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maio 31, 2006

Perplexo e indignado, escrevo às...

jornalistas da Notícias Magazine,

Este postal é sobretudo um exercício retórico e pessoal – não tenho a pretensão de uma resposta.
Mas este postal é também uma forma de tentar partilhar, com quem se interessar, uma enorme perplexidade: por que é que continuam em insistir em identificar a bebé de Viseu que terá sido maltratada pelos pais?
O mais fácil é criticar-vos, mas não acredito que seja comodismo, distracção ou inconsciência.
Então é o quê?

A minha indignação não resulta tanto de ter lido, na última Notícias Magazine, mais uma vez o nome da bebé. Antes, de ser na Notícias Magazine: o órgão de comunicação que mais tem acompanhado o caso e uma revista que persegue objectivos digamos sociais, mais apurados do que, por exemplo, a imprensa diária.

A insistência na revelação do nome, sempre que se fala no caso, é incompreensível, inqualificável e inadmissível – recém-nascida quando foi maltratada, não sei se ficarão sequelas no seu amadurecimento. Mas sei que basta ir à Internet, escrever o nome dela e, no google, aparecem milhares de referências (sim, vocês não são as únicas que a identificaram; provavelmente serão as únicas que ainda o fazem/farão).

Têm a noção de que a identificação pública de vítimas de abusos sexuais é uma espécie de anátema social que irá prejudicar essa criança? Que todos os manuais de jornalismo «proíbem» essa identificação, baseada sobretudo no bom-senso?

Durante quanto tempo o continuarão a fazer? Sempre que escreverem sobre ela?

Que utilidade tem o nome de uma bebé para a reportagem? Não poderia ser identificada com as iniciais, como a «bebé de Viseu» ou até com um nome fictício? Perdia-se interesse? Não acredito. E se se perdesse?
Já imaginaram que a podem vir a prejudicar, quando o vosso objectivo é o oposto?

Fica a minha perplexidade!

PS – leitor regular da NM, pode-me ter escapado alguma nota na revista sobre isto em concreto. Um caso que abordei varias vezes.

janeiro 26, 2006

Os direitos dos entrevistados (e os blogues)

Quem dá uma entrevista perde o controlo sobre a capacidade de editar o que foi dito (de fazer excertos, de recusar o que for considerado a mais), mas isso não significa que o entrevistado não tenha o direito de reclamar se - mais do que por algum erro formal - o espírito das suas declarações foi modificado.

Como é que o entrevistado faz valer os seus direitos? A comunicação social, genericamente, nunca deu muitas hipóteses aos reclamantes, pelo que, estes, passaram a aproveitar a internet para fazer valer os seus pontos de vistos.

Esta é a ideia central de um artigo do Courrier Internacional desta semana chamado "Guerra da informação nos blogues", em que se dá conta que "cada vez mais indivíduos e instituições publicam na internet as transcrições das suas conversas com jornalistas. Uma prática que coloca estes últimos sob maior escrutínio, obrigando-os a rever os seus métodos de trabalho".

O artigo traduz este de Katharine Q. Seelye, Web puts a new spin on news gathering, publicado no The New York Times

janeiro 09, 2006

Dos provedores

1) Manuel Pinto cumpriu aquilo que antes já tinha sido aqui referido e, no texto desta semana, desenvolve a falha deontológica na identificação da bebé de Viseu. Sim, afinal, alguém discute o jornalismo!
É um texto muito interessante [e não, obviamente, por eu lá ser referido!] porque relata os constrangimentos que se vivem numa redacção. Um excerto: "O comportamento do Jornal de Notícias, neste caso, merece reprovação por dois motivos em primeiro lugar, por ter-se servido do argumento da infracção alheia para também infringir, numa matéria em que está em causa um direito fundamental da pessoa humana; em segundo lugar, por não terem funcionado mecanismos de alerta e de mudança de comportamento, quando, na edição do dia 15 de Dezembro o nome da vítima foi várias vezes impresso, incluindo na primeira página, sendo que havia na Redacção quem tivesse clara noção de que a identidade da bebé não devia ser revelada."

(CORR)2) Rui Araújo escreveu ontem a primeira crónica no Público, ainda que de apresentação. Uma forma original de começar (porque pessoal). Espero que saiba seguir a herança dos seus antecessores - o provedor, se fica (CORR: apenas) à espera das cartas dos leitores para agir, provavelmente, as suas crónicas representarão pior as expectativas dos leitores (ainda que não formalizadas).

dezembro 26, 2005

(2 ACT) Quem discute o jornalismo?

