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novembro 04, 2005

Jornalismo fraquinho...

Título: "Caso Jorge Coelho dá jeito ao PS"

Abertura: "Sendo uma não notícia, a busca a casa de Jorge Coelho e a sua divulgação dão muito jeito ao Partido Socialista, que tenta assim mostrar que não é intocável. Amanhã, quando um político do PSD ou do CDS for investigado, o PS poderá sempre lembrar que está em igualdade de circunstâncias. Genial!"

Isto pode ler-se na página 4 do Semanário de hoje. Na verdade trata-se de um artigo de opinião, embora apareça como notícia, não assinada e sem citar uma única fonte.

Não são as vendas que fazem um jornal grande ou pequeno, mas a qualidade do seu jornalismo. E isto é um jornalismo muito fraquinho...

agosto 26, 2005

Exercício: quantos erros nesta notícia?

(No Diário de Notícias de ontem, 25/8, pág. 8)
"soaristas
Outro nome à direita?
A possibilidade de surgir outra candidatura presidencial à direita foi esta semana referida ao DN por diversos colaboradores de Mário Soares, especulando sobre as intenções de Paulo Portas ou Bagão Félix. Essa é uma hipótese que entusiasma as tropas soaristas - pois poderia garantir uma segunda volta, roubando votos a Cavaco -, embora as mesmas fontes admitam que é um cenário remoto."

julho 11, 2005

Isto está bem?

Do Público de ontem (pág. 13):
"TC viabiliza aumento escandaloso dos partidos na Madeira"
Escandaloso?
Os leitores mais fiéis sabem que, na maior parte dos casos, defendo uma ideia conservadora do jornalismo, relativamente a algumas inovações/adulterações que se verificam, sobretudo, nos últimos anos. É mais um caso.
Também acho que os aumentos em causa são realmente escandalosos, mas o jornal não o deve dizer (porque é uma forma de enviesar a leitura, é uma forma de ser parcial*) - a menos que tenha alguém para citar. E não é o caso.
Se alguém tiver o Livro de Estilo à mão e puder ajudar a enquadrar a situação (uma vez que só amanhã o posso fazer) agradeço.

* Se no jornal acham que o assunto é escandaloso, então podem tratar o assunto jornalisticamente, desenvolvê-lo, procurar reacções, explicações, ouvir as partes, etc. Será o seu contributo.

fevereiro 09, 2005

Sobre a campanha (e a opinião)

Vale a pena deitar atenção ao que a Renascença está a fazer com a campanha eleitoral. Não tenho propriamente a certeza se é a primeira vez, mas que é diferente, disso não tenho dúvidas: os repórteres que acompanham os principais partidos enviam os sons mais relevantes e depois fazem crónicas de campanha. Artigos de opinião, portanto.
Quem lê este espaço há mais tempo sabe que isso não é uma opção que, pessoalmente, eu defenda, mas vale a pena ouvir e reflectir sobre a coisa.
Assim à primeira vista, parece-me uma solução perigosa, porque os repórteres (como se tem ouvido) são tentados a entrar numa lógica de cinismo (sarcasmo, ironia ou apenas crítica, mas sempre com uma tónica negativa), que não é saudável. Por outro lado, dizer bem pode dar ideia de colagem (excessiva?).
Mas também não defendo o que se tem ouvido em muitas das peças da TSF e da Antena 1: essas peças são apenas lançamentos dos sons! Ou seja, não há um trabalho jornalístico completo, o repórter "demite-se" do seu papel de intérprete da realidade, limitando-se - como dizemos na nossa gíria - a "embrulhar".

A propósito, fui buscar isto ao Livro de estilo do Público:
"O jornalista X está encarregado de acompanhar todo o "dossier" Maastricht — especialmente "quente" com a questão pró e contra o referendo. O mesmo jornalista tem uma posição claramente militante sobre o referendo. Por isso, subscreve um abaixo-assinado público — e muito publicitado —, entre vários nomes activos e empenhados por uma das posições. Que, como é bom lembrar, dividem o "país esclarecido".
Como vai ser visto, doravante, o trabalho do jornalista X? Ficou ou não alterado (logo, desequilibrado) o seu relacionamento com as posições em confronto, em termos de acesso a informações e iniciativas? Como passa a ser visto o seu trabalho?
"

PS - se calhar não tem nada a ver, mas como se relaciona esta citação com os textos que, neste caso, os jornalistas do Público escrevem nos seus próprios blogues?

