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maio 14, 2006

Mais do que uma simples curiosidade

«Os jornalistas acreditados no Palácio de Belém foram convidados pelo chefe da Casa Civil do Presidente da República, dr. Nunes liberato, para um encontro informal, onde teria lugar uma conversa em "off". O "off" significa, em jargão profissional, que jornalistas e fonte (no caso, o dr. Nunes Liberato) acordam que a conversa não é para ser divulgada. Depois de terem trocado impressões com Nunes liberato, os jornalistas foram convidados para um passeio pela fantástica varanda de Belém onde, num "acaso" evidentemente encenado, apareceu o prof. Cavaco Silva, responsável-mor pelo Palácio de Belém. Cavaco Silva dirigiu-se aos jornalistas e participou na conversa, obviamente em "off", da qual não transpirou uma linha para a imprensa - como era natural, dado o cumprimento do acordo por parte da comunicação social. Houve uma parte, no entanto, que "furou" o embargo do acontecimento: o próprio Cavaco Silva. No órgão de informação de que é proprietário (a página da Net da Presidência da República) pode ler-se que, "no dia em que cumpriu dois meses do seu mandato, o Presidente Cavaco Silva recebeu os jornalistas portugueses que acompanham regularmente a actividade da Presidência da República". A foto, um exclusivo do órgão de informação do prof. Cavaco, era um mimo. O encontro em "off", afinal, até estava na agenda do Presidente e tinha uma finalidade e um objectivo precisos: aparecer em pose distendida com a imprensa, violando objectivamente um acordo de "off". Lindo, educativo e revelador». (Ana Sá Lopes, DN de 13/5/06)

agosto 09, 2005

(act) O instável exercício jornalístico

Ainda quase ninguém tinha lido os jornais e já nas rádios, esta manhã, se fazia ouvir o comunicado de Manuel Maria Carrilho, desmentindo a manchete do DN*.
Estamos perante um caso clássico de um-contra-um - em quem acreditar?
Mas há algumas coisas que podem ser acrescentadas:
- as declarações de MMC ao DN aparecem entre aspas e, diz o artigo, foram ditas ontem;
- MMC diz no comunicado que, além de serem "falsas, infundadas e totalmente especulativas", "não correspondem ao teor das declarações prestadas pelo candidato aos jornalistas". Mas o jornalista do DN pode ter falado a sós com Carrilho (caso contrário, o assunto seria notícia noutros jornais);
- o jornalista do DN gravou as declarações de Carrilho? Se sim, e estas são rigorosas, Carrilho assinou a suas despedida da corrida eleitoral; se não, vamos ficar "cada um na sua". Amanhã o DN trará o comunicado de MMC e noutro texto dirá que reafirma tudo quanto foi escrito.
- finalmente, nem no "site" de MMC nem na página do DN há qualquer referência ao caso ou aos seus desenvolvimentos. Não basta elogiar ou reconhecer as virtualidades da internet. É preciso integrá-la! (ver exemplo do Portugal Diário)

* Deve, neste caso, uma rádio, dar um desmentido de uma notícia que não é sua? Se a noticiou, citando a origem, também deve noticiar o desmentido.

Act a 12/8: Ontem o DN fez aquilo que era previsível (e normal) que fizesse - reafirmou a sua história e a confiança no jornalista. Mas de várias leituras ficam alguns dados mais:
- o jornalista do DN diz no seu texto "De Alegre a Soares, o «on» e o «off»" que MMC fez aquelas declarações na presença de mais uma testemunha, por sinal jornalista. Assim sendo, e caso esta confirme a versão do DN, cai por terra a teoria do candidato Carrilho (alguém sabe se essa jornalista escreveu alguma coisa?);
- o jornalista do DN, nesse mesmo texto, deixa entender que tudo não passou de mais um caso de equívoco entre «on» e «off»: Carrilho disse, mas pelos vistos pensaria que era uma conversa informal. "Nem eu o citaria em on, como fiz na edição de ontem, se tivesse pressuposto o contrário", diz Francisco Almeida Leite. Portanto não é uma questão de Carrilho pensar aquilo ou o contrário, mas de não ser conveniente dizê-lo. Talvez por isso tenha telefonado a Alegre e a Soares...
- o Público de ontem diz que Carrilho desmentiu a notícia às três e meia da manhã, mal a edição do DN ficou na rede;
Com estes dados acho que já é possível emitir uma opinião sem estar baseada (apenas) na óbvia solidariedade jornalística: MMC mais uma vez mostrou o que é a gelatina política. E se alguém tem dúvidas pode ler este texto. Está lá tudo!

julho 14, 2005

O meu colesterol é 230, interessa?

