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maio 07, 2005

Relatas à Perestrelo!

Há duas escolas no relato de futebol (português?): aquela que procura a sobriedade sem ser monótona, a equidistância sem ser cinzenta, o rigor jornalístico compatível com o acto mais difícil de desempenhar na rádio; e aquela que apela à emoção, que privilegia o espectáculo, que espalha opinião na liberdade da palavra.
Prefiro claramente a primeira, mas reconheço que está em perda (ou não se desse o facto de os seus melhores/recentes expoentes estarem fora – David Borges, Carlos Daniel – ou em fim de carreira – Ribeiro Cristóvão). E está em perda muito por culpa de Jorge Perestrelo!
Perestrelo é o expoente dessa outra escola de fazer o relato desportivo, muito inspirada no Brasil (onde viveu). Perestrelo partiu, mas durante várias gerações dir-se-á que “aquele relata à Perestrelo” ou que outro “tem a mania que é o Perestrelo” – para já não falar das suas expressões mais características...
Nesse aspecto, Perestrelo não foi apenas “o maior” mas sobretudo o único. E se se costuma dizer que ninguém é insubstituível, no actual contexto da rádio portuguesa ele era realmente único – a sua morte deixa órfãos os ouvintes fiéis(e tinha-os!).

PS – Provavelmente o mais acertado seria ficar por aqui, mas como não quero ser hipócrita, e porque várias vezes o critiquei internamente, tenho de acrescentar que, até pelo exposto na parte inicial deste texto, não guardo as melhores memórias de Jorge Perestrelo como jornalista. Mas nada disso importa, agora! Paz à sua alma, que é o mesmo que dizer ripa na rapaqueca, Jorge!

dezembro 28, 2004

Ainda os relatos de futebol

O tema voltou à actualidade por causa do texto do Público de hoje: "Comissão da Carteira [Profissional de Jornalistas] quer relatos feitos só por jornalistas".
Ali, como aqui, se fala em "acto jornalístico" e se o relato o é ou não.
Na minha opinião, não é porque não consegue ser. E não vale a pena enganarmo-nos - como parece acontecer com esta declaração de Alfredo Maia: «O presidente salientou também as obrigações éticas e deontológicas dos relatores, reconhecendo a existência no desporto de "um factor de emoção preponderante", que deve apelar a um esforço dos profissionais para garantir a equidistância face aos campos em causa
Embora as motivações sejam certamente diferentes, estou com o presidente da APR:
«Segundo o presidente da APR, José Faustino, "à luz do nosso código deontológico, os relatos não são actos jornalísticos" porque fazem apelo à emotividade. "Num jogo da selecção nacional, por exemplo, não se espera que um golo de Portugal seja relatado com o mesmo entusiasmo de um golo do adversário." Para aquele responsável, os relatos devem poder ser feitos tanto por jornalistas portadores de carteira profissional, como pelos que não estão abrangidos por este tipo de credenciação. "O que está em causa é a forma como o relato é conduzido. Um jornalista com carteira tem obviamente outra responsabilidade, e a obrigação acrescida de garantir a imparcialidade"
Ou seja, preparamo-nos para mais uma decisão tomada sem ter em conta a realidade, e continuaremos, alegres e contentes, a achar que podemos fazer jornalismo durante o relato de futebol!


ACTUALIZAÇÃO: Além dos comentários que entendeu colocar neste texto, Rogério Santos volta ao tema no seu Indústrias Culturais

dezembro 17, 2004

Relatos feitos em estúdio

As rádios começam a confrontar-se com uma nova realidade: a exigência, por parte de clubes e organizações de competições, de pagamento de direitos para autorizar a transmissão dos relatos em directo.
A falta de um sistema de audiências com valores objectivos sobre o real impacto da programação, a dificuldade em conseguir patrocínios (por causa da televisão?) e os valores por vezes elevados (dois a 15 mil euros...) estão a levar as rádios a optar por fazer os relatos em estúdio - com recurso às imagens de televisão.
Aqui não vou discutir se essa opção mata o próprio relato, mas apenas as questões deontológicas: um relato feito em estúdio deve ser sinalizado como tal junto dos ouvintes. No início e no recomeço da segunda parte, por exemplo.
E os ouvintes que ligam a meio?
Não faz sentido estar a dizer de cinco em cinco minutos. As duas sinalizações propostas têm um carácter simbólico, de respeito pelo ouvinte.

