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maio 04, 2006

Incompatibilidades - uma nova questão

O Expresso em Portugal e vários jornais um pouco por todo o mundo impedem os seus jornalistas, que trabalham informação económica/bolsista, de comprar e vender acções (sugerindo, em alternativa, a opção por fundos de investimento).

Em Portugal há - parece-me - um problema novo: há - dizem-me - cada vez mais jornalistas que fazem informação desportiva a apostar em casinos na internet.

A questão é esta: há ou não incompatibilidade entre um jornalista que faz actualidade futebolística e que aposta num determinado resultado de um jogo?

Se esse jornalista tiver alguma informação que possa influenciar - hipoteticamente - o resultado final (uma equipa que recebeu incentivos para ganhar ou perder) vai noticiá-la?

Um jornalista que acaba de perder 500 euros porque não acertou num resultado conseguirá a isenção suficiente para escrever a crónica desse mesmo jogo?

Provavelmente, dirão alguns, é apenas um delírio...

janeiro 30, 2006

As velhas e recorrentes incompatibilidades em versão actual

O Público de ontem dá conta de um caso interessante: o correspondente do Jornal de Notícias em Felgueiras foi proibido pela autarquia de continuar a colaborar com o jornal, uma vez que é funcionário municipal.
O Público diz que "diversos intervenientes da vida política consideraram tratar-se de um acto de prepotência, tendo mesmo referido que estava em causa um grave ataque à liberdade de expressão e um acto de relatiação por aquele funcionário ter escrito, no mesmo diário, diversos artigos relativos aos embróglios jurídicos em que Fátima Felgueiras se tem envolvido nos últimos anos".

Pois eu acho uma coisa completamente diferente: no caso em concreto, o problema é que um funcionário municipal não pode escrever sobre assuntos que relacionem directa ou indirectamente a autarquia em causa. São coisas incompatíveis. Artigo 10 do Código Deontológico dos Jornalistas: "O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios susceptíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional".

(a situação já dura há mais de 12 anos? Mais cedo ou mais tarde isto acabaria por acontecer)

janeiro 22, 2006

Ana e a "isenção total"

Antes de mais, devo dizer que respeito a opinião que vou citar, muito mais porque - como sempre aqui defendi - as incompatibilidades remetem-nos em primeiro lugar para uma esfera de intimidade; só quando passam para o domínio público é que têm uma dimensão colectiva.
Mas o facto de a respeitar (ou seja, de a considerar), não significa que não a possamos discutir. Pelo contrário.
Diz Ana Lourenço (da SIC) na Notícias de Sábado de ontem: "(...) não voto, porque não quero ver-me a dirigir uma entrevista no sentido crítico com uma pessoa que eu próprio elegi. Os jornalistas não deviam ser militantes de partidos nem sócios de clubes".

Algumas notas:
- a última frase é distinta do restante; uma coisa é não votar pelas razões expostas, outra ser militante de um partido (a minha posição é que, prevalecendo os direitos de cidadania do jornalista, este não pode fazer jornalismo nas áreas que tenham que ver directamente com a sua adesão);
- mas é a parte inicial a mais importante. Ana não vota (ou seja, não se desloca à mesa de voto para formalizar a escolha), mas não acredito que não tenha, nestas ou em outras eleições, "o seu candidato", aquele que teria ajudado a eleger se tivesse votado e ganhasse. Qual é a diferença?
- para fazer a entrada da tal frase o jornalista da NS escolheu a expressão "Isenção total". Ora, é por não existir (ou não dever existir), em matérias de cidadania, por exemplo, isenção total, que o não-voto me parece, primeiro, errado e, depois, inútil;

janeiro 02, 2006

Duas opiniões que gostei de ler

"O candidato presidencial do MRPP, o advogado Garcia Pereira, protestou com toda a veemência de que é capaz (...) contra a exclusão dos debates televisivos de pré-campanha e tem muita razão. Não tem toda a razão, mas tem bastante, porque os critérios jornalísticos que o excluíram, incluíram Alegre que à, partida, nem sequer tem qualquer resultado anterior que o sustente, como é o caso do próprio Garcia Pereira"
Pacheco Pereira, "As razões de queixa de Garcia Pereira", Sábado, 29/12/05

