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fevereiro 27, 2006

Mais do contraditório...

Lembram-se do caso da banda larga?
Lembram-se da crítica feita às jornalistas sobre não terem usado o contraditório devidamente?

Pois veja-se este caso (um entre centenas... todos os dias):
Na sexta-feira houve uma conferência de imprensa da Confederação de Meios de comunicação social, que constituiu o mais duro ataque de que me lembro a um governo.
Eis o que fez a Lusa:
1) 18h15: "Balsemão promete combater propostas do governo de «domesticação da imprensa»"

2) 18h35: esta mesma notícia foi actualizada

3) 20h14: "Governo defende que propostas para sector só pretendem regular mercado" (e fala o ministro Augusto Santos Silva)

4) 20h35: "Fiscais da ERC respeitarão sigilo profissional dos jornalistas - ministro"

5) 20h52: "Confederação acusa Governo de hostilizar meios de comunicação social" (duas páginas da conferência de imprensa)

Ou seja, a Lusa não esperou pelo ministro para divulgar as posições da Confederação e fez muito bem. Duas horas depois transmitiu a posição do ministro. E fez muito bem. E ainda meteu na linha mais um resumo da conferência de imprensa (que - e podia tê-lo feito - não incorpora as declarações do ministro, como resumo do caso).
Ou estou a ver mal ou isto é o que fez a Lusa quando procurou as escolas que não tinham banda larga. Por isso critico o CD e partilho das conclusões do CR da Lusa.

fevereiro 16, 2006

(ACT) CD do Sindicato censura jornalistas da Lusa

Sobre este caso em concreto, estou em desacordo com o que diz o meu camarada Manuel Vilas Boas: "Não há nenhuma razão para se sonegar, a quem quer que seja, o direito a pronunciar-se sobre uma acusação que lhe é feita (no caso vertente, a de estar a enganar os portugueses). Independentemente da veracidade da acusação ou dos factos que a suportam, o visado tem sempre o direito de se pronunciar acerca do que sobre si é dito ou escrito. Sem o tentar ouvir – e sem lhe dar um tempo mínimo para que possa pronunciar-se – nenhuma notícia deve ser publicada" (e não concordo porque entendo que não havia nenhuma acusação directa).
ACT a 17/2:
- recomendo este texto de Manuel Pinto "Acho é que a assertividade do parecer do CD, neste ponto e na circunstância específica, pode comportar alguma debilidade.".
- sobre outra questão, também relevante, António Granado: «Fiquei agora a saber, pelo parecer do Conselho Deontológico do Sindicato a propósito do caso da banda larga nas escolas, que “escrever ‘fonte do Ministério da Ciência’ não é citar uma fonte não identificada”

novembro 13, 2005

Um caso a merecer reflexão

No Diário de Notícias de ontem há um texto a merecer reflexão: numa página, da secção de desporto, fala-se num jovem jogador do Rio Ave FC (17 anos), chamado Fábio Coentrão ("não joga na Superliga (quatro minutos esta época frente ao Braga), não joga pelas selecções - foi chamado para um estágio na segunda e terça-feira dos sub-18, depois de ter perdido um por lesão -, não é propriamente famoso") que "é seguido por um clube estrangeiro", sobre quem fizeram um "relatório detalhadado e preciso" e cuja transferência "pode salvar já o orçamento" do clube.
A questão é que para além de não haver uma fotografia do jogador, este não faz uma declaração, sequer, ao jornal, não se diz que clube é esse nem quem elaborou o dito relatório. Sobre o hipotético negócio apenas se refere que o jogador é representado pelo "empresário do momento", Jorge Mendes.

O jornalismo é feito de constrangimentos e de limitações. Escrevemos tantas vezes sobre casos dos quais não sabemos tudo e preservamos a identidade das fontes por diversas razões.

Mas devo dizer que este artigo, em concreto, me parece mal defendido pelo jornalista. Não duvido que seja verdade o que lá vem escrito (até conheço relativamente bem as potencialidades do dito jogador, uma vez que assisto a quase todos os jogos do Rio Ave, do qual sou sócio), e que ele possa ser transferido, mas eu teria feito de outra maneira - nomeadamente dando mais informações sobre o que está em causa (ou recusando revelar só uma parte da história).

dezembro 05, 2004

Isto é um direito de resposta!