PS - o mesmo se passa com a introdução de som ambiente nesse relato de estúdio: som ambiente apenas o original, o resto (gravações...) é enganar o ouvinte!

Ainda sobre o relato de futebol

O comentário de Rogério Santos, no texto sobre o relato de futebol não jornalístico, merece algumas notas:
- a definição do acto jornalístico seria fundamental para balizar o que é e o que não é... jornalismo;
- essa definição não passaria tanto por um enquadramento dos conteúdos hipoteticamnente jornalísticos mas de regras que devem ser seguidas (as "notícias da quinta das celebridades" podem ser jornalismo se forem executadas de acordo com determinadas regras elementares);
- como se constata facilmente, as leis que nos regem estão desadequadas à realidade actual;
- a essência do jornalismo é fazer reportagem, como diz Rogério Santos, mas que reportagem? Com que qualidade? Misturando factos e opinião, como nesse caso do Artur Agostinho? É reportagem, mas não é jornalismo;
- o "Avante" (lá estou eu...) tem reportagens, mas não é jornalismo; reportagem é, portanto, um conceito/formato, não um sinónimo imediato e único de jornalismo;
- o relato de futebol não é jornalismo, mas no relato poderá haver momentos jornalísticos? Claro que sim; mas olhe que aquelas entrevistas televisivas (obrigatórias) no final dos jogos são tão condicionadas que dificilmente se podem considerar jornalismo...
- finalmente, é óbvio que não são apenas os relatadores de futebol que são - por regra - tendenciosos; a cobertura de Timor foi exactamente um desses caso - acho que a história registará esse momento como um dos mais felizes para a democracia do mundo mas um dos mais sombrios do moderno jornalismo português...

dezembro 15, 2004

Um relato de futebol não é jornalismo!

porquê:
- no relatador a mistura entre factos e opinião é total;
- em muitas circunstâncias não há isenção e - pelo contrário - os relatadores assumem uma tendência; por exemplo, querem que as equipas portuguesas ganhem e demonstram-no;
- o rigor é muitas vezes substituído pelo espectáculo, pelo humor (quando pela graçola... e pelo estereótipo);
- este estilo de fazer anti-jornalístico é incentivado e - há que admiti-lo - os ouvintes gostam (eu também ouço...);
Aceitando a evidência destas características, mais vale assumir de uma vez por todas que um relato de futebol não é um acto jornalístico. As coisas ficam mais claras...

PS - no livro que escrevi há uma alínea sobre "o relato de futebol". Nesse texto sou bastante conservador e disso já me arrependi. Mas defendo uma ideia que vem ao encontro do conceito de espectáculo: o relato de futebol pode ser uma arte!

novembro 22, 2004

Coisas que fascinam

Ouve-se:
"Portugal joga, agora, em velocidade de cruzeiro"
O éter, como o inferno, está cheio de boas intenções. Mas um jogo de futebol é exactamente o contrário do que pode ser considerado como "velocidade de cruzeiro": sempre a mesma velocidade, estável, sem sobressaltos.
Num jogo de futebol????

julho 20, 2004

Mais relatos de futebol

Um comentário ao texto de 16/7, sobre o voto de LCR em John Kerry, suscita-me esta história que partilho com os leitores: há uns anos, dava eu aulas na ESJ do Porto e logo numa das primeiras um dos alunos veio com a mesma teoria. "(qualquer coisa do género) nos relatos de futebol vê-se logo de que clube são os relatadores, pelo tempo de cada golo relatado".
Embora esteja no limite de considerar que relato de futebol não é jornalismo (voltarei a este tema oportunamente), mantenho uma grande admiração profissional pelos relatadores de futebol. E como, além de "Jornalismo Radiofónico, havia uma cadeira chamada "Relatório de Estágio" que eu também coordenava, "obriguei" esse aluno a fazer este trabalho: durante dois meses ouviria e gravaria todos os relatos de Benfica, Sporting e FC Porto e faria uma análise quantitativa e analítica dos tempos e dos golos. No final a amostra incluía mais de uma dezenas de jogos e o rapaz mudou de opinião.
Alguém acredita que um relatador - de uma rádio nacional - (consegue) cronometra(r) os segundos de relato quando há golo em função das suas paixões clubísticas? Eu não. E aquele pequeno estudo mostra-o.
Mas é, indiscutivelmente, um dos estereótipos à volta do jornalismo.
Combatê-lo só é possível com um comportamento editorial (rigoroso, equitativo/equilibrado, factual), que - infelizmente - nos relatos de futebol vamos vendo cada vez menos.

