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março 27, 2006

(ACT) A melhor a reagir

O aparecimento, primeiro, dos canais de televisão em contínuo noticioso e, depois, das páginas de internet dos jornais provocou uma alteração no paradigma noticioso em Portugal: a rádio deixou de ser o veículo preferencial para noticiar em primeira-mão, como foi entre 1985-1995 (e isso devia-se basicamente ao facto de estar sempre em directo).
Os protagonistas passaram a escolher a SIC Notícias para noticiar na hora e os jornalistas do Público ou do Jornal de Negócios (este é o melhor exemplo) deixaram de ter de esperar pelo dia seguinte para dar a notícia em primeira-mão (correndo riscos de a perder para os diários televisivos das oito, também «atraentes»).
A rádio deixou de poder lutar de igual para igual no campeonato das «cachas» (uma redacção de 100 jornalistas envolvidos na edição do dia seguinte terá sempre vantagem sobre uma redacção inferior que tem de fazer, pelo menos, 24 edições).
Esta notícia só o confirma (embora episodicamente a rádio possa, também, ter as suas cachas).
O que resta a rádio? Se já não tem condições para ser a melhor a agir, poderá/deverá ser a melhor a reagir - avançando na hora, procurando reacções e os vários ângulos implicados, promovendo o contraponto, encontrando visões alternativas.
Isso garante o seu futuro.

ACT a 29/3/06: O caminho passa, por cá, cada vez mais por aqui.

outubro 09, 2005

A noite eleitoral e uma nova mentalidade na rádio

As principais rádios portuguesas preparam para logo emissões especiais de acompanhamento da noite eleitoral, emissões que reúnem uma parte substantiva das redacções e muitos outros meios.
Afinal, tentam fazer o mesmo que as televisões generalistas (já o faziam quando só havia a RTP; hoje nem faz sentido comparar...).

Esta constatação remete - do meu ponto de vista - para um tremendo anacronismo que caracteriza a rádio portuguesa.
Não havendo leitura diária de audiências em rádio, não é possível garantir que poucos estarão a ouvir as emissões especiais no FM. Mas empiricamente sabe-se que estas noites eleitorais são espectáculos televisivos. Por outro lado, as audiências televisivas comprovam o grau de adesão - ou seja, não sobra (quase) ninguém para ouvir logo a rádio.

E contudo a rádio persiste em concentrar esforços, gastar folgas e desperdiçar dinheiro numa emissão que tem apenas pouco mais do que valor simbólico e se faz, se calhar, porque não pode deixar de ser feita.

Dir-se-á: é preciso respeitar os ouvintes que não podem ver televisão, mesmo poucos. Mas eu junto um novo argumento: se as televisões brilham à noite, as rádios ofuscam de manhã (do dia seguinte). E teria de ser aí a concentração de esforços. Emissões especiais de rescaldo, com comentário, debate entre protagonistas, os sons da noite, as principais novidades, reportagem onde aconteceu surpresa, etc.

E a noite? Obviamente que a emissão não seria com música. Mas bastaria garantir os principais directos (até com a colaboração de uma televisão), fazer algumas entrevistas e ter o mínimo de repórteres, porque as notícias também chegam à redacção.
A rádio acorda de madrugada, não se deita a essa hora...

PS - para que não surjam equívocos: tive uma conversa interessante, sobre isto, com o José Fragoso, que terminou com o desafio de colocar estas reflexões on line!

setembro 30, 2005

Palmas para a RR

Já ando há algum tempo para escrever este texto, mas por uma ou por outra razão foi sendo adiado.
Hoje, com a sondagem, voltou o pretexto.

E quero destacar a primazia que a RR conseguiu na parceria com a SIC e o Expresso. A rádio não só não é menorizada como dá os resultados das sondagens no seu horário nobre (a manhã). Depois, a SIC recupera às 20 (também dá de manhã na SIC Notícias, mas não é a mesma coisa) e o Expresso desenvolve no dia seguinte (não sei se com algum ângulo mais fresco, mas no essencial é a mesma coisa).

