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abril 26, 2006

(ACT) O Expresso sai muito mal...

Depois de Cavaco Silva ter ignorado, ontem, as notas que o Expresso dizia que ele abordaria, com duas semanas de antecipação, o Expresso sai mal da história.

O caso é interessante porque este é um daqueles casos em que não há muitas fontes: como não acredito que tenha sido o Presidente, só pode ter sido um dos seus assessores. Algum deles enganou o Expresso?

Outra ilação a retirar: como dizia um jornalista com quem trabalhei, às notícias que envolvem a palavra «pode(m)»... pode sempre acontecer o contrário! Sobretudo se forem escritas com tanta antecedência - o Expresso tirou as ilações?

PS - sem grandes esperanças, procurei na página on line alguma explicação do jornal. Em vão. Curiosamente, nos comentários ao verdadeiro discurso, nenhum leitor cobra a falha ao Expresso!
O mesmo não se passa com este texto!

ACT a 27/4/06: Pacheco Pereira na Sábado de hoje (pág. 17) comenta o assunto com, genericamente, as mesmas reflexões. Uma diferença essencial: no pressuposto de que o jornal foi enganado por uma fonte de Belém, PP defende que o Expresso deveria denunciar a fonte. Eu não sou tão radical como por exemplo Joaquim Vieira, que entende que um jornalista nunca deve denunciar uma fonte porque a falha, em último caso é sempre sua, mas também não acho que seja razão para medida tão extrema. Aguardo, contudo, uma explicação, até porque, como diz PP, «o Expresso saiu da direcção anterior com uma crise de credibilidade das suas notícias de primeira página e precisa agora de reconquistar».

janeiro 12, 2006

A revelação das fontes

Dois citações (do Público de hoje):
"a revelação de uma fonte confidencial constitui um dos comportamentos mais indignos de um jornalista"

"Nenhum jornalista pode permitir-se ser julgador único de uma situação que, a desembocar na denúncia de uma fonte confidencial, atinge todo o colectivo dos jornalistas e a credibilidade da profissão" (...) a decisão de denunciar uma fonte "põe em risco a seriedade e a credibilidade de todos os jornalistas e de todos os órgãos de informação".

("O processo que levou a estas considerações remonta a 1999: o ex-director adjunto do Jornal da Madeira, Rui Fino, pediu a condenação solidária do conselho deontológico (CD) do SJ, então presidido por Óscar Mascarenhas, por este o ter publicamente criticado pelo facto de denunciar como fonte confidencial daquele diário um deputado socialista, "com o intuito de o prejudicar".)

Uma nota pessoal: já várias vezes abordei aqui esta questão; embora haja quem não admita a revelação da identificação de uma fonte anónima em circunstância alguma, eu considero uma excepção quando há má fé deliberada e comprovada da fonte e a situação precisa de ser explicada aos leitores/ouvintes/telespectadores. Não foi manifestamente este caso.

outubro 27, 2005

Uma decisão (importante) para fazer jurisprudência

"O jornalista Manso Preto foi absolvido, por acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 26 de Outubro, do crime de desobediência ao tribunal a que havia sido condenado a 10 de Dezembro do ano passado, por se recusar a violar o sigilo profissional (...) O acórdão considera que o jornalista não estava «obrigado a prestar testemunho», porque «preponderante no caso o seu direito à manutenção do segredo profissional»."

O Sindicato também "saúda a coragem manifestada ao longo de todo o processo por Manso Preto, que mesmo depois de ter sido condenado em primeira instância a 11 meses de prisão, com pena suspensa por três anos, não hesitou em levar até às últimas consequências a defesa do sigilo profissional". E faz bem. Manso Preto é um exemplo para toda a profissão.

outubro 17, 2005

Se era para isto por que é que esteve três meses presa?