ACTUALIZAÇÃO a 11/2/05: Uma precisão: as tais crónicas, de acordo com uma informação que me chegou directamente da RR, passam apenas às 9 da manhã (e devidamente identificadas como tal); no resto do dia, edições e mesmo jornais de campanha, prevalece a reportagem.

ACTUALIZAÇÃO a 15/2/05:
"Que os blogues tenham explodido não admira. Que tenham explodido entre os jornalistas também se percebe. Que a lógica displicente de produção de um blogue (que na origem é um diário pessoal) tenha penetrado no próprio jornalismo e no relato dos factos é mais grave. Mais do que relatores, os jornalistas tornaram-se comentadores, fontes de apartes, piscadelas de olho e cotoveladas cúmplices no leitor. Como esta campanha eleitoral mostrou à saciedade (mas já vem de longe), os jornalistas têm uma dificuldade cada vez maior em guardar para si próprios os seus sentimentos e conjecturas, as suas opiniões ou os boatos de que têm conhecimento e acham que eles merecem a glória do blogue, quando não da radiodifusão ou da impressão. Seria bom que a sociedade se lembrasse de que tem o direito não só de criticar mas de exigir aos jornalistas rigor e responsabilidade".
José Vítor Malheiros no Público de hoje

fevereiro 07, 2005

Apetece-me...

"Os factos são sagrados, os comentários livres"
Ou seja, uma coisa é o relato dos factos, outra a valorização dos factos (o comentário...)

fevereiro 01, 2005

Os perigos da opinião...

"O [FC]Porto, quando mudou de treinador nunca foi campeão. Também dificilmente o será este ano".
A frase foi dita esta manhã, por volta das 9.15, pelo jornalista da RDP que faz a rubrica desportiva na Antena 3. Ou seja, trata-se de um espaço informativo, feito por um jornalista.
Como é possível dizer uma coisa destas?
Já não analiso a questão do "ruído" (houve, certamente, quem tivesse deixado de ouvir a seguir a uma frase destas), mas pelo lado da legitimidade! Como é que se pode admitir que um jornalista diga uma coisa destas? Legitimado pelo facto de ser na Antena 3 (mais leve, mais descontraído)? Nem pensar...

Relacionado com isto:
Relatador [durante o FC Porto, 1 - Braga, 3] - "Isto é uma vergonha!"
Comentador - "Eu não diria tanto"
(está tudo ao contrário ou é o desporto que é mesmo um caso à parte?)

janeiro 25, 2005

O princípio (do fim...)

Sábado - Não acha que faz demasiados comentários às notícias?
Manuela Moura Guedes - A ideia de que o jornalista tem de ser cinzento e neutro está completamente ultrapassado. Tenho de partir do princípio de que as pessoas não são estúpidas e sabem distinguir entre a notícia e o comentário".
Sábado nº 38, 21 de Janeiro.

(Eu acho o contrário. E se, para ser neutral, tiverem de me chamar cinzento, força! Já agora, eu parto do princípio que as pessoas não sabem distinguir notícia e comentário. E nem por isso acho que são estúpidas...)

janeiro 03, 2005

Respeito pelos ouvintes (mais...)

Um trabalho estimulante (penso...) para os candidatos a mestres ou doutorados: fazer uma análise quantitativa e qualitativa das "reclamações" enviadas pelos leitores (para Público, JN e DN) ao longo dos últimos anos - até existem diversos livros publicados com as crónicas dos provedores.
As conclusões mostrariam - sem dúvida - quais as principais preocupações de quem lê esses jornais. E, entre elas, estaria (penso...) a necessidade de separar opinião e notícias (os leitores têm dificuldade em entender os códigos significantes, por vezes visuais, dos jornais, se é que existem...).
No caso, tratado ontem por Joaquim Furtado, até existem mas o leitor não os percebeu («E havendo apenas opinião na página, o que o leitor reclama é que ela esteja graficamente assinalada, como sendo um espaço de opinião. [O director adjunto] refere que a "antiguidade" da secção e distintivos como o itálico e a foto do jornalista (que, como vimos, pode não sê-lo), asseguram a identidade da "Semana Local»)!
Mais um exemplo: na sempre estimulante "Grande Reportagem", um dos seus mais estimulantes jornalistas, Joel Neto, publicou um perfil alternativo de Pinto da Costa, por ocasião da autobiografia. É um texto em que prevalecem os factos, mas em que se percebe alguma opinião do jornalista. Há várias semanas que leitores têm vindo, nas cartas ao director, a protestar contra essa mistura!

