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fevereiro 16, 2006

(ACT) CD do Sindicato censura jornalistas da Lusa

Sobre este caso em concreto, estou em desacordo com o que diz o meu camarada Manuel Vilas Boas: "Não há nenhuma razão para se sonegar, a quem quer que seja, o direito a pronunciar-se sobre uma acusação que lhe é feita (no caso vertente, a de estar a enganar os portugueses). Independentemente da veracidade da acusação ou dos factos que a suportam, o visado tem sempre o direito de se pronunciar acerca do que sobre si é dito ou escrito. Sem o tentar ouvir – e sem lhe dar um tempo mínimo para que possa pronunciar-se – nenhuma notícia deve ser publicada" (e não concordo porque entendo que não havia nenhuma acusação directa).
ACT a 17/2:
- recomendo este texto de Manuel Pinto "Acho é que a assertividade do parecer do CD, neste ponto e na circunstância específica, pode comportar alguma debilidade.".
- sobre outra questão, também relevante, António Granado: «Fiquei agora a saber, pelo parecer do Conselho Deontológico do Sindicato a propósito do caso da banda larga nas escolas, que “escrever ‘fonte do Ministério da Ciência’ não é citar uma fonte não identificada”

fevereiro 08, 2006

(ACTx2) Algumas coisas sobre o caso recente da Lusa

A seu tempo se conhecerá mais sobre este caso. Mas há algumas coisas que podem (devem?) ser ditas:
- parece claro que a assessora do ministro da Ciência foi longe de mais (há pressões inadmissíveis); o comunicado do Conselho de Redacção não deixa margem para dúvidas;
- ouvir apenas a directora de informação no Parlamento não contribui para o apuramento da verdade (o PSD fez, com este requerimento, a figura de idiota útil, que o PS parece agradecer); pelo menos, o Conselho de Redacção deveria ser chamado; mas muito mais importante seria ouvir a assessora de imprensa do ministro;
- uma fonte anónima não pode corrigir uma primeira notícia, a partir de uma fonte identificada; além de parecer suspeito, é uma incorrecção técnico-deontológica; ACT a 11/2: só agora vi o comentário que uma jornalista da Lusa deixou no Jornalismo e Comunicação sobre o assunto: "Não dizia o nome da fonte que lhe permitira fazer as correcções técnicas, mas dizia de onde era (do MCTES). Como não se tratava de matéria de opinião, concordo com a opção tomada". Não é a minha opinião, mas registo.

E agora aguardo.
ACT a 10/2: o PSD quer ouvir também o CR. É bem visto. Falta a assessora...

janeiro 06, 2006

Sampaio no Diário Económico

A Presidência da República desmentiu esta manhã uma notícia do Diário Económico. Em dez anos, a Casa Civil de Jorge Sampaio desmentiu algumas notícias. Mas não é normal. Anormal mesmo é desmentir uma declaração do próprio Presidente, citada entre aspas!
A Presidência diz que a declaração "é completamente falsa" o que, a ser verdade, remeteria para o domínio da fraude jornalística. Para aumentar a densidade da história, a peça no DE é assinada pelo próprio director, Martim Avillez Figueiredo, e pelo director-adjunto, António Costa.

O que é que se passou? O jornal, que reafirma a sua informação, dá uma explicação: "Perante a importância da declaração, e pelo facto de estar a falar com a porta-voz do Presidente da República, o director do Diário Económico perguntou, por duas vezes, se a frase era mesmo para ser citada.
A porta-voz do Presidente da República disse que sim, e inclusivamente modificou algumas palavras da declaração inicial
."

Parece-me uma versão muito credível, que - a confirmar-se - deixa entender algum problema de articulação na Presidência. Mas o caso também remete para um pormenor: o hábito que os jornalistas têm - e eu faria o mesmo - de atribuir ao protagonista declarações feitas por assessores ou portavozes. É certo que eles, em teoria estão lá para isso, mas talvez não fosse pior acrescentar no texto "através do assessor ou do portavoz".

