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maio 17, 2006

«Condenados e inocentes»

«PJ de braga detém jovens suspeitos de assaltos violentos (está bem)
Membros do gang têm entre os 16 e os 19 anos e em menos de 15 dias praticaram cerca de duas dezenas de roubos, agressões e até sequestros na Região Norte (está mal).
Quatro jovens, de 16, 17, 18 e 19 anos, foram detidos pela Polícia Judiciária (PJ) de Braga, por suspeita da autoria (está bem) de quase duas dezenas de assaltos violentos na Região Norte. Os crimes aconteceram em menos de duas semanas e espalharam a insegurança nos distritos do Porto, Braga e Guimarães
(está mal, que Guimarães - ainda? - não é distrito, não é Vítor?). Para já, os suspeitos (está bem) vão aguardar julgamento em prisão preventiva. O grupo invadiu residências, agrediu pessoas, sequestrou famílias (está mal), numa onda de violência absolutamente ímpar. Os suspeitos (está bem) foram detidos no passado sábado, pouco depois de furtarem (está mal) mais um automóvel e uma motorizada (...)».
(no Público de ontem)

fevereiro 14, 2006

Erros imperdoáveis

Há erros do jornalismo com os quais sou tolerante, até por saber que continuarei a cometê-los (!), mas há outros que são imperdoáveis!

Como é que um jornal, que quer ter qualidade, faz um título como este "Juiz ouve homicida" (JN, 11/2/06, última página)?

Se já é homicida, para quê julgar? Só para definir a pena?!

O que é mais curioso é que o texto começa assim: "O principal suspeito do homicídio do chefe Sérgio Martins da PSP de Lagos começou ontem a ser ouvido...".

Não terá o título sido feito pela jornalista que esteve em Lagos? Como se explica um título destes?!

janeiro 09, 2006

Dos provedores

1) Manuel Pinto cumpriu aquilo que antes já tinha sido aqui referido e, no texto desta semana, desenvolve a falha deontológica na identificação da bebé de Viseu. Sim, afinal, alguém discute o jornalismo!
É um texto muito interessante [e não, obviamente, por eu lá ser referido!] porque relata os constrangimentos que se vivem numa redacção. Um excerto: "O comportamento do Jornal de Notícias, neste caso, merece reprovação por dois motivos em primeiro lugar, por ter-se servido do argumento da infracção alheia para também infringir, numa matéria em que está em causa um direito fundamental da pessoa humana; em segundo lugar, por não terem funcionado mecanismos de alerta e de mudança de comportamento, quando, na edição do dia 15 de Dezembro o nome da vítima foi várias vezes impresso, incluindo na primeira página, sendo que havia na Redacção quem tivesse clara noção de que a identidade da bebé não devia ser revelada."

(CORR)2) Rui Araújo escreveu ontem a primeira crónica no Público, ainda que de apresentação. Uma forma original de começar (porque pessoal). Espero que saiba seguir a herança dos seus antecessores - o provedor, se fica (CORR: apenas) à espera das cartas dos leitores para agir, provavelmente, as suas crónicas representarão pior as expectativas dos leitores (ainda que não formalizadas).

dezembro 26, 2005

(2 ACT) Quem discute o jornalismo?

Volto ao tema da identificação da bebé de Viseu para fazer duas perguntas:
- por que é que os provedores do JN e do DN não se pronunciaram (ainda?) sobre o assunto (já que o do Público ainda não exerce)? O DN, por exempolo, levou a identificação da bebé para os títulos (edição de 17/12)
- por que é que o Sindicato, nomeadamente o seu Conselho Deontológico, não se pronunciou sobre o assunto?

Uma questão suplementar: ou será que se entende - e pergunto sem qualquer ironia - que a identificação, tal como apareceu em quase todos os órgãos de comunicação social (o Expresso foi uma excepção) não terá consequências de futuro para a criança, que na escola ou entre os amigos ninguém saberá que ela passou por isto quando ainda não tinha dois meses?

ACT a 28/12: Manuel Pinto informou-me que está a trabalhar o assunto. E que numa das proximas semanas teremos desenvolvimentos

dezembro 15, 2005

Uns são mais suspeitos do que outros?

Apenas o JN não mostra hoje a cara do alegado abusador de Viseu.
Público, Correio da Manhã e 24 Horas mostram tudo. O DN encobre a foto principal (a de ontem no tribunal, usada por todos os jornais, em diversas versões), mas depois mostra o pai da (corr *) FT numa imagem mais antiga.

Os jornais - e não vi as televisões - costumam preservar a imagem de detidos (pelo menos alguns), no pressuposto de que todos são inocentes até prova em contrário. Afinal, utilizar palavras como "alegado" ou "presumível" parece-me proporcional à preservação da imagem desses mesmos alegados ou presumíveis...