"Lewis "Scooter" Libby, o chefe de gabinete do vice-presidente dos EUA (Dick Cheney), foi identificado ontem como fonte no caso da divulgação à comunicação social da identidade de uma agente secreta da CIA. Judith Miller, uma jornalista do diário The New York Times que passou perto de três meses presa por incialmente ter recusado revelar a sua fonte, identificou-a no domingo como Scooter Libby, sublinhando no entanto que ele não lhe revelou o nome da agente.
(...) «As minhas notas indicam que, bem antes de o Sr. Wilson ter publicado as suas críticas, o Sr. Libby tinha-me dito que a esposa do Sr. Wilson podia ter trabalhado na CIA sobre o dossier das armas não convencionais», indica Judith Miller num artigo publicado ontem. «No entanto as minhas notas não me mostram que o Sr. Libby tenha identificado a esposa do Sr. Wilson como uma agente a trabalhar sob segredo», sublinha."
(no Público de papel de hoje)

julho 11, 2005

A GR e as fontes; Joaquim Vieira explica

Joaquim Vieira deixou hoje uma resposta nos comentários a este texto, que não hesito em transcrever aqui (sublinhado meu):

"Há muito que considero, de facto, que é o jornalista que tem a obrigação de verificar se a fonte actua ou não de boa fé, se a informação que transmite é fidedigna ou não. Se a informação está errada, se a fonte enganou deliberadamente o orgão de informação, a culpa é sempre do jornalista, que foi na cantiga, que não fez o trabalho de casa (verificação com outras fontes, etc.), isto é, não foi um profissional competente. Caso contrário, entramos num terreno pantanoso, em que as fontes nunca sabem se os jornalistas as podem denunciar ou não, porque eles vão decidir a seu bel-prazer se foram ou não enganados (vide o caso do DN com o ex-director de PJ, Fernando Negrão). Ou seja, é impossível traçar uma linha entre "intenção de enganar" e "intenção de não enganar" - isso fica sempre ao livre arbítrio do jornalista. Ou quem é que, se não ele, poderá julgar das intenções verdadeiras das fontes? Será uma forma de os jornalistas fugirem às suas responsabilidades."

julho 05, 2005

Confidencialidade das fontes

A Grande Reportagem também publicou o seu Estatuto Editorial nos último dias.
São apenas três pontos, na linha de todos os outros documentos do mesmo género. Com uma excepção:
"Os redactores da Grande Reportagem comprometem-se a cumprir escrupulosamente o disposto na Lei da Imprensa, no Estatuto do Jornalista e no Código Deontológico da profissão, ressalvando-se porém, quanto a este último documento, que o princípio da confidencialidade das fontes de informação é um dever e um direito absoluto".

Ou seja, se bem interpreto, a GR não aceita a hipótese de denúncia de uma fonte, mesmo em caso de deliberada má-fé dessa fonte!

maio 17, 2005

Revelar a identidade das fontes anónimas!

Esta dica de António Granado merece desenvolvimento.
E é isso que aqui proponho (embora ache que o caso precisa de ser mais discutido)!
Resumidamente: o Público, a 8/5, noticiou - sem citar qualquer fonte - que as negociações do Bloco de Esquerda com o seu candidato a Lisboa, Sá Fernandes, tinham começado há um ano. O Bloco e o advogado negaram a seguir e o jornal publicou - no dia 13 de Maio - um direito de resposta de Sá Fernandes a dizer isso mesmo.
Só que ao contrário do que costuma acontecer, José Manuel Fernandes assina, ao lado desse direito de resposta, um "Esclarecimento necessário" e, mais, revela que quem é a fonte anónima que suportara a notícia inicial: o próprio assessor de imprensa do Bloco!
JMF justifica esta situação tão rara com este argumento: "(...) os dirigentes do BE enganaram o Público e, por essa via, os seus leitores. Tal como surge consagrado no nosso Livro de Estilo, perante uma situação desta gravidade decidimos tornar públicas quais foram as fontes que afirmaram uma coisa e fizeram outra (...)".
Eu aplaudo a coragem do Público, porque é uma forma de fazer pedagogia sobre as fontes, de mostrar respeito pelos leitores e de tentar moralizar a relação. Isto é tão raro que só me lembro de um caso - em 2000 - envolvendo a Rádio Renascença e o então ministro Armando Vara.