"Caso a publicação deste direito de resposta não siga, rigorosamente, as normas estabelecidas na lei, desde já se adianta que será pedida a intervenção das autoridades competetentes" *.
Quem assina este (excerto de um) texto é o director do 24 Horas na revista Pública de hoje.
Tudo por causa da entrevista de Pinto da Costa, na semana passada. O presidente portista denunciou o 24 Horas como estando a pagar por entrevistas (neste caso para dizerem mal da sua mulher).
O director do 24 Horas desmente tudo e diz mesmo que "o Público não se importa de publicar mentiras". Além de prometer resolver o caso no tribunal.
Curioso, nesta história, é o facto de Pedro Tadeu reclamar contra o facto de não ter sido ouvido antes da entrevista sair. É um velho dilema do jornalismo saber se, numa entrevista, há ou não mais flexibilidade quanto às regras do contraditório (por exemplo, se é em directo).
Manda o bom senso que, em casos de acusações com grande gravidade, e se não for em directo, seja contactado o visado previamente e, no limite, publicada a sua resposta na mesma edição. Uma semana depois não é a mesma coisa.
Esteve mal o Público, penso.

* Sabendo-se que a generalidade dos OCS lida mal com os direitos de resposta (o Público até é uma excepção), é irónico que seja um jornalista a exigir o cumprimento integral desse... direito a outro jornal!

novembro 26, 2004

O Independente no seu pior?

"Dizem os jornalistas que subscrevem a peça que «ao final do dia de ontem o Independente tentou contactar José Jorge Letria, mas tal não foi possível em tempo útil da edição», o que não é verdade, pois nem no telemóvel, sempre ligado, nem no telefone fixo da SPA me dei conta dessa alegada tentativa de contacto que tanto poderia ter esclarecido...".
Carta de José Jorge Letria em O Independente de hoje (e sem que os jornalistas visados reafirmem o seu trabalho).

novembro 17, 2004

Por isso é que ouvir duas fontes diferentes é uma boa regra

Esta notícia falsa foi destaque na revista Sábado há alguns meses*.
Mas quando os documentos são forjados em papel oficial, quando até é simulada a confidencialidade e são inventados pareceres de responsáveis da Procuradoria, então tudo fica mais difícil...
(ou como nem aquilo que parece... é!).

* a revista falava numa investigação ao presidente do Banco Efisa, associando-o a financiamento de terroristas, imputando-lhe suspeitas por branqueamento de capitais. A PGR desmentiu e prometeu investigar a origem, falsa, de documentos da PGR citados.

novembro 14, 2004

Última(s) dos vícios privados e das Públicas vergonhas

Joaquim Furtado cumpre exemplarmente o seu papel de provedor dos leitores do Público e não enfia a cabeça na areia, na edição de hoje.
Por isso aborda sem equívocos a questão que várias vezes aqui tratei esta semana - um tema claramente incómodo, porque representa um momento infeliz para a (excelente) redacção do Público.
Joaquim Furtado por ele próprio:
«O surgimento de dois textos e o facto de eles defenderem pontos de vista opostos. Embora possam ajudar a compreender o que se passou, as justificações de José António Cerejo - para não ouvir PSP e para escrever que não tinha "nada que ouvir" - são insuficientes. Se o princípio não se aplica em situações que envolvem valores como o bom nome, então quando se aplica? José António Cerejo teve, por isso, razão quando equacionou a necessidade de contactar Silva Pereira, mas não quando desistiu de o fazer.
A "lamentável posição por ele assumida" não seria uma boa razão para ouvir PSP?
O relevo que ganha um assunto de primeira página não torna "mais obrigatório" o cumprimento do princípio. E ainda que prevalecesse o argumento contrário, porque não desistir então da capa ?
Por seu lado, ao escrever o seu "post scriptum" - embora para reiterar o princípio correcto - o director do jornal escolheu uma via pouco ortodoxa que só um pronto esclarecimento nas páginas do próprio jornal evitaria que produzisse efeitos na imagem da vida interna da redacção. Permitindo, ao mesmo tempo, remeter o episódio para a matriz plural do PÚBLICO

novembro 11, 2004

Ainda os vícios privados e as Públicas vergonhas

(ainda...)

