As duas mortes, ontem, de Cunhal e Eugénio de Andrade, provocaram dores de cabeça nas direcções dos diários jornais: que espaço para cada uma? que destaques? Aqui vai mais um exercício de jornalismo comparado...
As respostas são curiosas (as contas não são ao milímetro) :
Público: 17 páginas (descontando a pub) para AC; 5 para EA
Diário de Notícias: 15 AC*; 6 e meia para EA
Jornal de Notícias: 6 AC + 20 paginas de um suplemento; 8 EA
Correio da Manhã: 4 AC; 1 EA
A Capital: 19 AC; 7 EA
24 Horas: 16 AC; 1 EA
Algumas notas:
- surpreendentes as 19 páginas de A Capital, até por ser o jornal com menos recursos;
- Público e DN muito próximos (a marca dos jornais de referência?), se excluirmos o suplemento;
- o JN e o DN são os único que têm um suplemento;
- o JN é o que dedica mais páginas quer a um quer a outro;
- mas o que dizer das 16 página do 24 Horas (o jornal que habitualmente menos atenção dá à política em Portugal)?
- o 24 Horas foi o jornal mais desequilibrado entre as duas mortes;
- curiosa a coincidência na página dedicada a Eugénio de Andrade por 24 Horas e Correio da Manhã (a marca dos jornais populares?);
* O DN reeditou o magistral (50 páginas...) suplemento do DNA; e tem duas primeiras páginas, uma com Cunhal e outra com Eugénio
Não conheço nenhuma obra que sistematize aquilo que é o chamado jornalismo de referência, mas qualquer um de nós conseguirá juntar meia dúzia de características que o distinguem do tabloidismo.
Uma delas é - na minha opinião - evitar referências familiares ou pessoais, quando são irrelevantes para a essência dos factos ("irmão de ministro preso", se o ministro não tem qualquer relação com a notícia?).
Vem isto a propósito de uma notícia do Público de hoje, na insuspeita página de Cultura, onde se relata um caso judicial envolvendo o arquitecto Taveira.
Quando a jornalista se refere ao advogado de Tomás Taveira escreve:
"Ontem, em tribunal, o seu advogado Luiz Francisco Rebello, que em Maio de 2003 se demitiu de presidente da direcção da Sociedade Portuguesa de Autores na sequência de acusações de fraude, corrupção e gestão danosa, insistiu que Taveira "não quis diminuir a figura de Conceição Silva"...".
O que é que justifica esta referência passada a LFR, irrelevante para os factos em questão, uma vez que nem se relaciona com a sua actividade como advogado?
Não sei se a intenção era essa, e se havia mesmo alguma intenção, mas acho que a tal referência diminui o advogado em causa.
E acho que no jornalismo de referência uma associação tão despropositada não teria lugar.