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outubro 03, 2005

Coisas que continuam a fascinar

Do Independente de sexta-feira:
"Recebia como adjunta do presidente da Câmara de Proença-a-Nova, mas trabalhava como directora da Estalagem das Amoras. Foi exonerada hoje. Outros funcionários...".

"Foi exonerada hoje?"
Como é que um jornal que sai de manhã e foi feito no dia anterior (pelo menos...) pode dizer que "foi exonerada hoje"?

Da leitura da notícia, ainda se acrescenta que "O presidente da Câmara exonerou hoje Ana..."

É fascinante, sem dúvida. E só lendo até ao fim se percebe que o despacho do autarca tinha a data de sexta-feira.
Mas não seria mais correcto "é exonerada hoje" ou "é exonerada a partir de hoje"?

agosto 25, 2005

Eu gosto do 24 Horas

Não estava de férias na altura mas passou-me (até porque costumo ler pelo menos a primeira página). E só esta semana, via "Inimigo Público" de Verão (!), é que me apercebi: o 24 Horas fez mais uma das suas primeiras páginas históricas no dia 12 de Agosto.
Na véspera o jornal tinha noticiado que o advogado de Carlos Silvino, no processo Casa Pia, tinha sido apanhado com álcool a mais. Durante esse dia aperceberam-se no jornal que se tinham enganado (afinal era o próprio advogado das alegadas vítimas da Casa Pia e não José Maria Martins). No dia 12 de Agosto a manchete era: "O advogado da Casa Pia é que foi apanhado pela GNR". E ante-título (mas com letras bem grandes): "O advogado de Bibi não ia com álcool a mais. O 24 Horas errou, pede desculpas a José Maria Martins e aos leitores".

Não é a primeira vez que o 24 Horas faz uma manchete destas. Lembro-me quando escreveu que Jardel recebia da Segurança Social portuguesa. No dia seguinte corrigiu, com igual destaque, na primeira página, incluindo um pedido de desculpas. Há, penso, mais dois casos parecidos.

O que dizer desta contrição pública?
Primeiro que é muito saudável; segundo, que mais nenhum jornal a faz de uma forma tão exposta; terceiro, que é inteligente, evita processos em tribunal (ainda que neste caso se fale num pedido de 200 mil euros de indemnização), e que mostra que o marketing da sinceridade funciona; quarto, contraria a má imagem de jornal tabloide, com laivos sensacionalistas; quinto, que é mau jornalismo dar uma manchete daquelas, envolvendo directamente uma pessoa, sem a confirmar;

Nota final: eu gosto (simpatizo?) do 24 Horas. Acho que faz falta no nosso jornalismo um jornal que exercite o tabloidismo de uma forma ingénua (é um elogio...) ou inocente. Às vezes é divertido, outras nem tanto (e muitas irritante). Mas o facto de haver um jornal, que até é um sucesso de vendas, como o 24 Horas, é também uma forma de evitar o aparecimento de jornais bem mais perigosos para a comunidade.

agosto 08, 2005

Ser correspondente, hoje

Luis Costa Ribas, ex-correspondente da SIC e da TSF nos EUA, diz hoje isto ao JN: "Hoje em dia é muito mais difícil ser correspondente. Antigamente tínhamos que fazer o noticiário do país. Mas agora há muitas outras cadeias de televisão a dar notícias do país onde estamos como correspondente. Sem contar com as agências. O noticiário chega pela CNN, SkyNews, Reuters ou pela CBS. Só a televisão da Reuters distribui para mais de 500 televisões em todo o mundo. Em qualquer lado há estas agências, todas com serviço de imagem, que produzem diariamente toneladas de vídeos e "directos", muito mais barato do aquilo que nós podemos fazer. Não consigo fazer uma reportagem para a SIC nos Estados Unidos sem gastar pelo menos 200 contos. E estamos a falar de uma coisa de nada. Quando cheguei aos Estados Unidos a realidade era outra. Não havia nada e era preciso fazer a notícia de raíz, a não ser que se quisesse ficar pelo "telex" básico".

A frase merece um comentário: LCR tem razão em dois pontos: 1) antes, para obter as imagens institucionais, tinha de ir aos locais (hoje as agências internacionais fazem-no); 2) fazem-no muito mais barato.
Mas - digo eu que nunca trabalhei como correspondente - nunca foi, ao mesmo tempo, tão estimulante ser correspondente. Sobretudo nos EUA. Os correspondentes do Público naquele país(só para manter o paralelismo) provam-no - longe da agenda institucional, ficam soltos para produzir outras peças, investigar outras matérias, criar outras estórias. "Hoje em dia é muito mais difícil ser correspondente"? Acho que nunca foi tão aliciante ser correspondente. Por exemplo nos EUA.