O deputado do PS, visado nas notícias recentes do Público, responde hoje em mais um "direito de resposta".
Independentemente de quem tem razão (Pedro Silva Pereira promete recorrer aos tribunais), há um dado a reter: o visado repõe a sua versão, que não aparece na última notícia do Público. Ou seja, o jornal publica duas peças (a de sábado e a de terça) e o visado nunca é ouvido, recorrendo, posteriormente, a amplos direitos de resposta.
Pode tornar-se um caso paradigmático...

PS - estranho o silêncio generalizado sobre este caso. Da parte dos jornalistas pode ser corporativismo; mas de outros lados?... Ou as coisas estão mesmo a mudar e, nesse caso, estou entregue!

novembro 09, 2004

Vícios privados, Públicas vergonhas

(mais...)

No editorial de hoje José Manuel Fernandes escreve: "num ponto, o antigo secretário de Estado tem razão: devia ter sido ouvido e devia ter tido oportunidade de expor os seus argumentos quando a notícia foi escrita, como mandam as regras internas do jornal".

Já o jornalista José António Cerejo escreve quatro páginas à frente: "Não tinha nada que ouvir Silva Pereira porque transcrevi o essencial da lamentável posição por ele assumida em todo o processo".

Vícios privados, Públicas vergonhas

O Público de sábado divulga uma investigação que põe em causa a idoneidade de determinada pessoa (por acaso, o actual portavoz do PS). Mas não o ouve! O visado responde num texto violento ontem divulgado como direito de resposta, em que - entre outras coisas - põe em causa isso mesmo ("publicada sem que previamente fosse ouvido o visado e sem que quaisquer diligências tenham sido feitas nesse sentido, violando assim, grosseiramente, as mais elementares regras legais e deontológicas").
Hoje o director do Publico dá razão ao visado (!) mas o jornalista em causa contesta! Tudo na mesma edição...
Como é que uma coisa destas pode acontecer?
Não estamos perante o famoso pluralismo que os jornalistas tanto gostam de apregoar, mas perante outra coisa qualquer:
- como é que o jornal aceita publicar um texto daqueles sem uma tentativa de ouvir o visado?
- se aquele era o texto mais importante (ou polémico) da edição de sábado como é que ninguém achou que faltava qualquer coisa?
- ou o assunto não é pacífico entre a própria direcção?
- "exigir" ao jornalista que tentasse contactar o visado não é censura; é jornalismo!
- como é que um jornalista - com as capacidades de JAC - diz que não precisa de ouvir o visado?
Que o provedor nos ajude a perceber melhor este momento muito fraco que o Público decidiu partilhar com os seus leitores...

agosto 21, 2003

Um daqueles casos que passam despercebidos e que são (infelizmente) frequentes na imprensa portuguesa: o último Expresso traz na primeira página uma notícia sobre o conflito entre dois "agentes FIFA", intitulada "Estilhaços de Jardel", e o Record responde no dia seguinte com "Ronaldo e Quaresma acusam José Veiga".
Que fique claro: o jornalismo seria inviável se cada vez que um segundo nome aparece numa notícia fosse preciso consultá-lo.
Mas o princípio do contraditório é irreversível, sempre que alguém é alvo de uma acusação.
É, sem dúvida, o que acontece em ambas as notícias: a do Expresso ouve (e é favorável a) José Veiga; a do Record ao visado, Jorge Mendes.
Nem a do Expresso consulta Jorge Mendes nem a do Record mostra que ouviu José Veiga.
E é por notícias como esta que fica, muitas vezes (muitas vezes injustamente), um sentimento de parcialidade nos leitores. Ou nos ouvintes.