Volto ao tema da identificação da bebé de Viseu para fazer duas perguntas:
- por que é que os provedores do JN e do DN não se pronunciaram (ainda?) sobre o assunto (já que o do Público ainda não exerce)? O DN, por exempolo, levou a identificação da bebé para os títulos (edição de 17/12)
- por que é que o Sindicato, nomeadamente o seu Conselho Deontológico, não se pronunciou sobre o assunto?

Uma questão suplementar: ou será que se entende - e pergunto sem qualquer ironia - que a identificação, tal como apareceu em quase todos os órgãos de comunicação social (o Expresso foi uma excepção) não terá consequências de futuro para a criança, que na escola ou entre os amigos ninguém saberá que ela passou por isto quando ainda não tinha dois meses?

ACT a 28/12: Manuel Pinto informou-me que está a trabalhar o assunto. E que numa das proximas semanas teremos desenvolvimentos

dezembro 15, 2005

Uns são mais suspeitos do que outros?

Apenas o JN não mostra hoje a cara do alegado abusador de Viseu.
Público, Correio da Manhã e 24 Horas mostram tudo. O DN encobre a foto principal (a de ontem no tribunal, usada por todos os jornais, em diversas versões), mas depois mostra o pai da (corr *) FT numa imagem mais antiga.

Os jornais - e não vi as televisões - costumam preservar a imagem de detidos (pelo menos alguns), no pressuposto de que todos são inocentes até prova em contrário. Afinal, utilizar palavras como "alegado" ou "presumível" parece-me proporcional à preservação da imagem desses mesmos alegados ou presumíveis...

Ou será que nem todos os suspeitos são presumíveis? Uns já estão condenados? Com que critérios? Quem o decide? Parece-me perigoso.

(Duas notas:
- Entendo que, como jornalista, a minha opinião pessoal sobre o caso, igual à da esmagadora maioria dos portugueses, deve ser anulada em função das regras deontológicas; mesmo que pareça demasiado insensível;
- Por falar em suspeitos protegidos pela comunicação social: o co-piloto português detido na Venezuela foi absolvido. Ainda bem.

* Neste texto, escrito ontem, identifiquei a bebé. Isso motivou um comentário violento de uma leitora. Expliquei-lhe, na resposta, que este blogue, embora escrito por um jornalista, não faz jornalismo nem, por isso, se sujeita a regras técnicas ou deontológicas do jornalismo (contraditório, factos e opinião, equidade de tratamento ou muitos outros cuidados). Lamento que a confusão persista, mas como não quero distrair-me do que é mais importante, substituí a identificação pelas iniciais.

abril 18, 2005

Discriminação por raça ou cor

Eis algo em que a generalidade dos jornalistas falha sistematicamente (dos mais tabloides aos diários de referência): "Os estrangeiros não são mais criminosos [do] que os portugueses", dizem os sociólogos Tiago Santos e Hugo Martinez de Seabra na Notícias Magazine de 10/4/05

novembro 01, 2004

Falta de cuidado e cuidado a mais...

Da edição do JN:
publica-se a foto de uma mulher que está presa no Brasil, suspeita de tráfico de uma criança. A foto vem do Brasil, onde se sabe como os direitos dos detidos não são um exemplo a seguir.
Parece-me errada a opção.
Na página 42 fala-se de um julgamento de seguranças de casas nocturnas, que está a decorrer (e que, portanto, é público). Mas fala-se desta forma: "O líder de um dos grupos (conhecido das autoridades como a família dos "Mariano"), F.P., é acusado de homicídio na forma tentada. O líder do "clã" dos "Vinagre", H.V., é acusado de homicídio qualificado na forma tentada, em co-autoria com mais dois arguidos.".
Aqui parece-me que houve cuidados a mais.

julho 01, 2004

A cor da pele/discriminação

A 23 de Junho coloquei um texto muito crítico relativamente a uma notícia do Público sobre o adepto inglês esfaqueado... por um ucraniano - que contraria o seu próprio Livro de Estilo.
Uma dica do Pontomedia alerta para um caso curioso: o facto de a Associated Press, ao contrário de dois jornais de Nova Iorque, não ter noticiado que os suspeitos de um crime são negros.
Um portavoz da AP, citado pela Fox News, disse: "A identificação pela raça é pertinente quando fornece ao leitor informação substancial sobre algum tipo de conflito emocional ou quando provavelmente estiver relacionada com alguma manifestação ou acontecimento similar".

junho 23, 2004

Já agora...