novembro 22, 2004

Do Público

Há coisas que, por vezes (mais vezes do que seria desejável...), nos passam despercebidas. Ainda bem que há quem esteja atento...
«O JN e o DN traziam (na quinta-feira) fotos quase idênticas da Assembleia da República: aperto de mão solidário, na bancada do Governo, entre o primeiro-ministro e o ministro das Finanças, enquanto Paulo Portas apadrinha, enlevado, a cena. A diferença cifra-se em alguns segundos de diferença entre os instantâneos: o do diário de Lisboa apanha o sorriso de Santana Lopes em todo o seu esplendor, o do Porto capta o capta em expressão menos efusiva (em dissolução ou em formação?). A imagem do DN traduz a transitória euforia, a do JN reflecte a monotonia do trivial.
Não seria legítimo transpor esta análise para o território da intencionalidade, ou seja sustentar que num dos casos se pretenderia empolar os sucessos governamentais e no outro diminuí-los. O mesmo não se pode dizer da comparação dos títulos. O DN inscrevia na foto, sob fundo branco e em letras garrafais, a palavra "Optimistas". O JN estabelecia maior distância em face do Governo: " 'Acabaram os sacrifícios', dizem eles". Ora, este "dizem eles" é temível...
Por seu lado, o Público traz, igualmente, na primeira, a bancada do Governo, mas com o responsável pelo Executivo e dois membros do Governo de semblante cerrado e mão a apoiar o rosto. São os ministros Gomes da Silva e Morais Sarmento, com o discreto título: "Alta-Autoridade confirma que o Governo tentou pressionar a TVI a afastar Marcelo". O tema é outro. Mas a tendência dos três diários é diferente. A análise das imagens é um indicador precioso, mesmo no jornalismo impropriamente dito escrito
».
Mário Mesquita in "Cenas, Incidentes e Profecias"
(sublinhados meus)

novembro 18, 2004

O esbatimento das fronteiras entre os vários géneros jornalísticos

é considerado, por alguns dos correspondentes internacionais em Portugal, uma das falhas principais dos jornalismo português.
Eu também acho - nomeadamente a mistura de opiniões em textos que deveriam ser factuais, no fraco recurso à análise (e respectiva identificação), e na ausência de identificação dos diferentes géneros (o uso de cabeçalhos que digam "opinião", "crónica", etc).

novembro 01, 2004

Factos e opinião; notícias e análise (ou comentário)

É um dos temas mais recorrentes nesta página.
Por isso foi com grande satisfação que li o texto de Joaquim Furtado na página do provedor de ontem:
"Ao apresentar a peça como o faz, o jornal convida os leitores a olhá-la como uma notícia. Mas não deveria este trabalho ter surgido como análise e dessa forma assinalado? Não como artigo de opinião, mas como texto de análise. De acordo, aliás, com o recomendado pelas normas do jornal (1). Não se pondo nos mesmos termos, a credibilidade da peça seria apreciada segundo outros padrões. Sem equívocos."
Já agora, o texto surge na sequência de uma observação feita por Rogério Santos no seu Indústrias Culturais. Mas RS não se ficou por aí. Escreveu ao provedor e obteve resposta.

outubro 25, 2004

Coisas que fascinam

Ouve-se:
"... Fernando Santos, um treinador fadado para ter sucesso nas equipas gregas".
Pode ser distracção, pode ser ignorância (não acredito, vindo de jornalistas especializados...) ou pode ser propositado (fascinante...). Mas não é preciso ter uma memória muito boa para saber que Fernando Santos só teve sucesso no AEK; no Panathihaikos foi despedido poucas semanas depois.
Sucesso para quem treinou duas equipas e falhou numa?

outubro 20, 2004

Mistura de factos e opinião

Não é a primeira que aqui se escreve sobre os perigos de misturar factos com opinião.
Mas o texto do Público de hoje justifica a insistência:
"Pode ser coincidência, mas a tendência parece notar-se desde o chamado caso "Marcelo". Manuela Moura Guedes faz verdadeiros editoriais quando apresenta as peças ou faz os remates no final das reportagens. Não só pelo que diz, mas também pela sua expressão facial. E às vezes pelo seu riso. O tom varia entre o género "vamos lá pôr a nu as trapalhadas dos ministros", a resignação "enfim, caros telespectadores, é o governo que temos..." e o tipo "ainda bem que a TVI existe para desmascarar tudo isto."

