência com o JN, o Correio da Manhã trabalhou bem a contratação do jornalista "free lancer";
5) A Rádio Renascença, perante a sua concorrência mais directa, é a que terá mais dificuldades - a jornalista da SIC terá a disponibilidade desejada?
6) É duvidoso se os ouvintes/leitores/telespectadores diferenciam o "enviado especial" do "serviço especial"; mais importante é saber que o repórter está no local onde há a notícia;
7) Macau, afinal, foi importante - já o disse, é a terceira cidade do mundo, depois de Lisboa e Porto, onde há mais jornalistas portugueses!

ACTUALIZAÇÃO A 29/12: A Visão enviou Rosa Ruela para o Sri Lanka, onde a RTP já tem mais uma enviada; a TVI destacou hoje Vítor Pinto como enviado especial à Tailândia (mais vale tarde...); o resto do panorama mantém-se relativamente igual... com Alfredo Vaz a garantir a TVI (mas não o Correio da Manhã)

ACTUALIZAÇÂO a 3/1/05: o provedor do JN trata o assunto ontem ("Especialmente a partir de quarta-feira, um facto me chamou particularmente atenção: porque é que o JN ainda não tinha um ou mais enviados especiais na zona?"). O director, José Leite Pereira, tem uma resposta curiosa, pela sinceridade: "No início, terá havido, a esse respeito, uma má apreciação nossa". (não está on line)

dezembro 25, 2004

O cu e as calças...

Lê-se:
"Os árbitros da Associação de Futebol de Évora (...), detidos e constituídos arguidos na segunda fase da operação «Apito Dourado», exercem profissões relativamente modestas. Causou por isso surpresa a sua indiciação por corrupção passiva, relacionada com alegados favores sexuais de que terão beneficiado nas vésperas de apitarem o jogo FC Porto- Estrela da Amadora."
Ou seja, de acordo com esta notícia, o facto de terem "profissões relativamente modestas" resultaria em não poderem ser indiciados "por corrupção passiva"!
Além disso se o pagamento era com "favores sexuais", por que é que não poderiam (continuar a) ter "profissões relativamente modestas"?
Vejam agora como o contrário tinha lógica:
"Os árbitros da Associação de Futebol de Évora (...), detidos e constituídos arguidos na segunda fase da operação «Apito Dourado», exercem profissões muito bem remuneradas ou são empresários de sucesso. Causou por isso surpresa a sua indiciação por corrupção passiva, relacionada com alegados favores sexuais de que terão beneficiado nas vésperas de apitarem o jogo FC Porto- Estrela da Amadora."
(se têm dinheiro não precisariam que lhes pagassem os "favores sexuais"...)

dezembro 21, 2004

Coisas que fascinam

Lê-se, atribuído a Rui Rio (no Público de domingo):
"Se ficarem aí [para os jornalistas] como vou falar meia hora, talvez aproveitem quinze segundos para fazer um escândalo amanhã".
O que é fascinante, neste caso, é tentar perceber que motivação tem o presidente da Câmara do Porto para insistir neste discurso? O que é que ganha?
O jornalismo faz-se com os 15 segundos, com a capacidade de editar as informações e de as seleccionar - de acordo com critérios (substantivos) o mais transparentes possíveis.
O que Rui Rio consegue com uma frase destas é potenciar critérios não substantivos nos jornalistas (mais pessoais)- porque nenhum jornalista ficará completamente indiferente depois de ouvir uma frase destas (e o tom usado também é importante).