outubro 31, 2005

José Manuel Fernandes explica

Lembram-se deste caso? Pois José Manuel Fernandes explica-se hoje em editorial.
Um texto equilibrado e - parece-me - rigoroso, que esclarece algumas questões e deixa os seus leitores globalmente satisfeitos, mas que não preenche duas dúvidas:
- não se esclarece, pelo menos para já, quem foram os dirigentes do PS que falaram com Fátima Felgueiras. Mas o director do jornal lembra que "as mesmas fontes que nunca nos enganaram no passado nos confirmaram, entre outras notícias que suscitaram perplexidade, os contactos prévios entre Fátima Felgueiras, designadamente através de intermediários, com membros do secretariado do PS. O PÚBLICO tem indicações sobre quem foram esses elementos, mas necessita de conhecer melhor as circunstâncias dos contactos antes de revelar esses nomes".
- como se recordarão alguns, aquilo que na altura foi designado por "micro-causa" destinava-se a pedir respostas ao jornal. JMF explica que não o fez antes, como também disse no Clube de Jornalistas, porque "o facto de tudo isto ter decorrido em plena campanha eleitoral e de a primeira sessão do julgamento de Fátima Felgueiras estar marcada para poucos dias depois do acto eleitoral levou-nos a optar por deixar passar a campanha eleitoral para darmos os devidos esclarecimentos num ambiente menos inquinado". Antes, como agora, não me parece um argumento suficientemente forte; isto devia (podia?) ter sido dito nos dias seguintes.

outubro 14, 2005

Sobre as explicações de José Manuel Fernandes

partilho destas reflexões.
(o caso - para os mais esquecidos - é este!)

outubro 07, 2005

(ACT) Mais do mesmo (caso...)

1) Interessante avaliar como é que este caso vai acabar. Acho por um lado que o Público vai fazer tudo o que puder para nada dizer (se não já o teria feito) e para não dar o braço a torcer. Mas vai depender muito da dimensão que o caso conseguir. Se se mantiver na blogosfera não há grande problema (do ponto de vista do Público); se passar para outros suportes (se, por exemplo, desse origem a um programa do Clube de Jornalistas...) então já seria mais difícil.
Como leitor diário e entusiasta do jornal prefiro continuar a pensar que o jornal julga ter boas razões para nada dizer (embora ache que isso é um erro).

2) Manuel Pinto pergunta "ao Público, aos jornalistas em geral e a todos nós, cidadãos, se é aceitável - e em que situações ou condições - trazer a lume matérias não suportadas em factos, ainda que verosímeis e eventualmente verdadeiras?". A pergunta é retórica, na medida em que a resposta é óbvia: claro que não; não havendo factos não há jornalismo (a não ser no jornalismo sensacionalista, que, entre as outras características, funciona com afirmações indesmentíveis, mas que não são suportadas concretamente). Com algum senso e muita imaginação, fazíamos um jornal cheio delas ("Paulo Portas não vai votar em Cavaco Silva"; "Sócrates não gosta de jornalistas"; "Cavaco Silva acha que ganha à primeira volta"; "José Peseiro pensou dimitir-se", etc...)

ACT a 11/10:
1) Pergunta Paulo Querido: "Que ganham com a gritaria pública do assunto os promotores da campanha?". Para além da formulação deselegante relativamente a um acto puro de cidadania, feito por muitos leitores fieis do jornal, a resposta é evidente: eu gostaria que os jornais que eu leio tivessem mais respeito e não me tratassem como estúpido.

2) Propus a Paulo Gorjão uma última iniciativa (do meu ponto de vista) : a redacção de um texto, individual ou colectivo, a ser enviado ao jornal. Tanto poderá ser publicado como artigo de opinião como carta ao director. Mas será certamente publicado. E "pedirá" uma explicação ao jornal. Esperemos.

3) Estrela Serrano pergunta: "Será que proteger fontes que eventualmente enganaram o jornal é mais importante que preservar a sua credibilidade, assumindo o erro?"

4) José Manuel Fernandes explica no Clube de Jornalistas.
Sexta-feira, Outubro 07, 2005

Sobre as explicações de José Manuel Fernandes
partilho destas reflexões.
(o caso - para os mais esquecidos - é este!)

outubro 04, 2005

Por (uma boa) causa...

1) Porque é preciso contrariar a arrogância típica das redacções;
2) Porque as direcções dos jornais precisam de demonstrar mais respeito pelos leitores/ouvintes/telespectadores;
3) Porque esta é uma causa da sociedade mais civil, apoio sem reservas a campanha (a que cheguei via Jornalismo e Comunicação) que o Bloguítica está a promover para obrigar o Público a explicar melhor «com quem é que Fátima Felgueiras manteve contactos no Secretariado Nacional do PS? Quando é que esses contactos tiveram lugar? Quem é que informou Jaime Gama previamente da libertação (sic) de FF?