outubro 15, 2004

Coisas que fascinam

1) A jornalista do Record Céu Freitas escreveu,antes do jogo de quarta, "não é necessário, nem sequer saudável, que o capitão [da selecção] seja «capacho» do seleccionador, uma bajulador a dizer ámen a tudo o que vem de cima ou, pior ainda, que seja mais papista do que o papa"*.
2) Scolari perdeu a cabeça (revelou-se?) no final do jogo quando viu a referida jornalista. E insultou-a (e a outros jornalistas que estavam por perto);
3) Ontem o Record era o único jornal desportivo que nada referia sobre essa caso (episódio que teve bastante destaque em vários órgãos de comunicação social);
4) Hoje a Direcção do jornal reage finalmente com um texto no mínimo curioso: fala numa "apimentada discussão" (embora "lamentando o palavreado utilizado" pelo seleccionador), em questões pessoais e, apesar de referir que mantém a confiança na jornalista, determina que "ela e Scolari, já que se conhecem bem, que resolvam o assunto".
O meu comentário? Há coisas que fascinam...

* Acontece cada vez mais no jornalismo português, a mistura entre factos e opiniões. Não muda nada para o caso em concreto, mas este é claramente um artigo de opinião, apresentado como uma notícia

setembro 22, 2004

A metaformose de A Capital

Dizer isto (na primeira página) é uma irresponsabilidade muito grande!
"O ex-ministro da Educação, David Justino, abriu um concurso público para empresas informáticas com o objectivo de modernizar as tabelas de colocação de professores. Surpreendentemente, esse concurso foi ganho pela Compta, organização que tem como presidente da assembleia geral o ex-militante do PSD Rui Machete e como ex-administrador executivo Couto dos Santos, antigo ministro da Educação de Cavaco Silva. Um e o outro não estiveram entre os que apoiaram Santana Lopes. Talvez por isso, a ministra exige que a empresa seja responsabilizada. Esta aparente promiscuidade é mais um episódio negro na política feita em Portugal."
(sublinhado meu)

agosto 13, 2004

Jornalismo de opinião!?

Eis uma realidade que tenho dificuldade em compreender:
(pergunta) "Fahrenheit 9/11 tem sido apontado como uma peça de propaganda...
(resposta de Michael Moore) "Se o New York Times apoia um candidato a presidente dos EUA, deixa de ser um jornal por causa disso? É claro que o filme é um documentário, um trabalho jornalístico, mas jornalismo de opinião. É a minha opinião baseada em factos. Pode estar certa ou errada, podemos discutir isso, debater, mas o que eu apresento no filme são factos, e são irrefutáveis".
in Notícias Magazine, 1/8/2004

agosto 06, 2004

Nos 30 anos do Watergate...

«Quero mais factos!», disse o editor-executivo do WP a Woodward e Bernstein no filme "Os homens do presidente" (Alan J. Pakula, 1976).

julho 27, 2004

Opinião/juízos de valor

No JN de ontem:
"Pode o jornalista fazer juízos de valor?
José Rodrigues dos Santos - Se calhar, até pode"

Não pode nem deve!
A menos que tenha um estatuto de comentador. E se tem não deve fazer notícias.

julho 16, 2004

Opinião/factos/imparcialidade

De acordo com vários relatos (aqui), o correspondente da SIC nos Estados Unidos, ao responder a uma pergunta, terá dito, num destes dias: "se me perguntas a minha opinião, preciso de dizer primeiro que vou votar John Kerry".
LCRibas sentiu que, para dar a sua opinião, devia mostrar o jogo aos telespectadores. Foi honesto.
E isso não deve ser contestado.
Contesto, isso sim, a mistura entre comentário/opinião e factos/repórter.
LCRibas não tem, como a esmagadora maioria dos jornalistas, de emitir juizos de valor sobre os factos que noticia. Tem, obviamente, as suas opiniões, mas não precisa/não deve partilhá-las. Para tratar dos factos com rigor e equidade os ouvintes não precisam delas para nada.
Os telespectadores da SIC que o ouviram olharão para ele, a partir de agora, da mesma forma? Não irão misturar as coisas? Não irão dizer "é normal que ele não goste do Bush, ele é do Kerry!".
É muito perigosa esta mistura.
A um repórter não deve ser pedido que emita opinião sobre matérias que trata quotidianamente - e ele próprio deve recusá-lo. Pode e deve interpretar, explicar, contextualizar (naquilo a que o Público chama de "análise"), mas nunca opinar.
Já agora: qual a diferença entre este "eu vou votar John Kerry" e os cachecóis ao pescoço de alguns jornalistas portugueses durante o Euro 2004?