dezembro 15, 2004

Puro amadorismo

No editorial (!) de hoje de A Capital, Rogério Rodrigues denuncia um caso que rotula de "total desrespeito pelos jornalistas" e que - sei por experiência própria -- não é a primeira vez que acontece: determinada entidade/protagonista envia aos jornalistas uma convocatória para uma conferência de imprensa mas depois limita-se a ler um texto e não responde a perguntas.
É certo que as palavras não são como os Jerónimos e evoluem semântica e morfologicamente. Mas "conferência de imprensa" pressupõe sempre perguntas. Não as havendo é natural que haja descontentamento/repulsa dos jornalistas (que se sentiram enganados).
Excluindo a hipótese de ter sido decidido em cima da hora que não haveria perguntas, porquê esta forma primária de hostilização ou, no mínimo, de desrespeito? Puro amadorismo? Gozo?
Um destes dias porei aqui um texto sobre o peso dos critérios não substantivos (diferentes, portanto, dos news values) na produção noticiosa.
Agora, e como A Capital não permite ligações de arquivo, aqui ficam alguns excertos desse editorial:
"Chegou às redacções um fax que dizia, textualmente, o seguinte: «O PSD e o CDS/PP dão uma Conferência de Imprensa, hoje, terça-feira, 14 de Dezembro, às 20.30, no Hotel Ritz, na Sala Tejo». O curto e explícito texto é assinado, em conjunto, pelos gabinetes de Imprensa do PSD e do CDS-PP. (...) tanto Paulo Portas (aqui mais grave porque já foi jornalista), como Santana Lopes (aqui não tão grave porque não passou de um administrador falhado de jornais) mentiram. Recusaram responder a perguntas, ao confronto, esqueceram o Outro, neste caso a Imprensa. E proferiram ou arengaram (consoante se analise o teor) uma declaração. Declaração esta que poderia ter seguido perfeitamente para os jornais, sem os obrigar à sua presença, como meros espectadores ou mobília de um cenário para dois actores canastrões. (...) Desçamos até à humilhação a que ontem foram levados os jornalistas, ao embuste da conferência, quando se tratava de uma declaração: até quando suportaremos mais esta menoridade a que nos querem sujeitar?"

dezembro 05, 2004

Os famosos critérios de notícia

Pedro Santana Lopes contou, no seu discurso de abertura da pré-campanha eleitoral, na sexta-feira à noite, um caso que merece aqui uma pequena reflexão: a Lusa ("agência oficial do Estado", repetiu) ouviu Macário Correia, presidente da Câmara de Tavira, manifestar-se contra a liderança do actual presidente do PSD. A seguir outro autarca do Algarve terá contactado a Lusa para dar um depoimento em sentido contrário. Mas a Lusa recusou. E na linha ficou apenas a versão negativa.
O facto de, obviamente, desconhecer outros contornos desta história não me impede de deixar algumas notas:
1) Se todas as distritais apoiam PSL e também a esmagadora maioria dos presidentes de câmara, é óbvio que notícia é alguém não o apoiar; como seria o contrário...
2) O facto das distritais o apoiarem também é notícia. Outra. Noutro momento.
3) Não há qualquer obrigação jornalística de ouvir alguém apenas para compensar. O que não quer dizer que não se possa fazer se se entender que está em causa o equilíbrio necessário...
4) Na notícia em causa deveria ficar claro que Macário Correia é o primeiro ou o segundo a defender isto (se é o terceiro já não será notícia...) mas que a esmagadora maioria apoia PSL;
5) Já teria um entendimento diferente se o autarca que contactou a Lusa quisesse fazer declarações contra Macário Correia, contestando-o politicamente (por exemplo, denunciando eventuais incoerências ou revelando factos desconhecidos de carácter político, insisto); nesse caso poria as suas declarações no ar;
Percebeu-se?

novembro 10, 2004

Critérios de notícia - além dos quatro clássicos critérios de notícia

Proximidade, originalidade, novidade e actualidade são os quatro critérios clássicos que transformam a parte seleccionada da realidade em informação. Talvez mais de 80 por cento das notícias que ouvimos, lemos e vemos são enquadradas por, pelo menos, um desses critérios (às vezes em simultâneo).
E as restantes (15%?) notícias?
É - acho - um dos fenómenos mais fascinantes perceber por que é que determinado facto é notícia e outro não.
Um exemplo:
O Presidente da República está a visitar a Itália. Os principais órgãos de comunicação social estão a acompanhar. Mas a visita não gera - em si própria - notícia (não tem nenhum dos quatro critérios).
Como se explicam, então, as peças que têm saído (quase todas não-notícia)?
Rádios, televisões e jornais não se podem dar ao luxo de não acompanhar o Presidente da República. "E se acontece alguma coisa?" (se é, por exemplo, pedir uma reacção); Por isso mobilizam os respectivos meios. E se já lá estão é normal que haja trabalho. E se os enviados enviam trabalho é normal que ele seja publicado...
Ou seja, é por solidariedade que a maior parte desses trabalhos são editados? Sem dúvida...