Recordo que a notícia do Público foi desmentida pelo PS e por Fátima Felgueiras, mas reafirmada no dia seguinte pelo jornal (e novamente desmentida).
Porque o contrário seria desastroso, quero acreditar que o jornal estará bem informado. E, a ser assim, só encontro uma explicação para o que se está a passar: a matéria está, directa ou indirectamente, em segredo de justiça e o jornal quer poupar-se a um processo - é o que eu acho.
Mas há uma coisa que não aceito: o silêncio absoluto do jornal é uma falta de respeito para com os seus leitores.

setembro 06, 2005

Blogues anónimos e extrema-direita

Periodicamente sou contactado por leitores deste blogue que me enviam textos ou imagens para comentar. É este o caso.
E faço-o porque há duas coisas que podem ser ditas sobre 1) o trabalho jornalístico a partir de textos anónimos; 2) a cobertura noticiosa de actividade de organizações de extrema-direita;
O leitor em causa denuncia dois textos do Correio do Minho da passada sexta-feira (juntos dão uma página) em que se noticiam actividades do PNR, a partir de textos anónimos num blogue de Braga (a partir do momento em que as identidades não são confirmadas, devem ser considerados anónimos, até porque dois dos três contribuintes assinam com pseudónimos).
O que leitor contesta é que "o jornal não apresenta declarações na primeira pessoa ou qualquer tentativa de contacto com a dita organização. A notícia limita-se a copiar textos anónimos publicados num blog e dá-lhes a credibilidade de notícia, o que, só por si, infringe as regras mais básicas ensinadas em qualquer escola de jornalismo: confirmar a história junto dos protagonistas e obter um contraditório". O mesmo leitor detectou até um erro: "o jornal presume, a partir de um post colocado nesse blog, que haveria uma manifestação convocada para Braga quando na realidade ela deverá ocorrer em Lisboa."

A outra questão que coloca é a seguinte: "Alguns jornais estão a questionar a cobertura noticiosa que dão a organizações de extrema-direita, até porque não faz sentido meia dúzia de pessoas obterem tanta atenção por parte dos meios de comunicação social. No entanto, o Correio do Minho não teve qualquer pudor em publicar mensagens discriminatórias, racistas e incitadoras de violência. O sensacionalismo mostrou, uma vez mais, o seu lado mais perverso."

São questões interessantes mas diferentes: é um erro noticiar a partir de um blogue anónimo; é um erro dar importância de notícia a uma (três?) opiniões que provavelmente não representam mais ninguém;
Quanto a noticiar actividades de organizações de extrema-direita: se elas cumprirem algum critério de notícia e tiverem protagonistas identificados podem ser noticiadas. Nem que seja para dizer que são ilegais. A dimensão dessa notícia é que pode variar.

agosto 26, 2005

Exercício: quantos erros nesta notícia?

(No Diário de Notícias de ontem, 25/8, pág. 8)
"soaristas
Outro nome à direita?
A possibilidade de surgir outra candidatura presidencial à direita foi esta semana referida ao DN por diversos colaboradores de Mário Soares, especulando sobre as intenções de Paulo Portas ou Bagão Félix. Essa é uma hipótese que entusiasma as tropas soaristas - pois poderia garantir uma segunda volta, roubando votos a Cavaco -, embora as mesmas fontes admitam que é um cenário remoto."

julho 07, 2005

O lado mau do jornalismo

Era uma vez um jornal que obteve uma boa dica: há um ministro que tem 11 motoristas, sendo que cinco deles estão ao seu serviço. Um ministro com cinco motoristas?! Francamente. Que desperdício dos dinheiros públicos!
Vai daí faz-se uma notícia, mas desvalorizando completamente a consulta ao visado.
Poucas horas depois, o ministro reage e explica que, afinal, até tem menos motoristas do que o seu antecessor. E dos cinco, só um está ao seu serviço.
No dia seguinte, o mesmo jornal tem de fazer uma nova notícia com a versão do visado e o título já é "Costa só usa um ministro".