"Prémio Ó Mana, Desculpe Lá Perguntar: para Maria João Avillez, pela entrevista à irmã Maria José Nogueira Pinto antes das autárquicas. Se a moda pega, Judite de Sousa entrevistará o marido Fernando Seara, Sandra Felgueiras a mãe Fátima, Rita Ferro Rodrigues o pai Eduardo (...) e não tenho espaço para mais, que isto de jornalistas e políticos é pano para muita manga".
Eduardo Cintra Torres, "And the Olho Vivo goes to...", Público, 31/12/05

dezembro 06, 2005

Pode uma agência de comunicação ser proprietária...

...de órgãos de comunicação social?
Legalmente - em Portugal - pode; mas não devia*. Não está em causa a honestidade dos diversos intervenientes, nem suspeitas directas sobre as notícias dos clientes dessa agência. Mas basta a suspeita de que a agência pode usar o jornal para angariar clientes para ser eticamente reprovável.

* Se o Estatuto dos Jornalistas prevê a incompatibilidade entre jornalismo e relações públicas, essa incompatibilidade devia alargar-se à propriedade dos órgãos de comunicação social.

novembro 23, 2005

Passou-me na altura, mas

... vai sempre a tempo.
Numa interessante (e oportuna) entrevista de Dina Margato a Constança Cunha e Sá no JN de domingo, diz-se isto:
"Maria João Avillez entrevistou a irmã na qualidade de candidata à Câmara de Lisboa e optou por não falar no parentesco".

Na altura não me apercebi. Mas concordo plenamente com a editora de política da TVI:
"Acho que se impunha que assumisse. Ela era uma candidata, afinal. Já fazer a entrevista poderia ser questionável; mas devia tê-lo dito".

outubro 24, 2005

ECT vítima de si próprio?

Sou dos que acham que um crítico (ou um jornalista) tem de ter as suas incompatibilidades muito bem definidas. E não é a primeira vez que aqui me refiro a eventuais incompatibilidades profissionais do crítico de televisão Eduardo Cintra Torres.
Ontem, no Público, o crítico do Olho Vivo conta como é que terá sido vítima de si próprio:
"No sábado, 8 de Outubro, o PÚBLICO incluiu um texto do deputado do PS Arons de Carvalho em que, pela terceira vez desde 2001, ele, totalmente a despropósito, "denunciava" (a palavra é dele, em 2001) uma minha relação profissional com a Media Capital (a co-autoria de canais de música na internet); no dia seguinte e no mesmo local, voltei a esclarecer essa colaboração; e escrevi que ela não condicionava a minha opinião sobre o interesse do PS e do governo na compra da Media Capital pela Prisa.
Seis dias depois da denúncia de Arons, a Media Capital interrompeu essa minha colaboração. Desta forma, ficou satisfeita aquela que era, na minha opinião, a intenção da denúncia.
Não é a primeira vez que, em plena "democracia consolidada", sou prejudicado na minha actividade profissional por "delito" de opinião. Mas não tenciono vergar-me a pressões e prejudicar com isso a minha consciência e a opinião que presto aos leitores.
"

(é evidente que acho censurável o caso. Mas espero que ECT continue a escrever sobre televisão - e rádio...)

outubro 19, 2005

Jornalismo e publicidade

Nas manhãs da Antena 3 está a passar, pelo menos esta semanam um spot promocional a um novo jogo de computadores, gravado por duas pessoas, sendo que um deles é jornalista da editoria de desporto da RDP.
O spot pode ser entendido como uma brincadeira (a outra voz é Nuno Markl...), mas não tenhamos dúvidas de que há, subjacente, uma forte promoção ao jogo "Pro Evolution Soccer" (de outra forma, o representante do jogo não se disponibilizaria a oferecê-lo aos ouvintes no âmbito de um passatempo).
Sinceramente, a primeira vez que ouvi fiquei um pouco chocado. Mas tentei combater essa reacção com um eventual preconceito. Na verdade, tenho dúvidas se esta não será uma das incompatibilidades que está desajustada face aos novos tempos (que fique claro: por mim há-de manter-se sempre na lei, mas reconheço que pode haver outras dinâmicas).
Este spot da Antena 3 será uma provocação, um desafio? Ou uma inconsciência?
Nelson Silva alerta chama a atenção para o facto de isto acontecer, ainda por cima, numa das rádios do serviço público, sem publicidade portanto.

