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maio 23, 2006

Do Prós e Contras de ontem - Carrilho não resistiu

Depois de ter visto (e já ter lido o livro...) o Prós e Contras de ontem, acho que é possível fazer algumas notas finais:

- Ricardo Costa arrumou com a questão do aperto de mão, explicando com vários pormenores que nada daquilo era privado (dentro do estúdio);

- Ricardo Costa trouxe um argumento de peso, a manipulação das entrevistas enquanto ministro da Cultura; os argumentos de Carrilho quanto ao jornalismo nunca mais serão os mesmos!

- Discutiu-se pouco a questão das agências de comunicação e a necessidade de haver alguma regulamentação ética e deontológica - Emídio Rangel podia ter dado um contributo mais forte nesse aspecto (já Pacheco Pereira manteve-se fiel à sua teoria de que o livro fala de outra coisa, que não aquela que tem vindo a público, mas que não prova - a da conspiração);

Em resumo, o livro de Carrilho denuncia/aborda duas coisas que me parecem importantes:
1) a superficialidade e a trivialidade (palavras de PPereira, que subscrevo) de muito do jornalismo português, exemplificado com vários casos, que não têm sido devidamente abordados;
2) a actividade descontrolada das agências de comunicação (já agora, como vai ser com o levantamento da imunidade parlamentar pedida pela Cunha Vaz?);

O resto é espuma - e traços de personalidade de Carrilho: se me permitem, o debate de ontem mostrou bem por que é que o povo de Lisboa foi inteligente ao derrotar o candidato do PS.

PS - o Prós e Contras não teria o mesmo interesse sem público? O público, ali, aplaudindo ou até mandando bocas, dá a tal sensação de arena, que retira credibilidade ao programa. O programa teria, pelo menos, o mesmo interesse sem o público e seria mais agradável de ver (do meu ponto de vista).

maio 21, 2006

(ACT) Ainda o livro de MMCarrilho:

Sou dos que acham que o que Carrilho diz no livro é demasiado importante para se perder no esquecimento: porque acredito que Carrilho não tem razão em muitas coisas que diz (o aperto de mão, o vídeo, a conspiração envolvendo todos os que o criticaram) e porque há coisas que Carrilho diz que me parecem reais: a selva que é (ou pode ser) a actividade das agências de comunicação - sempre o defendi neste espaço.

Na última semana, no Público, Expresso e DN recolhi tudo (o que não me escapou...) o que sobre o livro disseram. Eis a minha análise:

[Esta segunda-feira, o assunto vai ser debatido no Prós e Contras da RTP]

Factos...
Destes dias, os factos que retive:
- Cunha Vaz diz que vai processar Carrilho (1);
- Francisco Almeida Leite, o único dos jornalistas visados que anunciou a intenção de processar Carrilho;
- Carrilho pede a intervenção da ERC;
- O silêncio do Sindicato dos Jornalistas;
- Cresce a opinião dos que - como eu - acham que a actividade das agências de comunicação precisa de ser regulada;

(1) E era muito importante que o fizesse, que este processo não fosse mais um dos muitos que são esgrimidos na comunicação social - como estratégia de marketing - e depois nem chegam a entrar no tribunal. Eu, se fosse Cunha Vaz, fazia-o!

... e opiniões
Obviamente que as opiniões dos acusados por Carrilho não podem ser comparadas com quem não é visado.
Mas enquanto Francisco Almeida Leite, do DN, diz que vai processar o ex-candidato (e faz muito bem), Pedro Rolo Duarte optou por mandar Carrilho à merda, Ana Sá Lopes foi mais suave e limitou-se a falar do livro do coitado do Carrilho, Pacheco Pereira fala na substância autista do livro, Marcelo garante que Carrilho não sabe perder, Fernando Madrinha diz que é «um pequeno exercício de vingança e ressentimento» e, finalmente, Vasco Pulido Valente fala num «livro ignóbil que não merece comentário».

