Há coisas que, por vezes (mais vezes do que seria desejável...), nos passam despercebidas. Ainda bem que há quem esteja atento...
«O JN e o DN traziam (na quinta-feira) fotos quase idênticas da Assembleia da República: aperto de mão solidário, na bancada do Governo, entre o primeiro-ministro e o ministro das Finanças, enquanto Paulo Portas apadrinha, enlevado, a cena. A diferença cifra-se em alguns segundos de diferença entre os instantâneos: o do diário de Lisboa apanha o sorriso de Santana Lopes em todo o seu esplendor, o do Porto capta o capta em expressão menos efusiva (em dissolução ou em formação?). A imagem do DN traduz a transitória euforia, a do JN reflecte a monotonia do trivial.
Não seria legítimo transpor esta análise para o território da intencionalidade, ou seja sustentar que num dos casos se pretenderia empolar os sucessos governamentais e no outro diminuí-los. O mesmo não se pode dizer da comparação dos títulos. O DN inscrevia na foto, sob fundo branco e em letras garrafais, a palavra "Optimistas". O JN estabelecia maior distância em face do Governo: " 'Acabaram os sacrifícios', dizem eles". Ora, este "dizem eles" é temível...
Por seu lado, o Público traz, igualmente, na primeira, a bancada do Governo, mas com o responsável pelo Executivo e dois membros do Governo de semblante cerrado e mão a apoiar o rosto. São os ministros Gomes da Silva e Morais Sarmento, com o discreto título: "Alta-Autoridade confirma que o Governo tentou pressionar a TVI a afastar Marcelo". O tema é outro. Mas a tendência dos três diários é diferente. A análise das imagens é um indicador precioso, mesmo no jornalismo impropriamente dito escrito».
Mário Mesquita in "Cenas, Incidentes e Profecias"
(sublinhados meus)