Notas minhas:
- Não sei quem tem razão, mas teria sido melhor jornalismo se as explicações do visado tivessem aparecido na primeira (e porventura última) notícia;
- O ministro ter cinco motoristas é claramente notícia; já ter um...
- O ministro ter mais motoristas do que o antecessor é notícia; ter menos...
- A notícia original inclui mais uma "bicada" ao ministro: teria ido de automóvel para uma reunião a 250 metros; afinal a versão do ministro é completamente diferente (estava noutro local, mais longe...);
- O primeiro texto tem, na minha opinião, outro erro: usa uma fonte anónima para emitir um juizo de valor: "fonte do meio judicial, solicitando anonimato, considerou os onze motoristas “um verdadeiro exagero"
É por isso que falo no lado mau do jornalismo: o lado da precipitação, das fontes anónimas que instrumentalizam, da falta de equidade e de cuidado no tratamento das fontes
;

maio 27, 2005

A fonte (anónima) vai ser denunciada?

Li isto em O Jogo de hoje. E dá a ideia que alguém enganou o repórter da Rádio Renascença:

"Raul Peixoto foi demitido (ADRIANO PALHAU)

Raul Peixoto, director desportivo [do Penafiel], foi demitido em consequência dos últimos acontecimentos em redor da equipa profissional - rebelião de jogadores por alegados salários e prémios de jogo em atraso, situação desmentida desde a primeira hora pelo clube e, 24 horas depois, pelos próprios futebolistas. (...)
"É surrealista", foi desta forma que Raul Peixoto comentou a decisão de António Oliveira - tomada terça-feira à noite -, negando, veementemente, que tenha sido o informador do repórter da Rádio Renascença. "Quem me conhece sabe que só pode ser uma calúnia", frisou Raul Peixoto, fazendo questão de acrescentar que o jornalista da Rádio Renascença teve o cuidado de conversar e esclarecer o assunto com o assessor de António Oliveira, Simões Lopes, e com o próprio presidente do clube.
"Fiquei estupefacto pelo facto de António Oliveira, que conheço há cerca de 30 anos, ter acreditado numa história tão ignóbil", comentou Raul Peixoto
Admitindo saber quem montou a "armadilha", Raul Peixoto, embora não revele nomes, diz-se "amargurado e triste" pela forma como deixa o Penafiel. (...)"

maio 17, 2005

Revelar a identidade das fontes anónimas!

Esta dica de António Granado merece desenvolvimento.
E é isso que aqui proponho (embora ache que o caso precisa de ser mais discutido)!
Resumidamente: o Público, a 8/5, noticiou - sem citar qualquer fonte - que as negociações do Bloco de Esquerda com o seu candidato a Lisboa, Sá Fernandes, tinham começado há um ano. O Bloco e o advogado negaram a seguir e o jornal publicou - no dia 13 de Maio - um direito de resposta de Sá Fernandes a dizer isso mesmo.
Só que ao contrário do que costuma acontecer, José Manuel Fernandes assina, ao lado desse direito de resposta, um "Esclarecimento necessário" e, mais, revela que quem é a fonte anónima que suportara a notícia inicial: o próprio assessor de imprensa do Bloco!
JMF justifica esta situação tão rara com este argumento: "(...) os dirigentes do BE enganaram o Público e, por essa via, os seus leitores. Tal como surge consagrado no nosso Livro de Estilo, perante uma situação desta gravidade decidimos tornar públicas quais foram as fontes que afirmaram uma coisa e fizeram outra (...)".
Eu aplaudo a coragem do Público, porque é uma forma de fazer pedagogia sobre as fontes, de mostrar respeito pelos leitores e de tentar moralizar a relação. Isto é tão raro que só me lembro de um caso - em 2000 - envolvendo a Rádio Renascença e o então ministro Armando Vara.

março 08, 2005

Duas notícias, dois desmentidos...

No DN "fonte próxima de Sócrates" confirma um encontro com Kofi Annan em Lisboa; no Público "o secretário-geral das Nações Unidas estará em Lisboa no dia 13 para se encontrar com o Presidente da República, estando também previsto um encontro a sós com o recém-empossado primeiro-ministro, José Sócrates".

Neste cenário, se o desmentido do portavoz do MNE tem algum sentido (desmente porque não sabe e deveria saber porque ainda é ministro...), como entender o desmentido de Belém (noticiado há instantes pela TSF)? Annan vem encontrar-se com o Presidente mas Jorge Sampaio não sabe?

Enganar(-se) um jornal é relativamente fácil, mas dois?!
Uma estória para acompanhar (embora me pareça que a fonte socrática é a chave do problema)...

