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março 17, 2006

Osório versus Vaz Marques

Tenho ouvido, nestes últimos dias, as entrevistas de Luís Osório no novo Rádio Clube, das 19 às 20h.
Osório segue, parece-me, o registo de Carlos Vaz Marques, à mesma hora, na TSF - intimista, positivo, como se tivesse um sorriso nos lábios.
Mas tem algumas desvantagens - Vaz Marques tem de retalhar as suas entrevistas em três blocos por causa da publicidade e isso dá-lhe um ritmo extra, fruto das (boas) soluções plásticas encontradas. Osório tem uma hora, o que tanto pode ser demasiado (se o entrevistado não for bom) como pouco; Osório faz em directo (ou grava, como se fosse em directo), Vaz Marques edita (e deita fora o que não lhe interessa).
Osório parece ter uma vantagem: enquanto Vaz Marques é mais restritivo nas escolhas dos seus convidados (muito ligados à cultura ou - genericamente - à criação intelectual), Osório parece ser mais abrangente - a política ou a economia, por exemplo.
Finalmente: Osório não se pode esquecer que está a fazer uma entrevista na rádio - ontem estive 10 minutos para descobrir que era Morais Sarmento o convidado, porque o seu nome não apareceu durante esse período (há que pontuar mais vezes, porque o ouvinte é volátil!).

novembro 07, 2005

CVM x 500

Está na hora de mais um Pessoal e Transmissível, o nº 500.
O número, tão redondo, merece só por si destaque (pela persistência e pela aposta). Outra nota para o notável trabalho do Diário de Notícias de hoje, que não está on-line: em duas páginas, cinco entrevistados de Carlos Vaz Marques fazem perguntas ao jornalista da TSF - que responde!
Mas não quero deixar de fazer algumas notas sobre o programa:
- CVM afinou um estilo, que talvez se possa caracterizar desta forma: muito bem informado sobre os entrevistados, faz as perguntas com um sorriso, assumindo uma posição de quase-confidente e amigo (ou pelo menos próximo);
- As entrevistas não se destinam a produzir notícia, mas muitas vezes são notícia pela qualidade/impacto dos entrevistados;
- CVM faz tudo sozinho (nomeadamente as entradas, que não resultam do acaso, ou as saídas casando com a publicidade - tudo aquilo tem uma lógica evidente);
- CVM é aquele que revela os convidados, que os convida a abrirem-se, com intervenções muito curtas, na linha de Ana Sousa Dias; ambos representam uma forma de fazer entrevista - curiosa mas não tanto combativa;

Longa vida ao camarada CVM!

junho 09, 2005

Todas as perguntas são legítimas? Sim!

Depois de um assessor de imprensa do Benfica, no tempo de Vale e Azevedo, ter batido num jornalista da RTP, ontem foi o presidente do clube campeão que protagonizou uma situação lamentável, contra um outro jornalista da RTP.
Pouco depois do repórter ter perguntado, na apresentação do novo treinador, se Koeman pensava numa equipa com muitos reforços, porque o "Benfica tem alguns problemas financeiros", o presidente reagiu, indignado, dizendo que o jornalista deveria "ter pedido desculpa ao Benfica" (24 Horas), e acrescentando que a pergunta não era legítima "a um treinador que acaba de chegar" (A Bola). Mais tarde, voltou a invectivar o mesmo jornalista, dizendo que «a pergunta "era encomendada" e chamou-lhe "ordinário"» (Record). "No exterior, um indivíduo ligado ao clube ainda ameaçou fisicamente o jornalista" (Público). O 24 Horas diz que se trata do "motorista do presidente".
Todas as perguntas são legítimas? Sem dúvida, desde que suportadas por critérios editoriais/jornalísticos - como era o caso.

PS - O Sindicato dos Jornalistas deveria dizer alguma coisa sobre o caso, independentemente daquilo que o próprio jornalista ou a RTP entendem fazer. Porque se comportamentos como o de LFVieira vingam teremos cada vez mais perguntas vazias ou idiotas!

janeiro 12, 2005

A pergunta; qual pergunta?

Avelino Ferreira Torres dá uma entrevista a O Comércio do Porto de hoje.
Que termina assim:
- Quer deixar uma última palavra?
Avelino, obviamente, quis...

dezembro 27, 2004

Bom senso e sensibilidade!

(e a noção precisa do que é importante perguntar...)
Ouve-se e vê-se durante um dos telejornais de ontem (o pivô entrevista por telefone um jornalista português que está na Tailândia):
- Boa noite, são nesta altura 4 da manhã aí na Tailândia. Posso dizer que nesta altura, por assim dizer, o ambiente está tranquilo?
(obrigado H.)

outubro 24, 2004

Fazer a diferença - na entrevista

No Público, hoje, entrevista a Carlos Cruz.
Que começa assim:
"PÚBLICO - Quais são as regras desta entrevista?
CARLOS CRUZ - Falar só sobre o livro. Não pode haver perguntas sobre o processo em si - se há injustiças, se não há, se o juiz é maluco, se não é. P - Se alguma aparecer...
R - ...eu passo
."
Estas pequenas coisas fazem diferença no jornalismo!
Os leitores agradecem...

setembro 09, 2004

A despropósito?