Dos não visados, algumas opiniões que retenho (e que subscrevo):
Albano de Matos, no DN de 14/5/06: «Carrilho não tem razão em vários pontos e, noutros, usa um tom tão desbragado e leviano como aqueles que acusa. Mas tem o mérito (raro entre nós) de denunciar situações e levantar questões fundamentais para o exercício do jornalismo. Despachá-lo com um rápido insulto é perder uma soberana oportunidade para as discutir»;

Medeiros Ferreira, no DN de 16/5/06: «Depois de se ler o livro de Carrilho é impossível continuar a ignorar, por exemplo, a existência e o papel das chamadas "agências de comunicação", um bom tema para a recém-empossada entidade reguladora da comunicação social iniciar as suas ansiadas actividades».

Miguel Gaspar, no DN de 15/5/06: «Carrilho prolonga a ilusão de ter ganho o debate com Carmona na SIC Notícias. Mas o aperto de mão negado foi sobretudo chocante por ter sido o prolongamento de um debate em que a postura do candidato socialista foi mais arrogante e agressiva do que dada ao esclarecimento de propostas.Há mais para ler do que a questão dos jornalistas neste livro, cuja tese central é a de que um conluio entre lóbis da construção, uma agência de comunicação e jornalistas travaram a vitória de Carrilho»;

Mário Bettecourt Resendes, no DN de 18/5/06: «As vestes angelicais não servem, obviamente, a Carrilho, mas é pena se se perder uma oportunidade singular para debater, em profundidade, alguns dos problemas que deveriam preocupar os jornalistas portugueses»;

PS - Opinião só no DN; repito, foi a que li. Mas isto pode querer dizer alguma coisa (pelo ao nível do impacto na internet).

maio 14, 2006

Acabei de ler o livro de MMCarrilho...

... e não tendo pessoalmente nada a ver com o que lá é descrito, é impossível, corporativamente, ficar indiferente.
Algumas notas soltas, para tentar arrumar as ideias, sendo que pretendo voltar ao assunto mais tarde:
- Se tudo o que Carrilho denuncia, envolvendo a comunicação social, fosse verdade, estaríamos perante uma das mais graves crises envolvendo o jornalismo português de que tenho memória;
- Carrilho denuncia uma rede (em muitos casos organizada) entre jornalistas para o «queimar» politicamente; o livro não é isento nem, se calhar, deveria ser - mas sente-se alguma ligeireza na forma como arrola factos que, associados, servem a sua «teoria da conspiração»;
- Para Carrilho só há uma verdade, a sua. Muitos dos factos ali descritos terão, obviamente, outra explicação (quero acreditar que sim);
- As acusações a A. Cunha Vaz são de uma gravidade extrema - e era bom que o caso não ficasse por aqui, para se perceber até que ponto Carrilho consegue solidificar o que diz do empresário de comunicação;
- Aliás, em nome da credibilidade da comunicação social portuguesa, seria importante aparecer um(a espécie de) contra-livro - com o contraditório; ou pelo menos uma reportagem de investigação num jornal. Sendo que, noutras circunstâncias, o próprio Sindicato dos Jornalistas deveria abrir uma espécie de «inquérito» ao que se passou; pelo menos um debate;
- Finalmente: uma das poucas situações em que, perante as palavras de Carrilho, é possível ter uma opinião estruturada, describiliza o ex-candidato - a do aperto de mão no final do debate. Dizer que a gravação do pós-debate foi uma «golpada» da SIC não abona muito em favor da inteligência colectiva nem, provavelmente, da credibilidade do restante que é escrito(independentemente de Carrilho ter alguma razão sobre o facto de essa parte ter tomado conta do todo - mas ele seria o próprio o primeiro a aplaudir se a situação se tivesse passado ao contrário).

Gostava de reforçar esta ideia - é uma pena se o livro morre por aqui, com o argumento de que as suas acusações não têm credibilidade. Será muito mau para o jornalismo português se "Sob o signo da verdade» for a última verdade.

PS - Carrilho também aborda este caso, sobre o qual opinei na altura. O jornalista do DN reafirma ontem o que então escreveu. Carrilho diz que ele «inventou uma conversa que nunca teve comigo sobre a anunciada candidatura de Mário Soares».

janeiro 26, 2006

Aconteceu: o anonimato como notícia!