Primeiro contaram-me mas, perante a minha incredulidade, fizeram-me chegar o texto, para que não ficassem dúvidas!

O ministro da Saúde iniciou esta semana aquilo que o seu assessor de imprensa chama de “briefing” quinzenal com jornalistas.
Até é de elogiar a disponibilidade do ministro.
Mas o pior vem a seguir:
- as declarações do ministro podem ser registadas, “desde que não façam uso de registo áudio ou vídeo” e divulgadas (a não ser que algum tipo de confidencialidade seja pedido expressamente);
- o assessor do ministro quer um “grupo de jornalistas fixo” e pede para ser avisado “com razoável antecedência” quando houver alterações;
- o assessor pede que lhe sejam indicados: os números de telefone fixo e telemóvel dos jornalistas destacados (dois por órgão), o endereço de e-mail e – o melhor vem agora – “os dias de folga quando fixos e os dias de férias”;

Ou isto não é para levar a sério ou então é preocupante: um ministro chama os jornalistas para encontros regulares em que não é possível fazer registo de som ou imagem?! E quer saber os dias de folga e férias dos jornalistas? Prefiro pensar que não o levaram a sério…

PS – (que eu tenha visto) A Lusa e o Público transcreveram declarações do ministro nesse encontro; o DN não.

março 16, 2005

Habituem-se: Excesso de sinceridade!

"«No final (da reunião), em 'off' poderei dar-vos um pequeno comentário do que se passou hoje», afirmou Freitas do Amaral, lembrando que o Governo decidiu-se por um «blackout» até apresentar o seu programa na Assembleia da República, nas próximas segunda e terça-feira."
Portanto, o que logo mais (ou amanhã) se ler como tendo acontecido na reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia foi Freitas do Amaral que disse; só não quer que se saiba! Ou será que não se importa? Ou foi um deslize? Habituem-se?

ACTUALIZAÇÃO: E não é que Freitas falou mesmo?

setembro 08, 2004

Gravações em "on"/fontes/jornalistas

Eis o que me apetece dizer depois de ler o texto "Mesmo em 'on' só pode haver gravação com conhecimento da fonte, defendem juristas e jornalistas" (Público, 5/9/04, por azar não está on line), nomeadamente da parte onde se pode ler: "Tanto para o registo em bloco de notas como para a gravação deve ser solicitada permissão":
Jornalista: pode responder-me a alguns perguntas?
Fonte: sim, claro.
Jornalista: posso gravar?
Fonte: Nem pensar nisso.
Jornalista: e tomar notas?
Fonte: também não!
Jornalista: não faz mal, eu decoro tudo!
Fonte: veja já se depois é rigoroso, não estou para ter chatices...

Voyeurismo mas não privacidade... no banco de suplentes

O episódio da gravação e posterior transmissão de uma conversa entre o treinador do Benfica e o seu adjunto remete, aparentemente, para o domínio da privacidade.
Mas remete, mais, para a obtenção de informações por meios leais.
Ou seja, pessoalmente, e neste caso em concreto, não me importa tanto que seja "seja lamentável que num espaço reservado, não exista privacidade" (Álvaro Magalhães) mas já acho que o director de comunicação do Benfica, Cunha Vaz, tem razão quando diz que "O técnico e o técnico-adjunto do Benfica foram escutados sem que para tal tenha sido dada autorização".
Essa é que me parece ser a questão principal.
O banco de suplentes não é um local reservado, mas as conversas que lá decorrem só podem ser transmitidas se houver autorização prévia.
A gravação, como aconteceu, sem que soubessem que isso podia acontecer, foi obtida por meios desleais. E aqui não se pode invocar qualquer interesse público - que seria justificado no caso-Octávio Lopes (os dois casos têm semelhanças mas não ouvi nada nesse sentido).
No basquetebol é normal assistir às conversas dos treinadores com jogadores, nos intervalos, mas eles sabem que anda um microfone (e uma câmara) por lá.