outubro 16, 2005

(act) Ainda Felgueiras

Já estive para escrever sobre o assunto, mas o facto de ter de fazer um debate com os candidatos à Câmara de Felgueiras, no penúltimo dia de campanha, inibiu-me.
Agora não sinto qualquer constrangimento e, depois do que li na primeira página do Expresso de ontem, não tenho dúvidas de que faz sentido chamar a atenção - penso não ser o primeiro a fazê-lo - para a excessiva exposição da jornalista da RTP Sandra Felgueiras na campanha da mãe (é raro deixar críticas personalizadas, mas neste contexto não há alternativa).

Desde logo, não é por ser jornalista, muito menos na RTP (ou noutro meio qualquer), que Sandra tem os direitos cívicos cortados.
Mas a imagem externa (a reputação...) de um jornalista é parte integrante do seu maior património, a credibilidade.
Sandra afastou-se da RTP durante a campanha? Nem podia ser de outra forma. Mas vai regressar, de imediato com o mesmo grau de exposição pública? Nesse caso, faz mal.

O que acabei de escrever era o que pretendia ter deixado durante a campanha eleitoral. Ontem, no Expresso, está escrito que Sandra "terá proposto a Joaquim Freitas, um dos denunciantes do «saco azul» uma entrevista televisiva em que este negaria tudo o que disse à PJ na investigação".
Sandra Felgueiras nega, mas a PJ diz ter o texto que terá sido entregue a Joaquim Freitas com as perguntas e respostas da tal entrevista televisiva.

No julgamento que começa em breve se saberá como é. Mas já não tenho dúvidas sobre a excessiva exposição da jornalista em todo este caso. Do meu ponto de vista, a sua credibilidade sai, muito ou pouco, abalada. Espero sinceramente que saiba fazer uma deontológica travessia do deserto quando voltar à RTP.

ACT a 17/10/05: via Ponto Media cheguei a desenvolvimentos. Nomeadamente à última página do DN de hoje, em que Sandra nega quaisquer pressões (não há ligação para o DN). Três notas rápidas: acho perfeitamente natural que a jornalista negue (o contrário é que seria estranho); como jornalista, desejo que ela esteja certa; a notícia cita Luís Marinho, com o director da RTP a dizer que Sandra está de baixa há duas semanas. Como tem sido vista na campanha de Felgueiras, só se pode concluir que a baixa médica serve para tudo. Até para fazer uma campanha eleitoral (será que Luís Marinho não a viu nas imagens da sua televisão???)

setembro 21, 2005

Essas difíceis incompatibilidades

De acordo com vários relatos, Rui Rio contestou fortemente a escolha de um dos dois comentadores que a SIC Notícias convidou para comentar o debate de ontem à noite.
De acordo com o despacho da Lusa, "Rui Rio contestava nomeadamente o facto de um dos jornalistas [subdirector do Jornal de Notícias] ser marido de uma candidata que integra as listas de Francisco Assis (...)."

O assunto é polémico mas não evito pronunciar-me:
A questão das incompatibilidades é dos mais difíceis de sistematizar no universo jornalístico. Porque remete, em primeiro lugar, para o domínio das opções pessoais, como tento demonstrar no texto do livro.
Objectivamente: porque alguém é casado com um candidato numa lista, não pode comentar um debate com imparcialidade? Claro que pode. O próprio é que deve avaliar se se sente em condições para o fazer.
Uma ligação conjugal não tolhe, entre pessoas suficientemente maduras, a capacidade de cada um julgar por si (no sítio onde vivo, o maior crítico público do actual presidente da Câmara é casado com a nº três da lista desse candidato; nem ele deixou de criticar nem ela deixou de integrar a lista).