Um fax forjado para tramar alguém pode dar uma notícia? Não.
E se não há certezas sobre se o fax foi forjado? Investigue-se, mas sem noticiar até haver certeza.
Mas se o fax envolve pessoas conhecidas? Pior.
No entanto, o tal fax já circula pela net e há muita gente a saber... Isso é um rumor, não é jornalismo.

Estas formulações parecem estúpidas, de tão básicas. Mas por aquilo que me disseram deram origem a mais do que uma notícia. Pelo menos aqui.

(O remetente pelos vistos não existe; o destinatário garante que não o recebeu; e forjar um fax e fazê-lo circular pela internet, anonimamente, é elementar).

outubro 12, 2005

A utopia é possível

"O «Spiegel», cujos trabalhadores são accionistas maioritários, é hoje um grupo com um volume de negócios que, segundo o último relatório anual, ascende a aproximadamente 320 milh6es de euros".

"No ano passado, a revista foi citada mais de 2200 vezes, ou seja, o dobro em relação ao seu principal concorrente. Todas as semanas, cerca de 1,1 milhões de exemplares saem das rotativas: uma tiragem que se mantém estável há 15 anos"

Dois excertos do artigo "A revista que nunca fez concessões", do Courrier Internacional nº 26, pág 43, "A história exemplar de uma equipa refractária a qualquer autoridade e inflexível nos grandes princípios"

setembro 27, 2005

A vitória de Rio é a vitória do jornalismo?

Penso que faz sentido, aproveitando o balanço da campanha eleitoral, deixar algumas notas sobre um caso verdadeiramente à parte no panorama político e mediático português.
Rui Rio prepara-se - acho - para voltar a ganhar a Câmara Municipal do Porto, em conflito aberto com os principais jornais diários que se publicam na cidade (Público e Jornal de Notícias, depois do encerramento de O Comércio do Porto).

Apesar da hostilização de Rio para com esses jornais (que, admito, terá sido mútua numa ou noutra circunstância), Rio vai ganhar. Nesse aspecto em concreto, isso é positivo. Significa algo que me é muito caro: os jornais não elegem presidentes de câmara ou primeiro-ministros e os leitores sabem distinguir entre o papel dos jornais e o papel dos políticos.

Eu não concordo com a estratégia de Rio, e critiquei-o (este não foi o único exemplo).Interessante é que, contra quase tudo e quase todos, Rio não desarmou e manteve-se coerente (teimoso?) durante quatro anos. Ainda no domingo a direcção editorial do Público avisava que Rio recusara uma entrevista ao jornal "por não confiar na isenção do Público".

Um caso para estudar melhor.

julho 13, 2005

...mas também com Vital Moreira

"(...) Há no estatuto legal dos jornalistas um preceito específico (art. 14.º) sobre os respectivos deveres profissionais, desde o dever de rigor e isenção até ao dever de não recolher ilicitamente imagens e sons, passando, entre outros, pelos deveres de abster-se de formular acusações sem provas, de não identificar as vítimas de crimes sexuais, de não falsificar ou encenar situações com intuitos de abusar da boa-fé do público. Ora, apesar de a lei os considerar como "deveres fundamentais", não existe nenhum mecanismo previsto para apreciar e punir as infracções dos mesmos. Trata-se, portanto, de uma norma branca, sem sanção.
A questão que se coloca é a de saber se essa situação deve permanecer assim, face à existência, que ninguém pode negar, de graves violações dos referidos deveres. Concretamente: se um jornalista publicar como verídica uma história que o mesmo inventou, se copiar um texto alheio e o publicar como seu, se identificar ou publicar fotografia de uma criança vítima de violência sexual, se revelar uma fonte à qual tinha garantido sigilo, se publicar uma peça a troco de vantagens pessoais, se, por má-fé, acusar alguém de um facto ilícito - e muitas outras hipóteses bem reais -, será razoável que tais infracções fiquem impunes e que os seus autores continuem a poder reincidir nelas sem qualquer sanção? Será que, em nome da liberdade de imprensa, o "jornalismo de sarjeta", como uma vez o qualificou um conhecido jornalista, deve continuar a tripudiar sobre os deveres fundamentais da profissão, à custa de direitos de terceiros ou de bens constitucionalmente protegidos? (...)"