PS 1- A rádio e a televisão têm muito menor elasticidade "plástica" de paginação do que os jornais. Um jornal pode transformar o trabalho do enviado especial a Itália numa peça de menos mil caracteres. Ou de cinco mil. Na rádio e na televisão os trabalhos têm um tempo mínimo. Que não é muito diferente do tempo máximo (médio). Ou seja, em rádio esse trabalho terá um minuto. Mas um minuto é o tempo que irá durar, também, uma... verdadeira notícia!
PS 2 - Qual é a arma da rádio, aparentemente de "mãos atadas"? Valorizar mais ou menos vezes o trabalho em causa, com mais ou menos passagens num turno informativo.
PS 3 - Interessante, nesta perspectiva de encontrar formatos alternativos, o que fez ontem à noite a TVI: mostrou imagens da visita e o pivô leu três parágrafos por cima. Menorizou, dando-lhe o devido valor, mas não deixou de noticiar...

setembro 27, 2004

Os critérios de notícia, a selecção/a omissão e as notícias do "nosso" accionista... Confuso?

Só aparentemente: é preciso ler "Como se escolhem as notícias", a crónica de Joaquim Furtado no Público de ontem!
Um excerto (até porque os textos do Público são retirados de circulação algum tempo depois):
"(...) embora tendo discursado "perto de uma hora", Acácio Barradas não se queixa de o PÚBLICO ter omitido uma parte do que ele disse, mas sim de ter omitido uma determinada parte: aquela em que se referiu ao PÚBLICO. Ou seja: a uma omissão, que noutras circunstâncias se aceitaria como critério jornalístico, atribui-se uma intenção deliberada na qual se envolve a própria noção de honestidade profissional."

setembro 24, 2004

Critérios de notícia - os paraolímpicos

Muito se estudou sobre criação de factos que "obrigam" os jornalistas a ter de os noticiar, os chamados pseudo-acontecimentos (a coincidência da hora dos telejornais, por exemplo).
Mas há também factos que, realizando-se para serem cobertos pela comunicação social, acabam por ter excesso de mediatização (de notícias), a maior parte das vezes por razões excepcionais.
Os jogos para-olímpicos são um desses casos.
Durante quase quatro anos ninguém, na comunicação social portuguesa, olha para o desporto dos deficientes, mesmo quando há "alta competição" (quantos dos atletas são conhecidos do grande público?). Chega-se a um mês antes dos Jogos e toda a gente noticia, com enviados especiais, directos, reportagens alargadas...
Que critério pode ser invocado para justificar esta sobre-atenção?
Porventura má consciência? Seria um critério novo, mas a mostrar como jornalismo é subjectividade...
Mas o que me importa, neste caso, é assinalar a incoerência: ou o assunto é relevante (e não tenho dúvidas de que estamos perante verdadeiros heróis) e deve ser notícia mais regularmente, ou só nos jogos é muito estranho...

agosto 03, 2004

As boas e as más notícias

O texto mais interessante do último Expresso é uma carta de um leitor, chamada "Jornalismo depressivo". Esse leitor diz que nos telejornais só há dois tipos de notícias: as más ("desastres, desemprego, crime, violência, etc.") e as idiotas. Boas notícias não há, ou então são muito discretas".
Esta é uma reflexão recorrente no jornalismo e leva a que alguns consumidores de informação cheguem a conclusões como esta: "nas redacções dos telejornais abundam pessoas depressivas, deprimidas (...); [ou] na referidas redacções ainda se sofre do síndroma 'quem falar bem da situação é fascista ou já foi comprado pelo Governo' muito em voga no período do PREC".
Se tivermos em conta os critérios clássicos que tranformam informação em jornalismo (os chamados "valores-notícia"), nada remete directamente para as más notícias; mas é claro que um prédio que cai, deixando pessoas sem casa, é notícia, ao contrário de um prédio que é construído, onde também vão viver pessoas. Os prédios não são feitos para cair, muito mais quando habitados. É uma má notícia? Mas se a Cãmara realojar essas famílias isso também será notícia.
O perigo - que tem contaminado algumas redacções - é de nos viciarmos apenas nas más (que infelizmente estão por todo o lado), esquecendo que há vida para além das desgraças de todos os dias. Não dão mais trabalho, as boas notícias, simplesmente obrigam a pensar de forma diferente (mais aberta, mais positiva).
Concluo acrescentando - para não ficarem dúvidas - que considero a função escrutinadora dos vários poderes essencial no jornalismo.