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junho 14, 2005

Sentido crítico

No final de Maio, e depois de uma chamada de atenção de um leitor desta página, coloquei um texto em que dava conta da experiência de autêntico neo-jornalismo, que foi fazer, na revista Xis, um trabalho alargado sobre ateísmo, ouvindo apenas católicos.
Na revista desta semana, duas cartas à directora dizem (um excerto de cada uma delas):
- "acho que todo este tema foi tratado de forma interessante mas parcial";
- "escrever artigos sobre ateísmo, sem chamar os ateus, é uma enormidade sem pés nem cabeça"
;

Ou seja, há leitores com sentido crítico!

maio 31, 2005

De propósito ou a lei do menor esforço?

Um leitor deste blogue chamou-me a atenção para um trabalho da revista Xis*, este sábado - fui encontrar sete páginas sobre o ateísmo (que é o assunto de capa), construídas com apenas duas pessoas, para além da jornalista: um professor da Universidade Católica e um jesuíta!
Uma crítica é imediata: um trabalho tão ambicioso não pode ser construído com apenas duas pessoas. É, no mínimo, monótono.
Mas mais a jusante há outra crítica que - parece-me - faz sentido: não deveria haver, sobretudo, ateus a falar do ateísmo? Um jesuíta e um professor da Católica é o mesmo que, para falar das propostas do governo sobre o défice, chamar um deputado do PSD e outro do PP.
Se foi de propósito, parece-me tendencioso (independentemente da qualidade dos entrevistados); se foi baseado na lei do menor esforço está tudo dito!

* Não gosto da revista, mas reconheço que é um produto coerente com uma determinada linha (new age?) e que, nesse aspecto, é um produto diferente/alternativo de tudo o resto. Deduzo que terá os seus leitores.

novembro 15, 2004

Concordo com a Estrela Serrano

"Se há manipulação feita por políticos é porque há jornalistas que consentem em deixarem-se manipular. Sabemos que, em muitos casos, os há mas talvez nem se possa dizer que se trata de manipulação, uma vez que é consentida, isto é, muitas vezes os jornalistas sabem que estão a passar “recados” que interessam a fontes que pretendem preservar. E, como precisam de notícias, sobretudo se obtidas sob a forma de confidências, prestam-se a esses jogo".

agosto 09, 2004

Coisas que fascinam

"A TVI soube que possivelmente Luigi del Neri terá ido a Fátima e poderá vir a estar presente esta noite em Penafial, para assistir ao jogo...".Coisas que fascinam...
Jornal Nacional, 8/8/04

agosto 06, 2004

Nos 30 anos do Watergate...

«Quero mais factos!», disse o editor-executivo do WP a Woodward e Bernstein no filme "Os homens do presidente" (Alan J. Pakula, 1976).

agosto 05, 2004

À margem - silly season - espiões e jornalistas

Uma dica do Intermezzo, que reproduz um texto da Folha de São Paulo, de 26/7/04 (já tem uns dias, mas é irresistível):
"Em sua página na Orkut, o novo centro de discussões na internet, o ex-funcionário da Kroll preso no sábado, o português Tiago Verdial, diz gostar de Cartola, Nelson Sargento e Clara Nunes. Na quinta, antes de ser preso e no dia em que a Folha revelou que a Kroll espionava o governo, disse a colegas por e-mail, de seu apartamento na Urca, no Rio. "Já li a matéria, tô passado. E o crack luso [uma referência a ele próprio] não foi citado!!". No texto, Verdial avalia duas alternativas: seu nome seria mencionado numa próxima reportagem ou, segundo suas próprias palavras, "papai do céu tá me protegendo e nunca serei lembrado. Gostei da 2ª opção".
(..) Uma vez no Rio, e por orientação da Kroll, aproximou-se de jornalistas para extrair deles notícias e plantar versões. Mesmo sem ser membro, virou figurinha fácil na lista de conversa virtual da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). (...) Outros membros da Abraji contam que Verdial postou na lista mensagens com informações pessoais do ministro Luiz Gushiken, e sobre o investidor Naji Nahas.
Mas não se limitavam à lista seus esforços para extrair informações de jornalistas. Em janeiro passado, durante a crise financeira da Parmalat, ele telefonou para duas jornalistas especializadas em economia da Folha. Usou o nome verdadeiro para se identificar, mas mentiu quanto ao empregador. Disse que representava um grande fundo credor da Parmalat.
"
Um espião muito... verdeal?

