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fevereiro 13, 2006

Por uma afirmação da identidade própria da rádio

A necessidade da rádio (de quem nela trabalha...) afirmar a sua própria identidade não é (apenas...) uma questão de orgulho. O exemplo seguinte mostra como uma dependência (ainda que inconsciente) de rotinas produtivas da imprensa é um mau serviço aos ouvintes de rádio.

Já todos ouvimos dizer que a PT subiu 2,35 por cento ou que as acções da Sonae SGPS caíram um e meio por cento.
Mesmo que, a seguir, se diga "uma queda de um meio por cento para os três euros", quanto é que, afinal, caiu a Sonae?

A utilização das percentagens na informação radiofónica é muito útil quando se trata de números grandes, que é preciso relativizar. Neste caso, não. Subiu ou desceu três ou 15 cêntimos é que informação útil. Aos ouvintes com interesse na bolsa, mais do que comentarem que determinada acção caiu 2,37 por cento, interessa quando é que perderam/ganharam por papel.

Ou seja, para concluir: a utilização de percentagens relativamente à cotação de acções é um apêndice da imprensa (e das agências), absolutamente desnecessário. E como são os jornalistas especializados destes órgãos de comunicação social que marcam a agenda relativamente à rádio, a sua mimetização é, além de mais fácil, algo que "fica bem"...

O ouvinte, esse, precisa, depois, de consultar os jornais ou a internet para perceber quanto é que, afinal, 1,54 por cento significa na sua conta-corrente!

janeiro 19, 2006

Escrever na rádio a contar com a internet

Volto ao tema da escrita analógica e da escuta em hiperligação para referir o que fez ontem Fernando Alves nos seus Sinais: a propósito de uma árvore que cresce num muro, o jornalista da TSF sugeriu aos seus ouvintes que a vissem na página da própria TSF (aqui, chamando a crónica de 18/1/06). E ela lá está.

Isto significa (pelo menos) duas coisas:
- que o Fernando Alves, ao escrever a sua crónica de rádio, já pensa em hiperligação (e que acautelou a colocação da imagem, porque ela não apareceu sem mais nem menos);
- que o Fernando Alves, autor das melhores metáforas na rádio portuguesa, desistiu de estar a descrever algo que podia ser visto (mais a mais, a árvore, botanicamente, não tem nada de especial) e concentrou-se no que o motivou: ela ter crescido num muro...

Não é só a rádio - como suporte - que está a mudar; a escrita também!
[obrigado Edgard]

dezembro 29, 2003

A arquitectura do noticiário - a paginação

É uma das matérias menos reflectidas no jornalismo radiofónico e, por isso, das mais empíricas: a paginação dos assuntos na construção do noticiário.
Hoje um leitor deste blogue (e ouvinte da rádio) chamava a atenção para o seguinte problema:
- entre a notícia de abertura de determinado noticiário (a valorização do euro face ao dolar) e o segundo tema do noticiário (uma greve de médicos num hospital do Porto) houve uma outra informação, aparentemente menos importante, mas muito relacionada com a primeira (a subida da cotação do ouro).
O leitor estranhava que o ouro aparecesse melhor posicionado que a greve, porque esta diz respeito a mais pessoas (é mais próxima).
Não vou discutir a importância relativa de cada notícia, mas gostaria de chamar a atenção para o facto da lógica da "pirâmide invertida" se aplicar ao noticiário apenas como princípio.
Mesmo aceitando que o ouro é menos importante, teria sempre de aparecer arrumada na ligação ao euro.
É, nesse aspecto em concreto, a mesma lógica da paginação no jornal: há o tema de abertura da secção, mas a página ainda contempla outras pequenas notícias; só depois passamos da economia para a sociedade...

outubro 23, 2003

Ontem quase todos os jornais entenderam publicar editoriais sobre o problema das violações do segredo de justiça, a propósito da intervenção do Presidente da República. O Público foi mais longe e pôs o editorial na primeira página, assinado não por um dos directores mas pela Direcção do jornal.
Por que é as rádios não fazem/fizeram o mesmo?
À excepção da Renascença, com outro nome, as rádios portuguesas não têm tradição de publicar editoriais. É algo inexplicável, uma vez que se trata de um formato perfeitamente aceitável.
Medo de comprometer a estação? Receio de hipervalorizar uma opinião? Na televisão é o mesmo.
Desde que a separação entre factos e opinião esteja bem clara, que a identificação do espaço de opinião esteja marcada, mesmo que não haja um carácter regular, o editorial não só é possível como, até, desejável.

outubro 07, 2003

Ainda as "limitações" do formato radiofónico:
Os órgãos de comunicação social lidam muito mal com os seus próprios erros.
O caso das notícias (em primeira-mão) desmentidas pelos próprios factos é mais um exemplo.
Defendo que o impacto de uma notícia desmentida é muito maior do que os méritos de uma primeira-mão. Mas isso não deve impedir que se avance, quando temos todas as confirmações (possíveis).
O mais dramático é que, enquanto o jornal pode arrumar um pequeno caixilho numa página par, explicando a falha e pedindo desculpas, a rádio terá de dar a essa explicação/desculpa uma importância teoricamente exagerada: terá de fazer uma nova notícia. E como se costuma dizer, em rádio todas as notícias são de primeira página. Além de que muitos não terão ouvido a primeira mas receberam o desmentido...
Acontece que, tal como os jornalistas, os ouvintes não são estúpidos. Podem ser mais ou menos tolerantes, mas estúpidos não. E eles percebem que algo correu mal. Preferiam, certamente, que lhes explicassem (até porque pode haver boas razões). E quem é que não aceita de um pedido de desculpas?

outubro 05, 2003

Uma das grandes fragilidades do jornalismo radiofónico é a falta de "elasticidade" do próprio formato rádio, nomeadamente quando comparado com um jornal ou um revista (onde há notícias de primeira e última página, a preto e branco e a cores, notícias de meia ou quarto de página, caixilhos, filetes, breves, títulos, legendas, destaques, entradas, etc).
A rádio não tem, pronto.
Mas depois de ler o Expresso deste fim de semana e a forma como o jornal enquadra aquilo que é um puro exercício de reportagem investigativa disfarçando-a de "opinião" fico satisfeito por a rádio não permitir estas veleidades.
Partindo do pressuposto que tudo aquilo que lá vem é verdade, estaremos perante uma excelente investigação jornalística. Mas opinião?!!!!
Ah, é porque se trata de uma intervenção de um jornalista free lancer e assim o Expresso lava as mãos, se as coisas correrem mal: "não, aquilo não era um artigo nosso, era a opinião do jornalista, que nem pertence ao Expresso".
Na rádio isto nunca aconteceria...