agosto 02, 2005

Uma contratação valiosa

Não é regra, nesta página, destacar jornalistas em concreto, por boas ou más razões. Mas os dois primeiros artigos de Tânia Laranjo no Público de hoje justificam uma excepção. Quem é Tânia Laranjo? Os leitores do Jornal de Notícias conhecem-na bem, era a especialista em polícias e tribunais e, provavelmente, a mais produtiva jornalista daquela redacção (pelo menos, a que mais notícias em primeira-mão conseguiu).
Acaba de ingressar no Público, naquela que é uma espécie de contratação do ano. Exagero?
A pergunta remete para uma reflexão interessante: o peso individual de cada elemento em cada redacção. Por outras palavras, o que é que distingue a Tânia de outro jornalista? Além da sua generosa capacidade de trabalho, as suas fontes. As fontes de Tânia valem mais do que aquilo que o Público lhe vai pagar. E não há, em Portugal, mais três jornalistas com o mesmo valor a nível de fontes.
Por isso digo que esta pode ser a contratação do ano – a Tânia vai trazer leitores ao Público. E, com os outros jornalistas que já lá estão, o jornal tem condições para desequilibrar na área judicial e criminal.
(Declaração de interesses: conheço a Tânia muito bem, mas nunca falei com ela!)

Do mesmo jornal, e em contraponto, uma jornalista que precisa de melhorar as fontes de informação: no espaço de dez dias, a mesma jornalista escreveu no Público: "(...) Wender e Nunes nem sequer se equiparam. Tal facto parece ser um forte indício de que ambos, afinal, poderão ir mesmo para o Sporting" (21/7); "O Guimarães dá-se a conhecer esta noite frente ao Benfica, numa festa em que será apresentado um ponta de lança proveniente do Sporting (...)" (30/7)

agosto 01, 2005

(depois dos mergulhos) O Comércio vive!

Fulminante, o encerramento de O Comércio do Porto!
Há 15 dias a notícia seria um rumor estúpido. Duas semanas depois o jornal já não existe!
Lembrei-me muito dos amigos que lá trabalham (e são vários) e genericamente de todos os que foram apanhados desprevenidos por esta notícia - digo sem receio que foi a coisa pior que me aconteceu durante as férias. Porque o desemprego é uma das sensações mais dramáticas que se pode ter, porque estavam a fazer um bom jornal e porque já lá trabalhei. Vivi em O Comércio do Porto, no final da década de 80, os momentos mais felizes e esforçados da minha profissão.

Saúdo - resta-me isso - a ideia de vários jornalistas de criarem um blogue sobre o jornal que não morreu. ocomerciodoporto.blogspot.com

Act (15h00): Saúdo também o blogue que os jornalistas de A Capital criaram (E também trabalhei em A Capital, em 1988).

junho 30, 2005

A CAPITAL – Do sensacionalismo...

Eu, até por falta de informação (sobretudo interna) não faço o mesmo balanço [da Capital com Luis Osório]. Algumas notas:
- A Capital conseguiu uma agenda própria (o que não é fácil com tão poucos meios), mas muitas vezes demasiado alternativa (oito páginas sobre José Castelo-Branco!) ou basicamente à custa de ser diferente (contra Bush nas últimas eleições norte-americanas);
- A Capital conseguiu alguma opinião com mais-valia (Daniel Sampaio, Luis Filipe Borges, por exemplo), mas banalizou-a, por excesso de textos – muitos dos que opinavam, sobretudo os mais jovens, do quadro redactorial, (compreensivelmente) não tinham nada de relevante para nos contar;
- Conjugando falta de meios com a necessidade de ter uma agenda própria (um alinhamento noticioso alternativo), o resultado foi – muitas vezes – o sensacionalismo (títulos inchados quando comparados com os textos e os factos);
- Muitas vezes as manchetes ou os destaques eram notícias já antigas, recuperadas pelo próprio jornal sem um critério válido (dois dias depois de ter sido noticiado que o PS não se fizera representar no congresso da UGT, A Capital noticiava “PS não marcou presença no congresso da UGT); outras resultaram de pura intriga política, baseada em fontes anónimas (lembro-me de “Santana Lopes teme ser traído por Morais Sarmento mas receia retirá-lo do Governo”!)
Tudo negativo?
Não! O jornal ganhou notoriedade, conseguiu algumas manchetes de grande impacto (a saída de Carvalhas, por exemplo), ouviu novos protagonistas, permitiu a reflexão e, como um dia escreveu Luis Osório, conseguiu fazer um jornal sem depender da Lusa. E fez edições de extraordinária qualidade, como a de 24/12.