ACTUALIZAÇÃO (1) a 9/3 - no Clube de Jornalistas: "Ambos os jornais dão conta do desmentido nas respectivas edições «on line», mas dos autores das notícias não se leu, até agora, nem uma palavra"

ACTUALIZAÇÃO (2) a 9/3 - O que dizem os jornais de hoje?
O DN explica que "a impossibilidade de o secretário-geral da ONU estar em Lisboa mais do que umas horas durante a tarde e a noite de sábado inviabilizou (...) no final da semana passada (...) a concretização das audiências previstas";
O Público: "Face aos desmentidos, o PÚBLICO apenas pode confirmar que a visita esteve a ser preparada e chegou a estar agendada".
Já o Diário Económico explica que "nem no gabinete do secretário-geral da ONU nem na representação diplomática de Portugal nas Nações Unidas chegou a ser equacionada uma viagem a Portugal nesta altura. Em Belém também nada se sabia".

Ilações a tirar:
- se houve alguma coisa de facto, quando escreveram já estava ultrapassada (como é que não o confirmaram? Aparentemente os que desmentiram ontem teriam feito o mesmo na véspera);
- com dois jornais a noticiarem o mesmo, a fonte só pode ser a mesma;
- parece certo que a fonte enganou os jornalistas; ou os jornalistas é que se deixaram enganar?;
- este caso é insólito porque envolve dois jornais em simultâneo e agrava a ideia de que o jornalismo saiu mal deste caso;

fevereiro 24, 2005

O lado mais negro do jornalismo

O JN de hoje dá conta do início do julgamento que opõe Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e Vieira da Silva a O Independente - o jornal disse que estes dirigentes socialistas sabiam há muito dos abusos sexuais na Casa Pia.
Ontem, no tribunal, "os jornalistas assumiram que tinham sido enganados [pela fonte], que teria afirmado ter dado conhecimento às autoridades de uma série de provas, que afinal nunca juntara".
Há duas coisas a dizer, para já:
- em assuntos que envolvam gravemente a honra de alguém não basta uma denúncia (ainda que identificada) de alguém, é preciso que os jornalistas confirmem alguma das provas;
- depois do jornal ter percebido que se enganara, deveria ter feito - com o mesmo destaque da notícia original - um desmentido/explicação;

fevereiro 10, 2005

Cavaco, o Público e eu... (mais)

O que dizer da "Nota de Direcção" na primeira página do Público de hoje?
- talvez que tem 24 horas de atraso;
- que era óbvio, desde o primeiro momento, que "permitia um desmentido nos termos do de ontem" (ou jogaram na roleta? "pode ser que ele não desminta...");
- que se a primeira notícia "resultou do cruzamento de várias fontes", por que é que referiram apenas uma?
- que, desde o primeiro momento, faltaram dados de enquadramento (local onde disse, quando é que defendeu isso mesmo) que servem para suportar a falta de credibilidade inerente a uma fonte anónima;
- que o problema não foi nem é a palavra "aposta". Acho que se tivessem escolhido "prevê", como referem, Cavaco teria desmentido na mesma;
- que - e é a nota mais sensata da posição da Direcção Editorial - "se devem respeitar os silêncios dos políticos: as convicções jornalísticas sobre as suas intenções ou desejos, mesmo as melhor fundamentadas, devem ser apenas objecto de textos de análise ou de comentário". Ou seja, a notícia original até pode ser verdadeira, mas como afirmá-la perante um desmentido formal, quando, do outro lado, há apenas fonte(s) anónima(s)?
Se tivermos, todos, aprendido alguma coisa com isto já valeu a pena. Mas o Público sai mal, disso não tenho dúvidas!

janeiro 04, 2005

Os desafios do DN

É hercúlea a missão de Miguel Coutinho (e de toda a redacção, obviamente) para recuperar o Diário de Notícias para um patamar que perdeu há vários anos: aliar uma qualidade jornalística a um volume de vendas com um mínimo de massa crítica (40 mil pelo menos....).
Um dos desafios principais passa por aumentar a imagem exterior de credibilidade do jornal.
Ontem, terá havido um passo atrás!
O jornal divulgou, na discreta página 7 do seu suplemento de economia, que «o PS pondera aumento do IVA após eleições». Assinada por dois experientes jornalistas da editoria económica, a notícia cita apenas uma fonte anónima socialista (e não tem qualquer chamada à primeira página do jornal).
Os desmentidos (pelo portavoz socialista para a economia) começaram de manhã, nas rádios, seguiram-se as televisões, José Sócrates também desmentiu e hoje toda a concorrência desmente o DN, incluindo o DN!
Algumas notas:
- O jornal nem tirou verdadeiramente partido da sua própria notícia de ontem;
- O jornal não acreditou na sua própria notícia?
- O balanço final é claramente negativo: múltiplos desmentidos associados ao DN;
- O jornal não dá, na edição de hoje, uma linha sobre o assunto! O que é que os responsáveis do DN acham que os seus leitores - que ontem acreditaram naquilo que leram - acham, hoje, do que já sabem?