(via Clube de Jornalistas, citando o texto de Vital Moreira, de 5/7/05)

Concordo com Pedro Camacho...

Pedro Camacho (novo director de A Visão, entrevistado em O Independente de 8/7):
"Ao contrário do que muita gente diz, penso que o jornalismo está muito mais profissional"
- Em que sentido?
"Os jornalistas são mais competentes, têm outro tipo de conhecimentos, dão-se mais factos, noticia-se mais coisas e trabalha-se com mais independência e menos militância. A concorrência leva, por vezes, a um excesso de agressividade que ultrapassa o que deve ser uma análise fria e objectiva dos factos".
- A guerra das audiências tolda a objectividade?
"Pode levar a um tipo de jornalismo menos sério e que explora sentimentos que não devia. Mas a concorrência também faz com que os jornalistas se esforcem por prestar um melhor serviço aos leitores, que, por sua vez, se tornam mais exigentes"

junho 23, 2005

Uma estória triste mas verdadeira...

Um certo e determinado ministro disse em meados de Maio que iria, no prazo de duas semanas, apresentar medidas urgentes para resolver um grave problema.
As duas semanas passaram e um jornalista (que tinha guardado o recorte do anúncio) ligou para saber novidades.
Resposta do assessor de imprensa (até há pouco jornalista): tão cedo não vai haver nada, seguramente nas próximas semanas não iremos revelar nada;
Admirado, o jovem jornalista falou com o seu editor, que – surpreso – lhe pediu um novo contacto com o mesmo assessor – será mesmo assim?
O segundo contacto fez-se mas a resposta foi a mesma.
O jornalista pegou nesses dados, juntou-os aos que já tinha do passado e começou a ouvir reacções dos chamados “parceiros sociais” (todas negativas).
Duas horas depois, o mesmo assessor – assustado com algo que teria chegado ao conhecimento do ministro – telefonou a dizer que as medidas seriam anunciadas até ao fim deste mês. Mas não podia (não sabia?) uma data. E a notícia acabou por não ser feita.
No dia seguinte o ministro, no final de uma cerimónia, anunciou algumas das medidas e 24 horas depois a informação está em vários jornais, entre os quais o Expresso: neste são anunciadas mais medidas e uma data em concreto.

Notas a retirar desta estória:
- o assessor de imprensa ou mentiu ou foi incompetente (porque reafirmou uma informação sem ter disso confirmação - o que não é nada provável);
- o assessor de imprensa não quis dizer a data para não estragar a notícia do Expresso;
- a mentira terá sido uma forma de desmobilizar o jornalista. E conseguiu-o...

Por que é que esta estória vale a pena? Porque mostra (mais uma vez - é um dos temas recorrentes desta página) como a dialéctica jornalística é profundamente instável/precária (o que gera muita incompreensão nos receptores). Se a notícia tivesse sido emitida (no caso da rádio) na hora seguinte à primeira informação, seria a seguir desmentida? Mesmo confirmada duas vezes com a mesma fonte oficial?

maio 11, 2005

É o ministro quem o diz

"A terceira tendência [preocupante na evolução recente dos media em Portugal] é numa tendência de preguiça. Grande parte do jornalismo, designadamente do jornalismo político que se faz hoje em vários países da Europa, incluindo Portugal, é um jornalismo preguiçoso de um jornalista que está sentado à secretária à espera de um telefonema"
Augusto Santos Silva in A Capital de 8/5/05

fevereiro 27, 2005

Exp 3 - Mau jornalismo

O Expresso publica semanalmente notícias de uma rede de jornais regionais.
E se a esmagadora maioria dessas notícias é bem feita, no sábado apareceu uma no mínimo duvidosa (tecnicamente):
"Figueira a ver navios" (título)
"Estaleiros do Mondego trocados por um deputado" (pós título).
Com um destaque destes obviamente que fiquei curioso.
Mas, a seguir, a notícia começa assim:
"À boca pequena, armadores da Figueira da Foz acusam o antigo [sic] ministro da Defesa, Paulo Portas, de ter sacrificado os estaleiros do Mondego à eleição de mais [sic] um deputado do CDS/PP por Viana do Castelo...".
E não aparece ninguém a credibilizar o título, nem à boca pequena nem à boca grande!
Não havia um copy desk para ler esta notícia? Foi a que abriu a página!

fevereiro 22, 2005

Não concordo!