Ou será que nem todos os suspeitos são presumíveis? Uns já estão condenados? Com que critérios? Quem o decide? Parece-me perigoso.

(Duas notas:
- Entendo que, como jornalista, a minha opinião pessoal sobre o caso, igual à da esmagadora maioria dos portugueses, deve ser anulada em função das regras deontológicas; mesmo que pareça demasiado insensível;
- Por falar em suspeitos protegidos pela comunicação social: o co-piloto português detido na Venezuela foi absolvido. Ainda bem.

* Neste texto, escrito ontem, identifiquei a bebé. Isso motivou um comentário violento de uma leitora. Expliquei-lhe, na resposta, que este blogue, embora escrito por um jornalista, não faz jornalismo nem, por isso, se sujeita a regras técnicas ou deontológicas do jornalismo (contraditório, factos e opinião, equidade de tratamento ou muitos outros cuidados). Lamento que a confusão persista, mas como não quero distrair-me do que é mais importante, substituí a identificação pelas iniciais.

junho 27, 2005

Tabloidismo 2 – Só no Brasil?

... Em contrapartida, e apesar das preocupações, o tabloidismo aparece quando menos se espera…
Os jornais portugueses respeitam – regra geral – a presunção de inocência. E isso manifesta-se no que dizem e no que mostram. As fotos dos detidos, a menos que sejam figuras públicas (porque há uma correspondência entre o nome e a imagem, que não faz sentido esconder), devem ser preservadas. O mesmo não se passa, por exemplo, no Brasil – lembram-se do Militão? – em que as fotos são divulgadas pela própria polícia e o detido exposto ao limite.
Qual é a relevância disto? No sábado, o DN publicou uma notícia que dá conta da detenção de mais um português no Brasil, alegadamente por posse de droga. A foto do detido é publicada (e está na versão da internet), a legenda diz “Hugo levava cocaína” e a notícia acrescenta que “O jovem, de 22 anos, confessou o crime”.
Três magníficos exemplos de tabloidismo, sem dúvida, num jornal que tem todas as razões para o combater!

novembro 24, 2004

A (farsa da) presunção de inocência...

A comunicação social portuguesa já condenou as três mulheres que estão detidas na Venezuela, acusadas de tráfico de droga (escrevi aqui, há tempos, um texto sobre um trabalho na Visão, por exemplo, em que isso se percebia claramente).
Agora o advogado das três mulheres revela que estas se vão declarar inocentes em tribunal: "este não é o primeiro caso em que ninguém soube como chegou ao avião uma carga de droga que é muito difícil de dissimular, além de que não há testemunhos nem provas suficientes que apontem a culpabilidade...".
Não acreditam?
As coisas em que cada um de nós acredita não se podem sobrepor ao rigor/isenção e à deontologia jornalística.

novembro 16, 2004

Bom jornalismo de investigação ou condenar sem julgar?

Lê-se:
"Violador foi identificado por 17 vítimas conhecidas
Durante quatro anos violou ou agrediu pelo menos 17 mulheres PJ deteve-o depois da última vítima o ter reconhecido, apontando um bairro social de Fajozes, Vila do Conde.
Manuel S. morava em Fajozes, Vila do Conde. Durante mais de quatro anos, abusou de pelo menos 17 mulheres. As autoridades admitem, no entanto, que o número possa ser mais elevado. Ainda estão a averiguar se foram cometidos crimes semelhantes noutras zonas do país.
O primeiro crime cometido por Manuel S. terá sido há cerca de quatro anos. A vítima era também de Vila do Conde e ele entrou por uma janela, que escalou, conseguindo depois introduzir-se na habitação. Violou a jovem e roubou vários objectos do interior da casa.
Refira-se, ainda, que, ao ser surpreendido pela Polícia Judiciária, o indivíduo acabou por confessar a maioria dos factos. E foi depois reconhecido, anteontem e ontem, pelas 17 vítimas conhecidas
".
Esta notícia - com os principais excertos - desperta-me alguma perplexidade: por um lado, está bem investigada (com factos), mas por outro pressupõe uma condenação prévia.
A perplexidade resulta principalmente desta dúvida: haveria outra forma de a fazer?
A fonte é claramente policial (a confissão). Mas a polícia nem sempre é uma fonte idónea... muito mais quando é parte interessada. Além do mais, a identificação do homem em causa está feita. E se se provar que está inocente? Por outro lado, indo a julgamento será sempre confrontado publicamente com as acusações...

novembro 08, 2004

A Visão

O texto principal da última Visão é sobre a história das duas mulheres de Arraiolos que – diz a Visão – “alugavam aviões para ir buscar cocaína à Venezuela”. São oito páginas cheias de declarações anónimas (apenas o presidente da Câmara está identificado). Algumas delas, no mínimo, duvidosas – exactamente por serem anónimas: “dizia-se que levava dinheiro às pessoas e depois não fazia nada” ou “devia ser muito boa a engendrar esquemas”.
Há também um tom condenatório no texto (onde está a presunção de inocência numa abertura destas: “A mais arrojada e descarada operação de narcotráfico em Portugal foi protagonizada por três Marias de Arraiolos”?).