PS - é quase impossível resumir uma questão tão complexa a 10 linhas. O lugar que a mulher do jornalista tem na lista é relevante? Ser elegível ou ser suplente importa? E até que ponto é importante a questão, já não do ser, do parecer?

agosto 16, 2005

(act) Incompatibilidades no comentário

Pode um comentador de futebol ser um treinador?
A pergunta é clássica e suscita as mais diversas opiniões - o Correio da Manhã recupera hoje, novamente, a questão, neste artigo.
Na minha opinião, não.
É claramente um problema de incompatibilidade: um treinador, mesmo no desemprego, não tem a mesma capacidade para criticar o clube, o jogador ou o dirigente com os quais pode estar a trabalhar na semana seguinte. E há imensos exemplos, sobretudo na televisão.
Quanto mais polémico for (isto é, quanto mais feridas estiver disposto a abrir) menos hipótese tem o treinador de o voltar a ser. Por isso protegem-se, jogam à defesa - querem continuar a ser treinadores e o comentário é apenas uma experiência passageira.
Já não tenho as mesmas dúvidas se estivermos perante um ex-treinador.

Act a 17/8: Leio no suplemento Actual do Expresso de 13/8: "Uma recensão - por sinal demolidora - da escritora Marianne Wiggins ao mais recente livro de John Irving, «Until I Find You«, publicada no «Washington Post» há mais de um mês, foi «desautorizada» pelo jornal, após queixa do autor. É que aos críticos daquele diário estão vedadas recensões de obras escritas por amigos ou conhecidos. E Irving é amigo de Salman Rushdie, com quem Wiggings foi casada até 1993. Em consequência, Irving e Wiggins conheciam-se. Pelo facto, o periódico norte-americano pediu desculpas".

agosto 05, 2005

Não entendo

A lei é clara sobre a incompatibilidade entre o jornalismo e actividades de relações públicas ou promocionais (obrigando à entrega - simbólica - da carteira profissional).
Por outro lado, periodicamente a acumulação de funções é denunciada como uma perversão do jornalismo.
Por isso é que este caso (que só conheço pela notícia em ligação) me incomoda - não está em causa uma hipotética acumulação de funções, que não terá acontecido, mas se a pessoa em causa desempenhava uma actividade de relações públicas* mantendo a carteira profissional (como se pode ler), há algo que não bate certo.
Pior, segundo a mesma notícia, foi o Sindicato dos Jornalistas que patrocinou a queixa do ex-assessor de João Soares. A que título?

Obviamente, nada me move contra a pessoa em causa (que não conheço pessoalmente mas sei ser um veterano profissional), e congratulo-me que os seus direitos tenham sido acautelados em tribunal. Mas incomoda-me que o (meu) Sindicato dos Jornalistas aceite seguir um processo de alguém que desempenhava funções incompatíveis com o jornalismo. Até me parece que o caso abre precedentes perigosos para o futuro...

* relações públicas, sim. Não no sentido dos que trabalham em discotecas ou restaurantes de luxo, mas da actividade de assessoria de imprensa.

junho 14, 2005

Sentido crítico

No final de Maio, e depois de uma chamada de atenção de um leitor desta página, coloquei um texto em que dava conta da experiência de autêntico neo-jornalismo, que foi fazer, na revista Xis, um trabalho alargado sobre ateísmo, ouvindo apenas católicos.
Na revista desta semana, duas cartas à directora dizem (um excerto de cada uma delas):
- "acho que todo este tema foi tratado de forma interessante mas parcial";
- "escrever artigos sobre ateísmo, sem chamar os ateus, é uma enormidade sem pés nem cabeça"
;

Ou seja, há leitores com sentido crítico!

maio 31, 2005

De propósito ou a lei do menor esforço?