Do Público de hoje (rubrica "Visto"):
"Já o que se viu e ouviu do dirigente socialista António Vitorino no início da folia vitoriosa do PS na noite de domingo é outra coisa. Perante a (natural) curiosidade dos jornalistas sobre se já haveria algum nome "ministeriável" na sua mente, o antigo comissário Europeu quis desde logo definir a relação entre jornalistas e o futuro Executivo, afirmando, num tom de papá que ameaça "tau-tau" a um filho rebelde: "O Governo do PS não será escolhido pela comunicação social nem na comunicação social!"
O que se compreende. Menos compreensível é o tom de voz irado, colérico, arrogante, já vociferado do alto do palanque do poder como quem não está para aturar "perguntazinhas idiotas", especialmente numa hora daquelas, em que António Vitorino saboreava a vitória. E depois a cereja em cima do bolo: "Isso é uma crítica?", atira uma jornalista. "Habituem-se!", respondeu Vitorino com uma frieza muito determinada. Cuidado!
"

E não concordo porque:
1) não acho nada... natural aquilo que o jornalista do Público diz ser «a (natural) curiosidade dos jornalistas sobre se já haveria algum nome "ministeriável" na sua mente». Na noite da vitória? Já se viu em algum sítio? Uma coisa é a curiosidade outra o trabalho jornalístico!
2) Acho muito bem que alguém com responsabilidades diga que "O Governo do PS não será escolhido pela comunicação social nem na comunicação social!" Há espectáculos recentes deprimentes. Assim, Vitorino consiga cumprir...
3) Finalmente, porque combato o falso corporativismo e recuso as promiscuidades, saúdo o "habituem-se" se ele representar uma forma mais saudável de estar no jornalismo.
O que um texto como este mostra é que os jornalistas-calimeros ficam eriçados quando alguém lhes faz frente (mesmo num caso simbólico como este)...

ACTUALIZAÇÃO a 24/2/05: vale a pena complementar com esta leitura.

A ténue fronteira entre informação e marketing

É obviamente um exercício simbólico, mas veja-se este caso, que mostra - penso eu - a diferença entre jornalismo e marketing, entre o rigor das notícias e a "liberdade" da publicidade.
Na Rádio Renascença, mal acabam os noticiários, há duas frases que se ouvem regularmente e que são puro marketing:
- "As notícias voltam às três ou a qualquer momento"
- "Estas e outras notícias em www.rr.pt"
E são marketing porque é, no primeiro caso, extraordinariamente raro a RR dar notícias "a qualquer momento"; no segundo, uma formulação como aquela diz que todas as notícias estão na página on line (além de outras). Estão mesmo todas? Correcto seria - por absurdo - "algumas destas notícias" ou "quase todas...".
O jornalismo apresenta-se rigoroso aos ouvintes; o marketing/publicidade não tem de ser comprovado.
O mais importante é isto: fará o ouvinte a distinção?

ACTUALIZAÇÃO a 23/2/05: nem por acaso, mais um exemplo da ténue fronteira!
Hoje de manhã, passou uma entrevista que fiz ao estratego da campanha de José Sócrates. Luís Paixão Martins contou algumas coisas bem interessantes, de uma área que é sempre desconhecida e, por isso, atractiva - os bastidores. O facto de ser raro (não digo inédito) ouvir quem tenha coragem de contar algumas dessas coisas e alguma curiosidade à volta da recente campanha vencedora foram os argumentos jornalísticos que justificaram a entrevista. Luís Paixão Martins saiu valorizado e a sua empresa pode beneficiar? Sim, da mesma forma que a Jordan passou a ter muito mais notoriedade depois de ter contratado um piloto português, que as empresas lutam por entrar no índice bolsista PSI20 (por causa da visibilidade/notoriedade) ou que este fim de semana a Guarda vai, provavelmente, receber muito mais turistas, por termos divulgado que tem estado a nevar...
Quem é que disse que nas notícias negativas só uma parte é que ganha?