novembro 26, 2004

Coisas que fascinam

Tenho o jornal Público na melhor consideração possível (um dia em que não o leia não é um dia completo!). E talvez seja isso que me leve a exigir mais do Público do que exijo aos outros.
Hoje há mais um exemplo de mau jornalismo, que merece ser referido. E mais uma vez na editoria política (parece uma fatalidade o caminho que toma o jornalismo político em Portugal...).
Na primeira página: "Remodelação de Santana causa mal-estar no Executivo". E um pós-título: "Há quem queira a saída de Rui Gomes da Silva".
A formulação já é anti-jornalística, pela falta de rigor ("há quem queira..."), mas no texto da página 11 a situação piora: o assunto em concreto é referido de uma forma mais genérica e por uma fonte anónima: "As pessoas que eram dadas como certas no Governo de Santana, como Chaves e Gomes da Silva, foram as que criaram mais rápido problemas ao primeiro-ministro, sublinhou ao PÚBLICO um social-democrata, considerando que, sendo assim, deveriam ter saído do Governo".
Há quem queira?

novembro 24, 2004

A diferença entre o "on" e o "off"

"O candidato social democrata à Câmara de Matosinhos será Arlindo Cunha, caso Pedro da Vinha Costa saía vitorioso das eleições para a concelhia. (...). O ex-ministro já aceitou a tarefa e estará disposto a ir imediatamente para o terreno...".
in Jornal de Notícias de domingo

"De facto, fui abordado por ele [Vinha da Costa] para assumir uma eventual candidatura à Câmara", disse Arlindo Cunha. (...) adiantou, no entanto, que só se pronunciará sobre o assunto depois das eleições para a Concelhia do PSD/Matosinhos "e quando assim o entender". (...) E nada mais quis dizer Arlindo Cunha, prometendo remeter-se ao silêncio nos próximos tempos."
Arlindo Cunha in O Comércio do Porto de hoje

(ou seja, é provavelmente mais ou menos a mesma coisa, mas dito em "off" é mais ousado e afirmativo; dito em "on" é cauteloso e prudente...)

novembro 08, 2004

A Visão

O texto principal da última Visão é sobre a história das duas mulheres de Arraiolos que – diz a Visão – “alugavam aviões para ir buscar cocaína à Venezuela”. São oito páginas cheias de declarações anónimas (apenas o presidente da Câmara está identificado). Algumas delas, no mínimo, duvidosas – exactamente por serem anónimas: “dizia-se que levava dinheiro às pessoas e depois não fazia nada” ou “devia ser muito boa a engendrar esquemas”.
Há também um tom condenatório no texto (onde está a presunção de inocência numa abertura destas: “A mais arrojada e descarada operação de narcotráfico em Portugal foi protagonizada por três Marias de Arraiolos”?).

outubro 13, 2004

A metaformose de A Capital

"Santana não interferiu na saída de Dias Ferreira"
Como é que se pode afirmar uma coisa destas, com tanta certeza, citando apenas "uma fonte fidedigna e ligada ao processo" (anónima, ainda por cima)?
Não faria mais sentido dizer que uma fonte da RTP garante que "Santana não interferiu na saída de Dias Ferreira"?
É que temos, de um lado, alguém que dá a cara e assume a acusação; e do outro um anónimo que garante o contrário! Acho que parece desequilibrado, jornalisticamente. Não?

setembro 30, 2004

Uma opinião anónima é cobardia

Lê-se:
"Essa equipa era constituída por Abílio Morgado, PSD, e Mariana Cascais, escolhida pelo CDS e, quando ainda estavam no poder, foram noticiadas as más relações entre os três. Uma vez que o ex-ministro diz que não podia fazer nada pois a destituição de Abílio Morgado não dependia de si, o que um dirigente do CDS ontem perguntava era o seguinte: se Justino "secou" Mariana Cascais de competências, retirando-lhe tutelas, por que é que não faz o mesmo com Abílio Morgado?"
E isto?
"O PÚBLICO só reproduz opiniões que forem atribuíveis a fontes claramente identificadas".