maio 31, 2004

O futebol e o relato

O Diário de Notícias publica, em dois dias diferentes, trabalhos sobre os relatos de futebol, tendo como ponto de partida a final de Gelsenkirchen.
As reflexões passam muito por aquilo que aqui se disse, na sexta-feira: foram momentos intensos mas não foi jornalismo.
Uma frase a reter, dita pelo relatador da RDP, Nuno Matos: «O meu trabalho é feito com isenção, mas reconheço que visto a camisola quando se trata de um encontro da selecção nacional ou de um clube português.»
Portanto, é sempre jornalismo, excepto quando...
É consensual que um relato de futebol não é compatível com jornalismo?
David Borges - o melhor relatador da rádio nas décadas de 80 e 90 - provou o contrário. E Carlos Daniel, na mesma linha, também!

PS - uma frase a reter do tal artigo de sexta, da crónica habitual de Migual Gaspar no DN: "Em todos estes momentos, a rádio transformou o acontecimento através da intensidade da voz, da entoação das palavras e do ritmo das frases. Afinal, quem precisa de imagens?"

O futebol é um caso à parte?

O relato dos últimos minutos do jogo FC Porto - Mónaco, na TSF, foi um momento especial. A vários níveis! Os dois relatadores, João Ricardo Pateiro e Jorge Perestrelo, mandaram os últimos minutos à fava e começaram a cantar "os filhos do dragão". Foi intenso. Mas não foi jornalismo.
Aliás, desde o primeiro minuto do relato que ficou claro que a opção não seria pela isenção nem pela equidade! Mas pela vitória do FC Porto.
É por ser o futebol?
É mesmo um caso à parte?
Isto relaciona-se com dois comentários que deixei (entre outros que também lá estão) no Jornalismo e Comunicação, a propósito da primeira página do JN de quarta-feira.

maio 10, 2004

O directo/a emoção/"ruído"

Um dos relatadores do jogo Corunha-FC Porto chorou nos últimos minutos desse relato, tendo sido o comentador a "salvar" a situação, quando a emoção tomou conta do relatador e se sucederam as interrupções.
O que dizer de um caso como este?
- que o jornalista deve/tem de estar vacinado para este tipo de situações? Isso já se sabe!
- que, antes de ser jornalista, é uma pessoa, e como tal também é feito de emoção? É um lugar-comum!
Eu gostava de deixar algumas notas, numa avaliação pessoal:
- chorar é uma expressão radical dos nossos sentimentos e exprimi-los não é a função dos jornalistas;
- chorar, quando isso interrompe o fluxo informativo e "assusta" o ouvinte, desviando-o do essencial, é muito negativo;
- ninguém está livre de - numa situação-limite - cometer esse erro. Mas tem de ser uma situação-limite: não pode ser num jogo de futebol, em que nada de especial aconteceu, a não ser a "vitória" da equipa portuguesa, que, à partida, já tinha 50 por cento de hipóteses;
- aconteceu e depois?! Resta pedir desculpa. O relatador pediu!

março 26, 2004

A escrita criativa- de mais?