ACTUALIZAÇÃO a 24/2/05: Já agora... (Francisco José Viegas, hoje no JN)

fevereiro 04, 2005

Televotos na SIC Notícias...

A emissão da SIC Notícias de ontem à noite foi estragada pela leitura (ainda por cima sistemática) dos resultados de um televoto a decorrer. O que é que a SIC ganhou com isso?
Por mim, desisti quando os resultados iam em 15 mil chamadas e 70% para Santana e 30% para Sócrates (e obviamente que esse ou qualquer outro resultado é irrelevante para esta análise)!
Um debate político, ainda por cima com esta importância, não pode ser alvo de uma votação como a dos Ídolos (para expulsar o cantor/político mais fraco). Isto é jornalismo, porra!
Em devido tempo, o Conselho Deontológico emitiu um parecer "impedindo" os jornalistas de lerem estas fantochadas (e vale a pena recordá-lo, aqui). Mas ninguém leva a sério. Nem o próprio Sindicato...
E ontem, pelo menos António José Teixeira alertou para os perigos destas votações on line.
O que mais me intriga é como é que pessoas tão preocupadas com a qualidade do que fazem (os jornalistas da SIC, obviamente), aceitam participar. É porque a SIC também ganha com as chamadas telefónicas?
Já agora, a sondagem do Correio da Manhã é boa para mostrar como os 70-30 só podiam ser um resultado manipulado!

Actualização:
1) Dois textos no Margens de erro:
http://margensdeerro.blogspot.com/2005/02/120.html
e
http://margensdeerro.blogspot.com/2005/02/amostras-voluntrias.html

janeiro 30, 2005

O poder dos jornalistas - um caso pessoal

Entendo partilhar com os leitores desta página uma história tão insólita quanto curiosa (espero não estar enganado...)!
Há cerca de um mês tive de ir a Lisboa de avião, coisa que já não fazia há mais de meio ano (a crise...). No regresso ao Porto, antes do embarque no aeroporto de Lisboa, mandaram-me tirar os sapatos e o cinto, porque o "pórtico" apitava e os seguranças não tinham detectores de metais. Achei embaraçoso (um buraco na meia?), calcei-me e segui viagem. Nos dias seguintes falei com algumas pessoas, um ou outro jornalista da minha redacção, mas ninguém demonstrou muito entusiasmo.
Há duas semanas tive de voltar a Lisboa e só não me aconteceu a mesma coisa porque levava uns sapatos de borracha (era dos pregos na sola!); mas à minha frente um conhecido empresário teve de ficar em meias.
A semana passada achei que deveria fazer uma notícia com isto! Afinal a coisa é estranha porque no Porto é a PSP que faz o controlo (com os devidos aparelhos) e em Lisboa são seguranças privados.
Contactei a ANA, expliquei o que pretendia (que me explicassem a diferença de tratamento e se acham razoável mandar descalçar só porque os seguranças não têm os aparelhos...) e pediram-me uns dias. Na quarta-feira voltaram a contactar-me para me dizer que no dia seguinte haveria novidades. Esperei. No dia seguinte o portavoz da ANA disponibilizou-se a gravar, com esta novidade: naquele mesmo dia, a administração da ANA decidira comprar os aparelhos para os seguranças em Lisboa! E na sexta-feira a notícia passou na TSF (acompanhada de alguns depoimentos de utentes, recolhidos no aeroporto).
O caso é insólito e curioso, penso. E permite várias leituras sobre o poder dos jornalistas. Pelo menos os passageiros que deixarem de se descalçar em Lisboa podem agradecer-me!!!!