agosto 20, 2004

Ainda as gravações sem autorização

Por uma definição dos termos
Lê-se:
"...à revelia da vontade das suas fontes, muitas das quais exprimiram mesmo a vontade de só dialogar com o jornalista em "off" [the record], o que na gíria significa que o diálogo não é para ser gravado."
Uma conversa em "off" não implica que não possa haver registo. "Off", do meu ponto de vista, significa confidencial, significa que o que é dito não pode ser atribuído directamente a ninguém (antes, "uma fonte do....", "o jornal apurou que...").
Também por isto seria importante uma (re)definição dos termos, pelo menos ao nível do Conselho Deontológico do Sindicato; sempre ficaria alguma jurisprudência para o futuro.
Isto equivale, no jornalismo norte-americano (mais adiantados do que nós na questão das fontes) ao "deep background".
Mas - repito - não me parece que haja uma relação directa com a gravação.

agosto 13, 2004

As gravações sem autorização

Sigo sempre com especial atenção as observações de Estrela Serrano sobre o jornalismo. A entrevista, hoje em O Independente, é, como esperava, interessante.
Retenho duas frases:
- "Há uma regra básica que é a lealdade entre o jornalista e a fonte e uma gravação é diferente de um apontamento escrito";
- "Ele [o jornalista do Correio da Manhã] podia ter gravado as conversas, feito a transcrição para papel e depois destruído as gravações
".

agosto 12, 2004

As gravações sem autorização

(a propósito disto)

"SEJAMOS CLAROS
Se eu fosse o jornalista do Correio da Manhã, Octávio Lopes, também tinha gravado as conversas, com ou sem o consentimento dos seus interlocutores. Tendo consciência do risco em causa, por acaso existia outra forma de Octávio Lopes se defender?
A questão central aqui é outra: a que propósito é que tantas pessoas falaram ao telefone com o jornalista sobre o processo Casa Pia?
"
in http://bloguitica.blogspot.com/

agosto 10, 2004

As gravações sem autorização

Em mais de um ano, este é o assunto mais complicado de tratar. Confesso, até, que preferia estar de férias e, assim, ter o pretexto para passar ao lado (ou, pelo menos, só o tratar quando estivesse mais esclarecido), mas estando a escrever sobre outras coisas, seria pura cobardia nada dizer.
Ainda assim, evito uma posição mais definitiva; para já deixo algumas interrogações:
- se alguém conta tudo em "off", aceita também que o jornalista tome notas; se o jornalista, por acaso, até sabe estenografia conseguirá reproduzir palavra a palavra. É muito diferente de uma gravação? Quem não quer gravações é para poder desmentir-se?
- quando alguém insiste com o jornalista que não quer gravações está a dizer textualmente que não quer que registem a sua voz ou apenas, em sentido figurado, a insistir que a conversa é num registo "off"? (já me aconteceu esta situação);
- o Estatuto do Jornalistas, artigo 14º (alínea I), admite excepções à recolha de sons sem autorização, em nome do interesse público. Mas eu só posso saber se aquilo que a fonte me está a dizer é de interesse público se gravar; depois já não é possível ("importa-se de repetir tudo, porque eu estava distraído?");
- mas, nesse caso, também acho que as gravações devem ser imediatamente destruídas, se não configurarem qualquer "interesse público";
- o Código Penal (artigo 199) fala em gravações ilícitas quando não há consentimento; mas isso implica pedir textual e previamente autorização ou apenas parar de gravar se houver indicação em contrário por parte da fonte?
Ou seja, pelo tom das perguntas, penso que fica uma ideia clara: pelo menos nesta fase, não acho que seja tão simples dizer que "o jornalista não pode, em qualquer caso, fazer gravações sem avisar a pessoa em que causa de que o está a fazer" (Arons de Carvalho) ou que é "um comportamento deontologicamente censurável" (PGR).
Mas nada disto pretende contrariar dois valores essenciais: o sigilo relativamente às fontes e o respeito pelo compromisso do "off".
Voltarei...