setembro 22, 2004

A lógica (perversa) das fontes

Jorge Sampaio iniciou ontem uma "presidência aberta" sobre saúde. Na comunicação social de ontem (a matutina: rádios e jornais) havia diversos trabalhos sobre o que espera/pensa o Presidente desta iniciativa. Todos a citar - directa ou indirectamente - a Presidência. Mas todos sem som ou citações.
Ou seja, a Presidência (o Presidente?) falou antecipadamente, mas apenas num registo "off". Porquê?
O mesmo aconteceu quando os jornalistas contactaram o Ministério da Saúde, para saber o que pensa o ministro da iniciativa. As peças que se ouviram também remetiam para (o gabinete de) Luís Filipe Pereira, mas tudo anónimo. Mais uma vez porquê?
Por que é que Jorge Sampaio e Luís Filipe Pereira não falaram claramente sobre um assunto que - embora politicamente polémico - não tem qualquer necessidade de ser escondido. No caso da Presidência da República é ainda mais censurável (porque devia/podia dar o exemplo e porque se trata de uma função acima).

setembro 02, 2004

As Fontes e a Responsabilidade Editorial

Actualização: claro que o tema remetia imediatamente para o caso das cassetes roubadas, mas o programa foi gravado a 9 de Julho, muito antes do caso explodir. O próximo "Clube de Jornalistas", já está prometido, será sobre esse assunto, mas ficou algum sentimento de orfandade - atenuado pelas várias indicações de que tinha sido gravado antes (gravar um programa a 9 de Julho para emitir a 2 de Setembro dá nisto...).
Sobre o dito propriamente: os três convidados (João Garcia/Expresso, Luis Marinho/RDP e Rui Moreira/Lusa) consensualizaram várias questões, duas delas importantes (resumidas ao mis sintético)
- é importante que pessoas com as suas responsabilidades pensem que há demasiadas fontes anónimas/confidenciais no jornalismo especializado (sobretudo político); é um primeiro passo para se mudarem as coisas;
- a responsabilidade editorial perde-se quando as fontes passam a controlar a agenda mediática. E isso acontece com os directos à hora dos telejornais;

PS - interessante ver como os jornalistas presentes, mais o pivô, transportam o seu jornalês para os telespectadores: "checar" as informações ou "checar" as fontes é um neologismo típico das redacções. Poderia ser confirmar, validar, conferir?

agosto 13, 2004

Coisas que fascinam

"A regra, na divulgação das opiniões é, pois, a sua atribuição".
Sara Pina in "A deontologia dos jornalistas portugueses", Minerva, Coimbra, 1997
"Não ponha fonte nenhuma senão nunca mais lhe dou uma informação"
Sara Pina em conversa com Octávio Lopes (Correio da Manhã), citado por O Independente de hoje
(sinceramente, o objectivo não é dar uma "bicada" na Sara Pina, muito menos agora e cuja obra citada é bastante interessante; mas, mais uma vez, perceber que quando chega a hora da verdade o jornalista é sempre apertado).

julho 26, 2004

Anónimos...

Manuel Pinto recupera, no seu texto de ontem no JN, a questão do anonimato das fontes. O principal mérito do texto é lembrar a essência do problema, uma espécie de "back to basics" que tanta falta faz (atenção alunos e docentes de jornalismo, estão ali os princípios resumidos em quatro mil caracteres).
Duas ideias:
- A propósito da cobertura da crise política das últimas semanas: "não estou nada seguro que se tenha aprendido alguma coisa com os episódios ocorridos na generalidade dos meios de comunicação social".
- "Quando a fonte se assume, a responsabilidade da matéria noticiada cabe a um autor e tem um rosto. Mas quando ela quer que a informação passe, com a condição de o nome não aparecer, aí as dificuldades surgem e é o jornalista e o órgão de comunicação que assumem a responsabilidade"
.
E não é que isto se relaciona com um texto que ontem aqui coloquei sobre um blogue anónimo, chamado "Provedor Alternativo"?
O António Granado mandou-me uma mensagem em que explica por que é que esta página tem passado despercebida: "o Provedor Alternativo comete um pecado que nenhum jornalista pode perdoar: é anónimo e usa esse anonimato para dar opiniões e criticar o trabalho dos outros". E, sim, é verdade, "fonte anónima não tem opinião".
O António Granado tem razão: não faz sentido exigir - como regra - a identificação das fontes e depois deixar alimentar espaços (ainda por cima voluntários) que são anónimos.