dezembro 21, 2004

Coisas que fascinam

Lê-se, atribuído a Rui Rio (no Público de domingo):
"Se ficarem aí [para os jornalistas] como vou falar meia hora, talvez aproveitem quinze segundos para fazer um escândalo amanhã".
O que é fascinante, neste caso, é tentar perceber que motivação tem o presidente da Câmara do Porto para insistir neste discurso? O que é que ganha?
O jornalismo faz-se com os 15 segundos, com a capacidade de editar as informações e de as seleccionar - de acordo com critérios (substantivos) o mais transparentes possíveis.
O que Rui Rio consegue com uma frase destas é potenciar critérios não substantivos nos jornalistas (mais pessoais)- porque nenhum jornalista ficará completamente indiferente depois de ouvir uma frase destas (e o tom usado também é importante).

dezembro 09, 2004

É bem visto...

"Mas, do mal, o menos, sempre se contraria a tendência para o “pack journalism”, o jornalismo de rebanho, que tanto caracteriza os órgãos de comunicação social de hoje. O que um diz é igual ao que diz o outro e por aí adiante, e ninguém se atreve a ter um olhar diferente. Continua a ser pejorativo que se diga de um jornal ou de um noticiário televisivo “só eles é que pegaram nesse aspecto”, como se isso fosse um defeito, o preço do afastamento do rebanho."
Pacheco Pereira in VERITAS FILIA TEMPORIS

novembro 25, 2004

Coisas que fascinam

1º acto (18.31):
«LUSA: Media: Mota Amaral critica destruição de"reputações" com apoio entidades públicas
Coimbra, 24 Nov (Lusa) - O presidente da Assembleia da
República (AR), João Bosco Mota Amaral, lamentou hoje o
envolvimento de "entidades estaduais" em investigações
jornalísticas que vieram a destruir a reputação de algumas
figuras públicas.
"A cumplicidade, ao menos aparente, de entidades estaduais
nesses arremedos de julgamentos em praça pública contribui para
uma das maiores crises de sempre de credibilidade do Estado e
das instituições democráticas", afirmou Mota Amaral.
O presidente da AR intervinha na Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra, na sessão de encerramento das
comemorações dos 10 anos da Licenciatura em Jornalismo,
para a
qual foi convidado pela instituição..»

2º acto (18.51)
«LUSA: Media: ANULAÇÃO DE NOTÌCIA
Este despacho anula a notícia com o seguinte título:
Media: Mota Amaral critica destruição de "reputações" com apoio
entidades públicas
Lusa/fim»

3º acto (21.08)
«LUSA: Coimbra: Ameaça de boicote afasta Mota Amaral de cerimónia na Universidade
Coimbra, 24 Nov (Lusa) - O Presidente da Assembleia da
República, Mota Amaral, cancelou hoje a presença numa cerimónia na
Universidade de Coimbra, face à ameaça de boicote de estudantes no
âmbito da luta contra a política educativa.
Mota Amaral deveria encerrar, ao final da tarde de hoje, as
jornadas evocativas do 10º aniversário do curso de jornalismo da
Faculdade de Letras, mas acabou por cancelar a presença à última hora
,
face à presença de numerosos estudantes no interior e exterior da sala
onde se iria desenrolar a sessão, cerca das 18:00,explicou à Lusa José
Carlos Camponez, docente do curso e um dos organizadores da cerimónia.»

Fascinante, não?

novembro 04, 2004

A imprensa é a grande derrotada das eleições norte-americanas?

Francisco José Viegas - entre outros - acha que sim.
Eu acho que não.
Eu, que acho que a comunicação social tem apenas o poder que lhe é devido (e não mais) e que não gosto da arrogância de nenhum poder, acho que o único lado positivo na vitória de Bush foi mostrar precisamente que os jornais servem mais para informar do que para influenciar (eu, quando faço uma notícia, não penso em influenciar ninguém). E que os leitores sabem distinguir as coisas quando chega à hora de escolher.
A vitória de Kerry mostraria - na opinião das carpideiras habituais - o poder manipulador da comunicação social, a necessidade de maior regulação, o descontrolo e os perigos, etc, etc...
Assim, ficou tudo no seu lugar: os leitores ficaram a saber o que pensam os seus jornais; os mesmos eleitores fizeram o contrário...