agosto 11, 2004

Um novo Livro de Estilo do Público

José Manuel Fernandes dá hoje uma boa notícia no seu editorial: a nova edição do Livro de Estilo do Público vai sair em Março, coincidindo com o 15º aniversário.
E o director do jornal promete novidades: "Os jornalistas têm o dever de proteger as suas fontes, tal como têm o dever de evitar até ao limite utilizar fontes anónimas, tal como podem denunciar as suas fontes quando sentem que foram instrumentalizados. O PÚBLICO não está isento de pecados neste domínio - mas também já denunciou fontes quando entendeu que o devia fazer. A nova edição do nosso Livro de Estilo, que estamos a preparar para o 15º aniversário, trará novidades e novas regras neste delicado domínio - regras que, em última análise, responsabilizarão mais o jornal e o jornalista e limitarão um poder discricionário que por vezes é excessivo".

julho 05, 2004

Pacheco Pereira tem razão

É a primeira vez, provavelmente, que concordo com Pacheco Pereira quando ele se refere aos jornalistas.
No Abrupto, o ex-futuro embaixador na UNESCO fala em "central de desinformação" montada pelos apoiantes de Santana Lopes, recorrendo - como consta dos manuais do "spin" - a manipulação, mentiras, meias-verdades, pseudo-acontecimentos e desgaste dos adversários.
E, depois do desmentido de Cavaco Silva relativamente à notícia do Independente, PP incita os jornalistas a revelarem as fontes que os estão - comprovadamente - a manipular (*).
No Jornalismo e Comunicação, Manuel Pinto foi o primeiro - que eu tenha visto - a alertar para o que está a acontecer.
Recomenda-se vivamente, aos mais distraídos, essa bíblia da arte de manipular a comunicação social que se chama "Manobras na Casa Branca" ("Wag the Dog"), com De Niro e Dustin Hoffman.

(*) Por que é que a maior parte dos jornalistas não o irá fazer? Provavelmente porque preferem trocar este crédito mais tarde com os assessores do futuro primeiro-ministro...

março 09, 2004

Identificação das fontes

Ouve-se: "Um elemento da administração, com o pelouro financeiro, disse que...".
Aí está uma forma muito perigosa de identificar alguém, não identificando!
Se a fonte nos convence que só pode dar a informação sob sigilo e se a dita é realmente importante, devemos garantir a todo o custo esse anonimato!
Dizer que é um elemento da administração com o pelouro financeiro remete para uma determinada pessoa. Se é a própria, estamos a identificá-la, o que é muito grave; se é outra, mais grave ainda!
E se em vez de um administrador com o pelouro financeiro há dois, há alguém que está a ser responsabilizado indevidamente e outro que identificamos, apesar do nosso compromisso.
Se garantimos o sigilo... garantimos mesmo! E não é preciso estarmos preocupados com a credibilização da fonte; essa credibilização surge pela validade da informação!

fevereiro 03, 2004

Fontes anónimas e sigilo profissional- chover no...?

Sobre o hábito generalizado de (não) identificar as fontes por parte dos jornalistas, José Vítor Malheiros assina um texto muito interessante no Público de hoje.
Será chover no molhado, a começar pelo próprio Público, mas aqui ficam algumas ideias essenciais:
- a identificação faz-se porque "o cidadão tem direito a conhecer a fonte de uma informação para poder responsabilizar o seu autor";
- em que casos pode um jornalista garantir o anonimato a uma fonte que constitua a base de uma dada história? "Apenas quando exista uma fundada razão para essa fonte considerar que a identificação lhe pode trazer um prejuízo grave";
- caso o jornalista "confie piamente na fonte e considere que as informações que ela lhe presta não carecem de confirmação, pode escrever a sua notícia se o quiser, mas assumindo ele próprio a informação, sem precisar de a atribuir a uma fonte não identificada - que não lhe dará mais credibilidade";
A concluir: tem sido grande a discussão sobre o uso de fontes anónimas no jornalismo português (e não só, claro, vide caso-Kelly) e esse é o primeiro passo para que os leitores/espectadores/ouvintes sejam mais exigentes; mas também para que os jornalistas recuperem princípios perdidos.