junho 25, 2004

Factos e opinião

Não queria terminar a semana sem deixar uma nota sobre um texto de José Carlos Abrantes, provedor dos leitores do DN, na passada segunda-feira.
Esse texto já foi comentado em diversas instâncias, bloguísticas ou não (por exemplo, EPC de quarta-feira) e não tenho mais a acrescentar.
Penso, contudo, que há uma perspectiva que não foi desenvolvida e que entronca numa das principais preocupações que aqui têm sido analisadas: a mistura de factos e opiniões.
A história conta-se rapidamente: Diana Andringa, candidata do BE ao Parlamento Europeu, não gostou do texto do DN sobre os resultados eleitorais do Bloco. E escreveu ao Provedor. A jornalista visada, entre outras coisas, respondeu que "[durante a cobertura eleitoral] os próprios jornalistas mudam o seu registo e usam, no caso concreto da campanha eleitoral, uma linguagem mais solta, mais próxima dos leitores, menos rígida (...). Durante o ano, na cobertura do trabalho parlamentar, o meu registo é outro".
Como se pode ler pela carta que escreve - e que não está on line - tudo se resume a duas situações:
- alguma falta de senso nas palavras que escolhe nessa reportagem ("sair da toca" é apenas um exemplo);
- demasiada opinião, à conta dessa mudança de registo; por que é que uma campanha eleitoral permite mais liberdade de escrita, com prejuízos evidentes a nível do rigor? Pelo menos, que fique bem clara a separação e a diferença entre factos e opinião.
O resultado está à vista...

março 18, 2004

Factos e opinião - a separação

No Fórum TSF de hoje sucedeu algo que demonstra como é sensata uma velha máxima cada vez mais em desuso: separar factos e opinião.
Discutia-se se a final da Taça de Portugal em futebol deve ser num dos novos estádios ou no Jamor. E a TSF convidou para opinar dois relatadores, Jorge Perestrelo e Fernando Correia.
Ambos opinaram, o primeiro de forma clara, o segundo mais diplomático.
E o que é que aconteceu? Os ouvintes, que os conhecem dos relatos, passaram a discutir as opiniões destes dois profissionais da TSF (sobretudo as de Perestrelo, bem mais polémicas).
A credibilidade de um jornalista é o seu maior trunfo e essa credibilidade resulta de uma soma de factores, sendo a independência um deles.
Quem tem como missão relatar factos (relatador...) não deve opinar. Para não desviar as atenções do mais importante, para não confundir funções e missões e para que as suas próprias futuras intervenções não fiquem toldadas por isso.
Deixem os comentários para os comentadores!
PS - num fórum sobre política os jornalistas da redacção não opinam, da mesma forma que num fórum económico é António Peres Metelo quem o faz; o desporto é mesmo um mundo à parte...

novembro 21, 2003

Sobre a mistura de factos e opinião, pelos repórteres em concreto e os jornalistas em geral - tão condenada como frequente - uma citação de um livro obrigatório para todos os candidatos a jornalista:
"O apresentador de um programa precisa de certas qualidades inatas - como para quase tudo na vida. Entre elas não há dúvida que quem tiver um timbre e um tom de voz apropriados tem muito a ganhar no assunto. Mas é assombrosa a facilidade com que determinadas vozes de ouro se sentem, sem outra bagagem intelectual que o seu empostado trinado, absolutamente legitimados para opinar sobre o divino e o humano sem que ninguém lhes ponha limite."
Juan Luís Cebrian, "Cartas a um jovem jornalista", Bizâncio, Lisboa, 1998 (e agora esqueci-me da página...)

outubro 23, 2003

Ontem quase todos os jornais entenderam publicar editoriais sobre o problema das violações do segredo de justiça, a propósito da intervenção do Presidente da República. O Público foi mais longe e pôs o editorial na primeira página, assinado não por um dos directores mas pela Direcção do jornal.
Por que é as rádios não fazem/fizeram o mesmo?
À excepção da Renascença, com outro nome, as rádios portuguesas não têm tradição de publicar editoriais. É algo inexplicável, uma vez que se trata de um formato perfeitamente aceitável.
Medo de comprometer a estação? Receio de hipervalorizar uma opinião? Na televisão é o mesmo.
Desde que a separação entre factos e opinião esteja bem clara, que a identificação do espaço de opinião esteja marcada, mesmo que não haja um carácter regular, o editorial não só é possível como, até, desejável.