Há uma evidente incompatibilidade entre a escrita radiofónica e a literatura (*).
Se mesmo nos jornais se diz que literatura e jornalismo não têm nada em comum depois da escrita, na rádio isso é ainda mais evidente.
A rádio deve falar simples e, comparando a rádio que se faz em Portugal com a nossa imprensa, isso é uma realidade.
Onde é que entra a criatividade?
Na escolha de palavras que refresquem os lugares-comuns e possam estimular a escuta, mas sem que se tornem, elas próprias, "ruído" (ou seja, o ouvinte fica a pensar naquilo que o jornalista/animador disse e não nos factos).
É difícil?
Não, é muito difícil! Por isso, para evitar danos colaterais, é preferível jogar simples e directo.
Vem isto a propósito de algo que ouvi ontem durante um dos relatos do Benfica: "Simão recebe, temporiza e passa para...".
Temporiza?
Como princípio, é saudável refrescar a linguagem do dia-a-dia, sendo que no relato há ainda um desafio quase dramático: criar o próprio estilo!
Mas à custa do ouvinte?
Temporiza significa pára (ganha tempo). Não é mais simples?
(*) Num velho livro, que já só há nas bibliotecas, chamado "A Rádio" (Lavoine), um tal Terrien escreve: "Não estás cá para fazer carreira de escritor. Na imprensa escrita podemos sempre reler-nos, completar-nos. Não quando nos encontramos diante de um microfone. O mesmo acontece com o ouvinte: é preciso que ele capte imediatamente, senão deixa de ouvir".
PS - Mas não foi à custa da perplexidade dos ouvintes que o mais carismático dos relatadores, Jorge Perestrelo, construiu o seu estilo? Foi, mas também de um conceito de "espectáculo" para além dos factos. Já não interessa tanto o que diz, se tem (alguma) piada...

março 18, 2004

Factos e opinião - a separação

No Fórum TSF de hoje sucedeu algo que demonstra como é sensata uma velha máxima cada vez mais em desuso: separar factos e opinião.
Discutia-se se a final da Taça de Portugal em futebol deve ser num dos novos estádios ou no Jamor. E a TSF convidou para opinar dois relatadores, Jorge Perestrelo e Fernando Correia.
Ambos opinaram, o primeiro de forma clara, o segundo mais diplomático.
E o que é que aconteceu? Os ouvintes, que os conhecem dos relatos, passaram a discutir as opiniões destes dois profissionais da TSF (sobretudo as de Perestrelo, bem mais polémicas).
A credibilidade de um jornalista é o seu maior trunfo e essa credibilidade resulta de uma soma de factores, sendo a independência um deles.
Quem tem como missão relatar factos (relatador...) não deve opinar. Para não desviar as atenções do mais importante, para não confundir funções e missões e para que as suas próprias futuras intervenções não fiquem toldadas por isso.
Deixem os comentários para os comentadores!
PS - num fórum sobre política os jornalistas da redacção não opinam, da mesma forma que num fórum económico é António Peres Metelo quem o faz; o desporto é mesmo um mundo à parte...

setembro 11, 2003

Ouve-se (num jogo na Noruega): "Portugal joga da nossa esquerda para a nossa direita".
Eis uma das várias inutilidades que ocupam a antena, durante os relatos de futebol.
Não é possível exterminá-las?
Qual é o interesse de uma informação destas?
Se é um estádio muito conhecido ainda se pode pensar que o ouvinte conseguirá visualizar o espaço. Mas para isso esse ouvinte teria de saber em que lado do estádio está o relatador!
E mesmo que saiba, qual o interesse?
As equipas não mudam ao intervalo?
Talvez não haja inutilidade mais inútil do que esta em todo o relato de futebol!

agosto 12, 2003

Caso (real): o relatador destacado para determinado jogo de futebol atrasa-se e apenas consegue chegar ao intervalo. Outra pessoa - o comentador - fez o relato na primeira parte. O relatador pega ao intervalo e o comentador passa, finalmente, a comentar. O ouvinte terá notado a diferença de registos, não só porque são duas vozes muito conhecidas, mas, sobretudo, diferentes ao nível do tom+timbre. Mas ninguém lhe explicou nada no recomeço do jogo.
Considerações: qualquer pessoa se pode atrasar, embora isso - naturalmente - não deva acontecer; mas o respeito pelo ouvinte está acima de TUDO. Sorte da rádio que tem um comentador que sabe fazer relatos ("a função mais difícil de desempenhar na rádio"), mas quem chega atrasado, na segunda parte, teria de dar uma justificação a quem ouve. O ouvinte perceberia e até ficaria solidário com o azar. Não dizer nada é chamar-lhe estúpido, é pensar que os ouvintes não têm sentido crítico. Quem pensa assim faz uma análise de curto prazo...
(Decidi colocar este assunto no "relato de futebol", mas o princípio é igualmente válido para qualquer situação em que haja directo e atraso da voz principal).