janeiro 30, 2004

Sigilo das fontes

Tal como se esperava, a proposta do BE foi recusada ontem na AR (ver texto de 8 de Janeiro neste blogue).
A ideia parecia-me correcta, mas a formulação nem por isso: a revelação das fontes só aconteceria se fosse "a única última forma de prevenir, directamente, um crime".
A maioria criticou e mesmo entre a oposição houve reservas. Justificadas.
Concordo que o regime legal actual é insuficiente, mas uma eventual alteração precisa de ser melhor pensada. A proposta do BE (a)pareceu muito "em cima da hora" - o que levou a que o BE ouvisse críticas sobre a possibilidade de estar a querer beneficiar uma jornalista em concreto (no caso, Paula Martinheira, do Diário de Notícias).
Sem alteração, mantém-se tudo como antes. Ou seja, são os tribunais a decidir quando é que os jornalistas podem quebrar o sigilo das fontes.

janeiro 08, 2004

O sigilo profissional e a protecção das fontes

O Bloco de Esquerda acaba de apresentar um projecto de lei para proteger, de uma forma mais efectiva, as fontes dos jornalistas.
Para desespero de muitas consciências, a Constituição da República consagra "a protecção do sigilo profissional" (art. 38º), remetendo a regulamentação para uma lei ordinária, no caso o Código do Processo Penal (artigo 135).
Apesar do Estatuto dos Jornalistas dizer que "os jornalistas não são obrigados a revelar as suas fontes de informação, não sendo o seu silêncio passível de qualquer sanção directa ou indirecta" (artigo 6º), a verdade é que não têm faltado tentativas das autoridades para que os jornalistas revelem as fontes (há, como se sabe, casos recentes).
Tudo porque - diz o BE e eu concordo - o artigo 135 do CPP permite "uma leitura abrangente sobre o levantamento do segredo profissional dos jornalistas".
Na proposta do BE, "a prestação de testemunho com quebra do segredo profissional sempre que esta se mostre justificada (...) nomeadamente face ao princípio da prevalência do interesse preponderante" (alínea 3, não alterada) apenas se aplica aos jornalistas quando esta seja a única e última forma de prevenir, directamente, um crime" (alínea 4).
A única dúvida é a formulação (demasiado vaga?) de "crime". A voltar ao assunto...

dezembro 16, 2003

Fontes e sigilo uma história de Silves

O Público conta hoje um caso magnífico: a presidente da Câmara de Silves exige saber quem "forneceu as cópias publicadas" no jornal "Terra Ruiva", de S. Bartolomeu de Messines.
Resumidamente, este jornal teve acesso a documentos internos, que suportam a informação de um pedido de indemnização de um empreiteiro à Câmara.
A autarca argumenta que os documentos foram retirados do seu gabinete, numa altura em que não tinham, ainda, o seu despacho. "Eu própria poderia dar a notícia ao jornal", diz.
Mas a directora do jornal junta pormenores que arrasam os argumentos da presidente:
- o "Terra Ruiva" procurou ouvir a Câmara, durante dois dias, sem resultado;
- a presidente negou ao PS e à CDU a existência desses documentos, em dois momentos diferentes (Assembleia Municipal e Câmara Municipal);
Na minha opinião - e se dúvidas existissem - estes dois argumentos legitimam a sua publicação. De qualquer forma, a preocupação dos jornalistas não deve ser, tanto, sobre a forma como os documentos foram obtidos mas sobre a sua validade, veracidade e importância.
A história é tão caricata que a autarca revela que quem retirou os documentos já se identificou, mas ainda assim "espera que o Sindicato dos Jornalistas lhe dê razão na exigência que fez de conhecer o nome da fonte de informação do «Terra Ruiva»".