A CAPITAL antes e depois de Luís Osório

Luís Osório escreve, na edição de hoje, o seu último editorial como director (o mesmo acontece com Rogério Rodrigues). É o fim de um ciclo que começou a 15 de Setembro, quando foi anunciada a metamorfose que pretendia colocar o diário no grupo dos jornais “de referência” (a direcção entrou uns meses antes, mas para preparar esta mudança).
Foi um processo que acompanhei de perto, como se pode ver por este conjunto de textos*.
Quase um ano depois, A Capital está melhor?
Globalmente sim,
se o termo de comparação for A Capital antes de Luís Osório.
Em quê? Luis Osório, na despedida, diz que “Saio com a convicção de que demos o melhor de nós próprios ao projecto, que estimulámos as pessoas para uma aventura em que não acreditavam ao princípio, que modernizámos o jornal, que lhe demos uma outra organização, que aumentámos as vendas, o que não acontecia há longos anos, e, sobretudo, que contribuímos para um acréscimo de notoriedade e capacidade de influência.”

junho 19, 2005

(act) A tralha do Estatuto Editorial

Na página 16 do DN (na secção das cartas, curiosamente) pode encontrar-se o seguinte texto: “Nos termos da legislação em vigor, publicamos na íntegra o Estatuto Editorial do «Diário de Notícias», em vigor desde 1992”. E segue-se o dito Estatuto Editorial.
Pergunta: é preciso a lei obrigar para que se publique o Estatuto Editorial (EE)?
Resposta da maioria: não, certamente. Mas por que é que este só é publicado uma vez por ano, quando a lei o impõe? Por vergonha? Por desuso?
Obviamente que não proponho que o EE seja publicado todas as semanas, mas há uma boa solução: as páginas na Internet. E nas páginas do DN, Público *, Jornal de Notícias ou Correio da Manhã (para citar os que representam 95 por cento do mercado) o documento não aparece! Surpreendente, não? Afinal, seria apenas mais uma ligação na página de Internet…
Desconfio que, não havendo concertação de ideias entre os jornais, todos acham o EE uma espécie de tralha jornalística…
... Ou então sou eu que mais pareço um fundamentalista islâmico: é que acabei de ver as páginas da TSF, RR, RDP, RTP, SIC e TVI e nada. Desisto!

* O Público tem o seu EE acessível se se consultar a primeira versão do Livro de Estilo. Um aplauso, ainda que não seja directamente visível.

Act a 30/6/05: no sábado passado, 25, o Expresso publicou o seu. Ao lado do relatório e contas do ano anterior. Como manda a lei.

junho 12, 2005

Uma adivinha (fácil)

Como se chama o homem que há 20 anos dirige o mesmo jornal em Portugal, que tem entre os seus grandes feitos ter inventado um saco plástico jornalístico e considera (com razão...) que já todos receberam uma comenda no 10 de Junho menos ele (mas se lhe derem vai recusar)?
O director do Expresso é um caso verdadeiramente à parte na paisagem mediática portuguesa - pela longevidade, pela obra realizada, pela consideração que tem de si próprio.
Mas José António Saraiva também é um marginal: não se vê na televisão (paradigma da notoriedade nacional), não se lhe conhece quase nada para além do jornal (a não ser que escreve romances) e nem consta que seja dos mais influentes nos bastidores da política.
Independentemente de me parecer que o Expresso, ao fim de 20 anos, precisa de um novo director, é justo reconhecer que a figura é merecedora de atenção - e a entrevista que o próprio dá este sábado ao seu jornal (ao longo de 14 páginas) é prova disso. Recomendo-a, nem que seja pelo insólito. E apesar do pretexto noticioso ser fraco (um obscuro prémio, proposto por Pinto Balsemão, ganho em ESpanha), a entrevista é interessante - ainda que um pouco deslumbrada e menos combativa nas questões mais polémicas.
José António Saraiva é, no mínimo, um tipo interessante!

PS - Já que estou com a mão na massa: excelente edição da Única, com cinco trabalhos nos cinco países africanos de língua portuguesa. Um dossier brilhante, qualquer que seja a perspectiva de avaliação.

janeiro 15, 2004

O elogio a Francisco Sena Santos

Agora que tudo se conjuga para "bater" naquele que é um dos três mais importantes jornalistas de rádio das últimas gerações, aqui fica o meu testemunho:
- Francisco Sena Santos tem um lugar reservado na história do jornalismo radiofónico português. Com ele caíram alguns tabus e com eles surgiram novos contributos.
- FSS mostrou como a voz não é na rádio um fim em si próprio mas sim um meio, um veículo para levar as notícias (e nesse aspecto - teoricamente - todas servem);
- Mais, FSS mostrou como os ouvintes de rádio estimam as vozes do dia a dia, as vozes quotidianas, e não (apenas?) as tronituantes, graves e roucas dos locutores clássicos;
- FSS conseguiu um equilíbrio único (mesmo quando o padrão é internacional) entre o "lido" e o "falado"; o lido com tudo o que isso significa de rigor e contenção; o falado como "natural", "espontâneo", "próximo";
- FSS mostrou sempre uma preocupação pela realidade circundante, numa visão o mais cosmopolita possível - foi o primeiro a trazer a ciência e o ambiente para a rádio (às vezes com alguma chacota interna e externa);
- FSS ajudou a moldar a TSF e a TSF ajudou a moldar o actual jornalismo radiofónico português;
- FSS criou o "Fórum" para participação de ouvintes na rádio portuguesa e só isso já merecia aplauso.
Estou certo que além do que criou, mostrou, conseguiu ou ajudou, FSS ainda vai criar, mostrar, conseguir ou ajudar a rádio em Portugal!