junho 18, 2004

Confidencialidade das fontes

Interessante dica do Ponto Media, a propósito das mudanças impostas pelo director do USA Today e relativas à confidencialidade das fontes.
Traduzo:
"Antes, os repórteres que desejavam usar uma fonte confidencial ou anónima tinham de informar o seu ou a sua editora directa da identidade dessa pessoa. Agora, um dos cinco chefes de redacção ou alguém da direcção tem de autorizar o uso de cada cada fonte sem nome. E o chefe de redacção tem de emitir um julgamento sobre a importãncia dessa fonte para a notícia (...)."
É um dos temas mais estimulantes do exercício jornalístico - por exemplo muito actual na própria TSF (tendo sido um dos temas discutidos na última reunião do Conselho de Redacção, a partir de um caso concreto).
Tudo o que se puder fazer para diminuir a utilização abusiva de fontes anónimas, limitando-as ao estritamente essencial, é muito positivo.

março 24, 2004

Espanha, Az(n)ar e fontes

O que se passou em Espanha, com a tentativa de manipulação dos factos e a derrota nas eleições, merece bem todos os textos que foram publicados; em Portugal e no resto do mundo. E, tenho a convicção, este caso ficará na memória durante várias gerações, porque não faltarão estudos, livros, e até documentários inspirados nos pormenores conhecidos.
(Não foi a primeira nem será a última vez que os políticos manipulam a comunicação social e, por extenso, a opinião pública; só que desta vez soube-se, correu mal...).
Depois de tanta gente ilustre ter escrito, resta pouco para dizer: mas porque o caso, marginalmente, se relaciona com algo sobre o qual tenho tentado sistematizar algumas ideias, aqui fica:
- Como bem conta a provedora dos leitores do El País (no próprio domingo eleitoral), a fonte da notícia que suportava a primeira página da edição especial de sexta era o próprio primeiro-ministro Aznar.
Mas a notícia não cita ninguém. Nem anonimamente!
Na desculpa que apresentou aos leitores, o director do El País justifica-se com a credibilidade do primeiro contacto telefónico feito por Aznar em oito anos. E garante que a informação era inequívoca: "No se trataba de una convicción o una deducción lógica, era una asseveración en términos absolutos. 'Tenemos la seguridad de que ha sido ETA. Lo han intentadi en dos ocasiones, y a la tercera, desgraciadamente, lo han conseguido'."
O director do El País (o melhor jornal da Europa) só não explica por que é que não citou a fonte (nem diz que Aznar lhe pediu confidencialidade)!
É sobre isso este texto, sobre o "vício" que o jornalismo de referência adquiriu de aceitar informações anónimas, mesmo quando elas até são identificadas!

março 09, 2004

Identificação das fontes

Ouve-se: "Um elemento da administração, com o pelouro financeiro, disse que...".
Aí está uma forma muito perigosa de identificar alguém, não identificando!
Se a fonte nos convence que só pode dar a informação sob sigilo e se a dita é realmente importante, devemos garantir a todo o custo esse anonimato!
Dizer que é um elemento da administração com o pelouro financeiro remete para uma determinada pessoa. Se é a própria, estamos a identificá-la, o que é muito grave; se é outra, mais grave ainda!
E se em vez de um administrador com o pelouro financeiro há dois, há alguém que está a ser responsabilizado indevidamente e outro que identificamos, apesar do nosso compromisso.
Se garantimos o sigilo... garantimos mesmo! E não é preciso estarmos preocupados com a credibilização da fonte; essa credibilização surge pela validade da informação!

janeiro 28, 2004

Fontes anónimas e cobertura da actualidade política

Os mais estimulantes textos sobre jornalismo em Portugal são escritos à segunda-feira por Estrela Serrano, no Diário de Notícias.
O desta semana remete para mais do que uma tendência, um vício dos jornalistas que fazem noticiário político - as fontes anónimas.
É mais nos jornais, mas também sucede na rádio.
Uma frase notável, que explica por que é que se chegou a esta banalização:
"Os jornalistas consideram que sem o «off» (informação facultada sob sigilo da fonte) as notícias se tornariam demasiado «oficiais». Do lado das fontes, o uso do anonimato permite-lhes certo tipo de confidências de que de outro modo não fariam".
O problema não é apenas a sistemática utilização da fonte anónima, mas a possibilidade, dada a protagonistas sem coragem, de opinarem sem serem identificados. Factos ainda vá, mas juizos de valor?...