outubro 26, 2004

Presunção de inocência - um caso interessante

Lê-se:
"Franquelim Lobo, o alegado traficante de droga que foi quinta-feira mandado libertar pelo..." (Correio da Manhã)
e
"Franclim Pereira Lobo, um dos mais importantes narcotraficantes portugueses, libertado na passada quinta-feira..." (JN)
Em que ficamos?
Qualquer pessoa tem o direito à presunção de inocência, mas neste caso estou com o JN.
O tal de Franquelim já foi condenado a 25 anos de prisão, condenado em 2000 por tráfico de estupefacientes.
Ou seja, a menos que se pense que não deve ser chamado de traficante porque pode estar arrependido, não há dúvida…

março 23, 2004

Suspeitos e acusados - como é longe...

Volto a um tema recorrente, até porque sei que há juristas que têm o hábito de aqui vir, de vez em quando.
A comunicação social está a desenvolver, há duas semanas, o caso do alegado tráfico de órgãos em Moçambique. Quase todos os jornais, rádios e televisões mandaram enviados a Moçambique.
Por isso não há ninguém que não tenha ouvido falar de um casal de sul-africanos, acusados de serem os responsáveis...
Acusados, precisamente!
A palavra tem uma força incrível. E só deveria haver acusados... pela justiça.
Alguém pode acusar, genericamente? Claro que sim. Mas de um crime? Não entramos por caminhos próximos da difamação?
Acho que, se fosse em Portugal, uma situação destas, de acusação sistemática, não aconteceria. É só por ser em Moçambique?
Não há violação da presunção da inocência?Ou estou a ser fundamentalista?

março 03, 2004

Presunção de inocência

Ouve-se: "Começa hoje o julgamento do pedófilo Dutroux".
Começa hoje e já está condenado?
Para quê perder tempo?
Só para decidir a pena?

novembro 24, 2003

Tenho uma ideia, certamente muito insólita, do conceito de sensacionalismo e, até prova em contrário, vou alimentando-a: só há sensacionalismo quando não há correspondência entre aquilo que o(s) jornalista(s) diz(em) e os factos - quando há falta de rigor, portanto. Esta desadequação - na rádio - manifesta-se muitas vezes entre o lead do editor e a peça do repórter, entre a primeira formulação do título (quando há títulos) e o desenvolvimento dos factos ou entre o primeiro parágrafo (o lead) e o resto do texto.
> Ouve-se: (editor) "Tarde de sobressalto no Porto. A Polícia Judiciária deteve um homem, acusado de ter esfaqueado cinco mulheres; uma morreu e quatro ficaram feridas".
> Tarde de sobressalto?
> Para quem?
> A detenção, ainda por cima, tinha sido no dia anterior.
> A notícia era importante, indiscutivelmente, mas a primeira frase - o lead - serviu apenas para sobressaltar os ouvintes. Isso é sensacionalismo, porque se exageram os factos, com ou sem objectivos de audiência.
> Outro ouve-se: "Acordar sobressaltado no Iraque. Duas explosões perto de Bagdade..."
> Em todo o Iraque? Se foi apenas perto da capital, faz sentido dizer que todo o país teve um acordar sobressaltado? Mesmo "acordar sobressaltado em Bagdade" parece-me uma fórmula manifestamente exagerada...
Finalmente (da televisão): "Um jovem deixou o país de boca aberta ao entrar para Faculdade de Medicina aos 16 anos". Todo o país?

> PS - sobre o primeiro caso, lê-se no JN: "José A., 38 anos, esfaqueou cinco idosas em apenas 12 dias. Matou uma, feriu gravemente quatro". O tribunal que prepare a sentença, o homem já foi julgado e condenado...

novembro 19, 2003

"Casos judiciais e policiais" - um pacto com a justiça?
Vários jornais (entre eles o Público, que cita o El País) dão hoje conta de um pacto entre jornalistas e as autoridades judiciais da Catalunha.
Em troca de uma maior abertura e transparência do sistema judicial local, os jornalistas "comprometem-se, entre outras coisas, a preservar o direito à presunção da inocência, a confrontar as suas informações e a identificar com maior precisão a entidade que facultou a informação (...) Dispõem-se ainda a dedicar uma atenção especial às vítimas, aos menores e aos testemunhos protegidos".
Ou seja, por muito que custe admitir, são tudo coisas elementares do jornalismo e que não deveriam necessitar de reforço nem novos compromissos. Sinal dos tempos!
Mas o pacto, sobretudo pelo que demonstra de cedência por parte da hermética justiça, é um bom exemplo e pode inspirar o caso português.