março 30, 2004

Mais fontes - assessores

Hoje, no Público, José Vítor Malheiros fala sobre o papel dos assessores de imprensa e de como são - ou não - fontes.
Mas no Expresso de sábado uma notícia sobre uma nova empresa de comunicação vai ainda mais longe nesta luta permanente pelo controlo editorial da informação - entre jornalistas e fontes/protagonistas.
A notícia tem como título "Nasce o Repórter Virtual" e dá conta de uma empresa que se propõe criar um "jornalista virtual" que - cito - "será o substituto do jornalista ausente de um acontecimento. O órgão de comunicação que o desejar receberá, na hora, notícias e imagens do que se está a passar".
Apesar dos responsáveis garantirem que o portal "apenas conterá informação relevante, abstendo-se de incluir matérias promocionais ou propagandísticas", eles próprios reconhecem que a ideia surge porque verificaram que "as empresas jornalísticas estão a cortar nos custos".
Não é perigoso, isto?
Acredito nas boas intenções do Rodrigo e da Elsa, mas esta coisa de incentivar os meios de comunicação a não irem, utilizando material fornecido pelas fontes, é mau. Para os jornalistas, para os próprios meios e para - a médio prazo - as fontes!

março 19, 2004

Interpretar o que dizem as fontes

Uma carta, da administração da Impala, na última página da revista do Expresso, suscita uma análise.
A carta insurge-se contra, por um lado, as declarações de Manuel Maria Carrilho (por causa da foto de Bárbara Guimarães com o filho) e, por outro, contra uma extensão interpretativa feita pelo jornalista.
É um caso muito interessante - e frequente!
Carrilho disse que "há um grupo empresarial que são uns mercenários da imagem". Mas não quis explicar a quem se queria referir.
Já o jornalista do Expresso acrescenta de imediato: "[trata-se] de uma alusão ao Grupo Impala, a que pertence a revista «VIP»".
A missão do jornalista é dizer aquilo que a fonte evita deliberadamente?
A resposta é complexa, porque, há, por um lado, o dever de informar o leitor/ouvinte (este ficaria na dúvida); mas também há que perceber onde começa e termina a nossa função.
Carrilho evitou claramente pronunciar (por receio de tribunal? por pudor?), mas o jornalista ajudou-o: os leitores ficaram a saber de quem se trata, mas através do jornalista.
Penso que seria preferível o jornalista ter deixado claro que insistiu com Carrilho para ele explicar a quem se referia e que este se recusou.
A administradora do Grupo Impala promete concluir o caso em tribunal; caso a ameaça se concretize, Carrilho pode "lavar as mãos", o jornalista é que tem de responder. Vai dizer que foi Carrilho quem lhe disse?

fevereiro 23, 2004

Corrigir os erros das fontes

Uma dica do Ponto Media revela que, entre outras novidades, o Washington Post vai deixar de corrigir os erros gramaticais dados pelas pessoas que falam com os seus jornalistas - "todas as citações devem aparecer no jornal devem reflectir exactamente o que a pessoa disse".
Isto tem muito a ver com a rádio.
No jornal, perante um erro, é possível colocar a palavra "sic" (assim mesmo) para o jornalista se distanciar do erro e evitar más interpretações junto do ouvinte; na rádio não.
O que fazer?
No livro defendo duas opções, em função das fontes serem conhecidas ou anónimas; os erros das primeiras são para serem emitidos; os das segundas devem ser resguardados, com recurso à edição (no caso de ser possível).
O WP não faz distinção, mas no WP também só costumam falar personalidades de média ou grande dimensão!
A minha preocupação, quando falo em preservar a fonte, é que o seu depoimento não se torne embaraçoso para o próprio (em pessoas de condição social/cultural baixa, portanto).

fevereiro 11, 2004

Concorrência/fontes/tecnologia

Vários jornais dão hoje conta de uma intervenção do jornalista da BBC Nik Gowing, em Lisboa.
O título do DN diz tudo: "Evolução tecnológica ameaça credibilidade". E de que é que fala?
- há um acesso sem precedentes a múltiplas fontes de informação sem que, muitas vezes, exista a possibilidade de verificar a respectiva veracidade;
- a proliferação e a massificação da tecnologia permitem que qualquer cidadão anónimo se posicione como prestador de serviços aos meios de comunicação. Sem que alguém pare para reflectir sobre a credibilidade de tais imagens;
- toda a gente possui uma máquina de fotografar, um vídeo, um telefone portátil ou até uma webcam;
- como se verificou na Guerra do Iraque, as maiores dificuldades centraram-se na falta de tempo para verificar todas as informações disponíveis;
Informações retiradas do texto do DN.
São reflexões muito interessantes e extremamente actuais.