O jornal Público, na página de comentário audiovisual (desculpe, professor Meditsch, chamar audiovisual à rádio, mas é para simplificar), faz hoje uma crítica a algo que se ouviu ontem na TSF. Não ouvi, mas se é como conta a jornalista do Público, ela está certa (aditamento: a jornalista da TSF contesta, em "direito de resposta" essa versão). Penso que o caso não é suficientemente importante para justificar um artigo de opinião no jornal, mas acho aquele "rodapé" à notícia do inglês esfaqueado desnecessário e - já agora - um pouco perigoso, porque pode ser interpretado - inconscientemente - como uma forma de associar o que afinal não tinha ligação).
Assunto encerrado, porque não há mais a dizer.
Mas é interessante como essa notícia, por exemplo no próprio Público, nos remete para algo que conflitua com o jornalismo: a valorização da nacionalidade dos protagonistas.
No Público: "Adepto inglês esfaqueado por carteirista ucraniano".
No (livro de estilo do) Público ainda:
"4. Discriminação sexista, religiosa, racial ou etária
O PÚBLICO recusa todos os preconceitos e estereótipos de linguagem que firam a sensibilidade comum em assuntos que envolvam a idade, a raça, a religião ou o sexo.
Ninguém deve ser qualificado pela sua origem étnica, naturalidade, confissão religiosa, situação social, orientação ou preferências sexuais, deficiências físicas ou mentais — excepto quando essa qualificação for indispensável à própria informação.
1 — Deve prevalecer a equidade de tratamento: se não é curial referir que o assaltante X tem olhos azuis, é algarvio e gosta do Benfica, por que razão é preciso dizer que é "cabo-verdiano" ou "de etnia cigana", por exemplo? Em síntese: a raça (ou a etnia, ou se é homossexual, ou alcoólico, ou deficiente físico, etc.) não é relevante, não se menciona; se se menciona, tem de se justificar. Ainda no caso racial: "Jovens negros andam a assaltar os comboios da linha de Sintra"? Só jovens negros? "Cigano preso por esfaquear..." Só os ciganos esfaqueiam? Por isso, se for relevante referi-lo, é preciso que haja o indispensável enquadramento".

Uma maior maturidade jornalística vai-nos fazer chegar, mais cedo ou mais tarde, a alguma conclusão:
- é mesmo necessário referir a nacionalidade, em qualquer caso?
- é apenas um problema de destaque (neste caso, de título), sendo que no interior terá sempre de ser referido?
- é possível fazer esta notícia sem referir a questão da nacionalidade do suposto agressor?

novembro 19, 2003

"Casos judiciais e policiais" - um pacto com a justiça?
Vários jornais (entre eles o Público, que cita o El País) dão hoje conta de um pacto entre jornalistas e as autoridades judiciais da Catalunha.
Em troca de uma maior abertura e transparência do sistema judicial local, os jornalistas "comprometem-se, entre outras coisas, a preservar o direito à presunção da inocência, a confrontar as suas informações e a identificar com maior precisão a entidade que facultou a informação (...) Dispõem-se ainda a dedicar uma atenção especial às vítimas, aos menores e aos testemunhos protegidos".
Ou seja, por muito que custe admitir, são tudo coisas elementares do jornalismo e que não deveriam necessitar de reforço nem novos compromissos. Sinal dos tempos!
Mas o pacto, sobretudo pelo que demonstra de cedência por parte da hermética justiça, é um bom exemplo e pode inspirar o caso português.

outubro 15, 2003

O caso hoje contado no Público, de uma jornalista do Expresso, que se infiltrou na Assembleia Geral da Portucel, como accionista, merece várias notas:
a) Este procedimento é vivamente repudiado pelo Código de Conduta do... Expresso!
"XII - identificação e acesso à informação
1) Os jornalistas, quando em serviço, devem identificar-se como tal;
2) Os jornalistas não devem usar de artifícios ou subterfúgios para obter informações ou imagens."
Os disfarces de identidade são justificados em nome do interesse público, mas não é manifestamente o caso!
Mas o Código não é assassinado apenas nesse ponto. Naquele que se mostrou um dos mais originais, e que diz respeito ao "Jornalismo financeiro", afirma-se: "Um jornalista não deve escrever (...) uma notícia que envolva interesses financeiros e patrimoniais próprios ou de familiares". As mil acções não eram dela?
Do ponto de vista ético, há aqui uma deslealdade, como sublinha Óscar Mascarenhas; do ponto de vista deontológico há aqui um problema de incompatibilidade e de falsa identificação.
E o Código de Conduta ainda está em vigor?

PS - já não é a primeira vez que aqui se lamenta que o tal Código não esteja on line na página do Expresso.