(como há sempre um copo meio cheio e outro meio vazio, poderia ver este mesmo facto pelo lado do Expresso, que me parece sair a perder da parceria. Mas vale a pena elogiar a Renascença, independentemente de saber quem paga mais ou menos)

julho 03, 2005

Programar em rádio

Uma frase do subdirector de programas da Antena Um, lida no Público de sábado, suscita uma reflexão mais vasta. Diz Tiago Alves, a propósito das mudanças na grelha para Julho e Agosto: "Entramos em Julho com grande intensidade informativa, já que a audiência, em virtude das actuais condições do país, está mais receptiva a receber informação".

Se a Antena Um tivesse encomendado um estudo de opinião que suportasse esta opinião eu não escreveria nada. Mas como é muito pouco provável que isso tenha acontecido, a frase de Tiago Alves remete-nos para, por um lado, o drama dos programadores de rádio em Portugal, que trabalham com palpites, e, por outro, para a falta de estudos de audiência com valor científico.

O que Tiago Alves quer dizer é que lhe parece que os ouvintes estarão interessados em ouvir mais notícias do que música, apesar de estarmos em Julho. Intuição, sensibilidade, experiência, algum senso-comum, uma soma de várias opiniões, mas nada de estudos de opinião que validem uma coisa dessas - os que existem não lhe dizem nem isso nem o contrário.

Como é diferente na televisão. Aí, para o bem e para o mal, as audimetrias não enganam (ou, se enganam, é pouco...). E não há lugar a improvisos. Enquanto as audiências de rádio em Portugal continuarem a ser feitas trimestralmente, com base em entrevistas que apelam à memória dos ouvintes, não daremos o passo em frente.
Até lá, cada director de programas continuará a viver o drama de esperar que as opções da sua rádio sejam do agrado dos ouvintes. Mas só três meses depois.

maio 03, 2005

Alguém me explica o que isto quer dizer?

"Durante a sua intervenção, o presidentre da APR afirmou ainda que é «díficil existir liberdade de informação com uma lei tão apertada», referindo-se às quotas de notícias da região que as rádios locais devem respeitar" (in Público de 1/5/05, "Congresso de Radiodifusão pede alteração da Lei da Rádio").
Portanto, o facto de a lei obrigar a um determinado número de notícia(rio)s locais faz com não haja liberdade de expressão?
Se alguém me explicar, agradeço!

março 03, 2005

(in)citações

"Escrever para quem ouve é como escrever como quem fala"
Iván Tubau, autor do livro "Periodismo Oral

março 22, 2004

Viva a rádio!

Os do marketing da rádio, no Brasil, costumam usar este argumento para mostrar que a rádio não fica atrás da televisão: esta tem quatro horas de "prime time", a rádio tem pelo menos 12!
Vem isto a propósito de um episódio que se passou comigo e que não resisto a contar:
- um amigo meu, sportinguista, que eu tinha convidado para assistir ao Rio Ave-Sporting, não pôde fazê-lo, por compromissos anteriores. Pouco antes da meia noite ligou-me, porque ainda não sabia o resultado. Quando lhe disse 4-0 não acreditou.
Cinco minutos depois da meia noite estava a ligar-me, porque continuava sem acreditar: tinha visto o noticíário da meia noite da SIC Notícias (que é só títulos) e só se falava de pobreza, do Iraque, de manifestações e de Israel. "Se o Sporting tivesse perdido 4-0 a SIC tinha noticiado", disse-me!
E é capaz de se ter deitado sem ter a certeza. À meia noite, na TSF, por exemplo, o assunto era abertura, já com declarações dos dois treinadores.
É provável que a Sic Notícias, no seu espaço entre as onze e a meia noite, tenha noticiado o resultado. Mas foi incapaz de mudar o alinhamento dos títulos, que estavam prontos há algum tempo - e que, repito, fazem o noticiário da meia noite.
A televisão concentra muitos esforços no horário-nobre e, aí, é quase imbatível. Mas há muita vida antes e depois.
A rádio é mais ágil, mais imediata, mais informativa. Mesmo que não tenha, nem de perto nem de longe, a mesma notoriedade.

(E viva o Rio Ave...)