setembro 26, 2004

ENS - Electronic News Gathering

Ainda por falar em cinema/televisão (as vantagens de estar recolhido...), encontrei por acaso um episódio de uma série policial que passa no canal AXN chamada "Boomtown" onde era retratada uma realidade, para mim surpreendente, mas que pelos vistos está bem presente no jornalismo norte-americano (pelo menos).
Eu já tinha lido especialistas alertando para os perigos que a facilidade de recolha de material aparentemente jornalístico apresenta, mas nunca pensei que houvesse uma "indústria" chamada ENS - Electronic News Gathering, que se dedica a recolher sobretudo imagens, em paralelo aos meios de comunicação social, para depois as vender. Até cursos existem...
A "recolha de notícias electrónicas", nessa série de televisão, chegava ao ponto de fabricar/produzir/encenar as situações para depois as poder comercializar (em circuitos paralelos de dvd ou nas televisões norte-americanas).

agosto 12, 2004

Coisas que fascinam

Estavam, pelo menos, 15 jornalistas de outros tantos OCS na conferência de imprensa de apresentação do novo treinador do FC Porto (ontem). Mas nenhum perguntou a Pinto da Costa por Del Neri. Nem - por aquilo que soube - tentou (e isso é uma obrigação jornalística).
É obviamente uma situação que merece ser criticada.
Mas também é razão para se perguntar porquê? Incompetência ou subserviência são duas palavras que - podendo ser verdadeiras num ou noutro caso - não me satisfazem.
Mas não estive lá e espero por mais informação para voltar ao assunto.

maio 17, 2004

O apagamento dos jornalistas

O jornal Público dava conta, na semana passada, de algumas declarações bem curiosas de Marcelo Rebelo de Sousa, no lançamento de um livro de um deputado do PSD.
Curiosas porque Marcelo critica o apagamento dos jornalistas, no caso concreto da televisão, mas também porque o seu espaço televisivo na TVI é um caso sério de apagamento editorial (mesmo tratando-se de uma zona de comentários - está um jornalista à sua frente, quase sempre calado).
Mas esquecendo o pormenor, relaciono a frase de Marcelo (nas grelhas das estações televisivas "o tempo que corresponde à intervenção jornalística corresponde a não mais de três, quatro horas") com algo que tem suscitado alguns textos nesta página: a suavização do jornalismo.
Esse apagamento dos jornalistas - que não se verifica apenas na TV, mas também na rádio e, em menor grau, na imprensa - é sinónimo de passividade, de desconhecimento, de falta de ousadia e de coragem para, por exemplo, fazer as perguntas que importa fazer.
Esta suavização relaciona-se, por contração, com o excesso de agressividade, mais no tom do que nos conteúdos.
Mas ambos são um erro.

março 26, 2004

Agressividade no jornalismo

Já repararam que, em muitas situações, na televisão e nas fotografias, se vê os jornalistas sorridentes, enquanto entrevistam (ou tentam entrevistar) alguém?
Se o entrevistado disse alguma coisa com piada um sorriso é natural, mas - infelizmente - sabe-se que há poucos protagonistas com humor em Portugal.
O que faz com que - deduzo - a alegria contagiante tenha outra origem! A minha explicação é simples: assiste-se cada vez mais a uma suavização do jornalismo, a um jornalismo-companheiro...
Defendo que o jornalismo deve ser combativo por natureza (ou seja, sempre) e mesmo agressivo (dependendo dos temas e das circunstâncias). O que não é o mesmo que rude, mal criado ou truculento - e há na televisão portuguesa, nomeadamente, quem cultive este estilo.
Um jornalismo combativo e agressivo não se compadece com sorrisos mais ou menos cúmplices entre repórteres e protagonistas (nem que sejam sorrisos sarcásticos - igualmente despropositados).
Uma das principais razões que explicam esta suavização do jornalismo português, actual, é a juvenilização das redacções. Mas não pensem, jovens camaradas, que os protagonistas gostam mais de vocês só por se rirem. Ou por estarem constantemente a acenar com a cabeça, durante a entrevista...