Do livro de Jacques Descheper, "Saber comunicar com os jornalistas" (edições Cetop, Mem Martins, 1992, pág 128):
"(O momento da entrevista) Evitar deixar-se seduzir pelo jornalista - alguns jornalistas através de sorrisos e gentilezas conseguem levar os seus entrevistados a fazerem confidências".
Ou até que os entrevistados deixem gravar ou tomar notas, acrescento eu!

agosto 12, 2004

Coisas que fascinam

Estavam, pelo menos, 15 jornalistas de outros tantos OCS na conferência de imprensa de apresentação do novo treinador do FC Porto (ontem). Mas nenhum perguntou a Pinto da Costa por Del Neri. Nem - por aquilo que soube - tentou (e isso é uma obrigação jornalística).
É obviamente uma situação que merece ser criticada.
Mas também é razão para se perguntar porquê? Incompetência ou subserviência são duas palavras que - podendo ser verdadeiras num ou noutro caso - não me satisfazem.
Mas não estive lá e espero por mais informação para voltar ao assunto.

junho 29, 2004

Sérgio Krithinas

é o nome do jornalista do 24 horas que hoje perguntou a Luís Figo aquilo que muitos portugueses gostariam de ter perguntado - a sua versão dos factos quando foi para o balneário (*).
O curioso é que, na conferência de imprensa da selecção dada esta manhã, essa foi apenas a sexta pergunta feita a Figo.
Seja porque os jornalistas em causa acharam que o assunto não era importante seja por estarem influenciados pelos pedidos patrióticos de Scolari, aqui ficam as cinco perguntas anteriores (por esta ordem):
1) Consegue identificar um sector mais fraco na Holanda, a defesa?
2) Sente mais cansaço nas pernas nesta altura (fim de uma época desgastante)?
3) Portugal está à porta de fazer história; o que é que diria aos portugueses?
4) Poder juntar mais um título para si tem algum significado especial?
5) Nota-se que a selecção tem vindo a subir; amanhã vai atingir o ponto alto?

Logicamente...

(*) A pergunta não foi exactamente assim ("falou-se muito quando não foi festejar com os seus colegas e isso motivou uma intervenção do seleccionador. Como é encarou essas palavras do seleccionador?"), mas abordou o assunto. Obrigado Sérgio!

março 26, 2004

Agressividade no jornalismo

Já repararam que, em muitas situações, na televisão e nas fotografias, se vê os jornalistas sorridentes, enquanto entrevistam (ou tentam entrevistar) alguém?
Se o entrevistado disse alguma coisa com piada um sorriso é natural, mas - infelizmente - sabe-se que há poucos protagonistas com humor em Portugal.
O que faz com que - deduzo - a alegria contagiante tenha outra origem! A minha explicação é simples: assiste-se cada vez mais a uma suavização do jornalismo, a um jornalismo-companheiro...
Defendo que o jornalismo deve ser combativo por natureza (ou seja, sempre) e mesmo agressivo (dependendo dos temas e das circunstâncias). O que não é o mesmo que rude, mal criado ou truculento - e há na televisão portuguesa, nomeadamente, quem cultive este estilo.
Um jornalismo combativo e agressivo não se compadece com sorrisos mais ou menos cúmplices entre repórteres e protagonistas (nem que sejam sorrisos sarcásticos - igualmente despropositados).
Uma das principais razões que explicam esta suavização do jornalismo português, actual, é a juvenilização das redacções. Mas não pensem, jovens camaradas, que os protagonistas gostam mais de vocês só por se rirem. Ou por estarem constantemente a acenar com a cabeça, durante a entrevista...

março 15, 2004

Dar uma entrevista e recusar a divulgação

Uma dica do Jornalismo e Comunicação, a partir de uma deliberação da AACS, remete-nos para um tema muito interessante: quem é o dono de uma entrevista, acabada de conceder, mas ainda não emitida?
O caso - insólito - conta-se assim: o presidente da Câmara de Castanheira de Pera deu uma entrevista à rádio "Pampilhosa -97.8 FM" mas depois não autorizou a sua divulgação!
A rádio perguntou à Alta Autoridade o que devia fazer (há mais de um ano...), e esta acaba de se pronunciar. O texto não é muito claro, mas, depois de muitas ressalvas, acaba por se ler: "não seria aceitável que, sem fundamentação plausível, susceptível de ser apreciada em sede de recurso, que a opção de conceder uma entrevista fosse posteriormente cancelada...".

A minha opinião, em concreto e em abstracto, é muito clara: depois de conceder a entrevista, as declarações em causa deixam de ser propriedade de quem fala e passam para quem entrevista! Isto é igualmente válido para a "vistoria" posterior das entrevistas (a menos que haja algum tipo de compromisso anterior).
O jornalista ou o órgão de comunicação social podem aceitar não difundir a entrevista. Mas é uma decisão sua. E nunca do ministro, do presidente da câmara ou do empresário.

dezembro 02, 2003

O Público de sábado relata uma polémica, dinamizada pela imprensa alemã, sobre os alegados direitos dos entrevistados em reverem as entrevistas, introduzindo alterações antes da publicação.
Essa exigência funciona como uma chantagem: só há entrevista se o protagonista puder ler antes e emendar.
Surpreendido? Não é apenas na Alemanha e, como o texto diz, da política o hábito transitou para a economia.
Aquilo que pode ter começado como uma excepção, rapidamente passou a uma regra, que retira veracidade à entrevista e que manipula o leitor com a chancela credível do jornalismo.
Felizmente na rádio há a entrevista em directo - que não é manipulável desta forma - mas em qualquer órgão ou qualquer meio, esta é uma prática a condenar: afinal, depois de dada a entrevista, o protagonista deixa de ser o "proprietário" dessas declarações!

novembro 12, 2003

Bom senso e bom gosto

Ouve-se: "[no final do jogo Paços de Ferreira - Sporting, em directo] Foi uma boa caçada, Fernando Santos?"
O jornalismo não é apenas uma soma das várias técnicas (de selecção, de redacção, de leitura) com o necessário enquadramento legal. Às características individuais de cada um (sobretudo o dito "killer instinct") juntam-se critérios de bom senso e de bom gosto. Não é por acaso que o Livro de Estilo do Público diz que se baseia num "conjunto de regras técnicas e deontológicas que se inspiram em critérios de bom senso, bom gosto e rigor profissional."
Perguntar, neste caso, se um jogo ou um resultado foram "uma boa caçada", mesmo que isso tenha uma remota ligação ao facto dos vencedores serem "leões", é uma manifestação inequívoca de mau gosto e de falta de sensibilidade (com os derrotados, por exemplo).
A isto acresce o facto de tudo ter acontecido em directo. Mas há pior: a frase (num som mais vasto) foi repetida durante a manhã seguinte, várias vezes!
PS - Bom senso teve o treinador do Sporting, na resposta: "Foi uma vitória importante". Só isso...

novembro 03, 2003

Ainda a propósito da entrevista (de Sampaio)
Do livro de José António Saraiva (pág. 85), algo que se relaciona muito com o que se escreveu no texto do dia 28:
"À medida que a entrevista avançava, [Mário] Soares mostrava-se incomodado com as perguntas. A certa altura não se conteve mais e disse:
- Mas só me fazem estas perguntas! Se me perguntassem isto.... - e iniciou uma longa dissertação sobre as medidas que poria em prática num determinado sector se estivesse no Governo.
E insistia:
- Se me perguntassem aquilo... E descrevia outro conjunto de medidas.
Achei que tinha de o interromper:
- Mas somos nós que estamos a fazer a entrevista - atalhei.
Soares não se impressionou - e com ar cúmplice, respondeu-me:
- Eu sei, Saraiva, mas deixe-me vender o meu peixe..."
Saraiva, José António, "Confissões de um director de jornal", Dom Quixote, Lisboa, 2003
Todos diferentes, todos iguais?

outubro 28, 2003

Não vou ao ponto de dizer que a presidência da República terá exigido previamente as perguntas na entrevista de ontem (embora certamente gostasse...), mas é óbvio que o Presidente sabia que a entrevista não iria abordar apenas as questões da justiça e da Casa Pia em concreto.
Qualquer um perceberia que as opções do governo no Orçamento de Estado, as consecutivas crises na educação e saúde ou o referendo europeu seriam temas obrigatórios. Sampaio também.
Então porquê aquela insistência, junto dos entrevistadores, para que não fossem feitas mais perguntas sobre a Casa Pia?
Sampaio chegou ao ponto de, na primeira resposta, dizer que “esperava que houvesse perguntas sobre outros assuntos” e foi insistindo com a necessidade de não gastar a entrevista só com esse tema.
Esta preocupação (exagerada, ainda por cima) deixa o Presidente mal, porque fica a ideia de intranquilidade.
Mas – e é esse o aspecto que mais interessa aqui – é uma forma de condicionar os entrevistadores, de os pressionar, de evitar as perguntas mais – supõe-se pelo seu comportamento – incómodas.
Felizmente os entrevistadores não se deixaram intimidar e perguntaram tudo o que havia para perguntar. Mas noutras circunstâncias podia ter resultado!
Curioso: quem ler a entrevista no Público não encontra qualquer uma dessas referências (que, ainda por cima, deu origem a um som, destacado, pelo menos, esta manhã na A1)!

PS – mais do que medo das perguntas ou hipotética incomodidade com as respostas, penso que a explicação para este “nervosismo” do Presidente se situa noutro âmbito: a relação autista que vem cultivando, nos últimos anos, relativamente à comunicação social, com sistemático desrespeito pelo trabalho dos jornalistas. Terá sido apenas isso?