Um leitor deste blogue chamou-me a atenção para um trabalho da revista Xis*, este sábado - fui encontrar sete páginas sobre o ateísmo (que é o assunto de capa), construídas com apenas duas pessoas, para além da jornalista: um professor da Universidade Católica e um jesuíta!
Uma crítica é imediata: um trabalho tão ambicioso não pode ser construído com apenas duas pessoas. É, no mínimo, monótono.
Mas mais a jusante há outra crítica que - parece-me - faz sentido: não deveria haver, sobretudo, ateus a falar do ateísmo? Um jesuíta e um professor da Católica é o mesmo que, para falar das propostas do governo sobre o défice, chamar um deputado do PSD e outro do PP.
Se foi de propósito, parece-me tendencioso (independentemente da qualidade dos entrevistados); se foi baseado na lei do menor esforço está tudo dito!

* Não gosto da revista, mas reconheço que é um produto coerente com uma determinada linha (new age?) e que, nesse aspecto, é um produto diferente/alternativo de tudo o resto. Deduzo que terá os seus leitores.

fevereiro 27, 2005

Exp 4 - Incompatibilidades

Porventura só poderá ser mal interpretado, precisamente na altura em que o jornalista em causa investiga e divulga (com fotos) as alegadas agressões à mãe da desaparecida Joana de Portimão, mas este caso - precisamente - remete para uma situação que é no mínimo incómoda (e que ninguém, no jornalismo, parece querer tratar): o das incompatibilidades!
O autor é jornalista do Expresso mas também advogado no activo (desempenhou funções na anterior equipa do bastonário). E como jornalista, até, ouviu o actual bastonário dos advogados!
Um jogador da primeira equipa do Benfica que faz notícias e reportagens em A Bola? Um conhecido quadro superior do BPI que integra da secção de Economia do DN? Ou um dirigente do Sindicato dos Jornalistas que é candidato a deputado - lembram-se da polémica que deu?

Duas notas finais:
não é a primeira vez que escrevo, aqui, sobre o assunto;
Estas notas não são para retirar brilho à reportagem - o assunto mais interessante (e, talvez, importante) deste Expresso!

dezembro 13, 2004

Um caso muito concreto

de jornalista-assessor-jornalista é contado por José Mário Costa no portal do Clube de Jornalistas.
Não sendo possível proibir o vai-e-vem, ao menos que seja definido um período temporal de incompatibilidade no regresso ao jornalismo (que impeça o exercício da profissão em absoluto ou, pelo menos, limite a abordagem a outras matérias diferentes daquelas que antes eram tratadas como assessor).
O PS irá manter uma proposta nesse sentido, agora que chegou a altura de apresentar programas eleitorais?

O Sindicato dos Jornalistas poderia fazer a proposta e enviá-la aos diferentes partidos...

ACTUALIZAÇÃO: a caso teve desenvolvimentos. O Contrafactos sistematizou-os.

Faz sentido?

(a continuação)

Se considerarmos a definição de jornalista, impressa no Estatuto do Jornalista, um jornalista do "Avante", "Acção Socialista" ou "Povo livre" pode ter a sua carteira profissional:
"1 - São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal,
permanente e remunerada, exercem funções de pesquisa, recolha, selecção e
tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som,
destinados a divulgação informativa pela imprensa, por agência noticiosa,
pela rádio, pela televisão ou por outra forma de difusão electrónica.
2 - Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no
número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações de natureza
predominantemente promocional, ou cujo objecto específico consista em
divulgar, publicitar ou por qualquer forma dar a conhecer instituições,
empresas, produtos ou serviços, segundo critérios de oportunidade comercial
ou industrial.
"
Ou seja, é a formulação em causa que legitima essa atribuição.

Faz sentido?

(no seguimento disto)

Características do jornalismo praticado no "Avante" ("propriedade do Partido Comunista Português; direcção e redacção: Partido Comunista Português", tal como se lê na ficha técnica)*:
- Sem lugar ao contraditório; seja o PCP, sejam sindicatos, apenas são transcritas as posições da parte promotora; nunca dos eventuais visados;
- Tom apologético ao Partido, nos textos noticiosos: "Comunistas, progressistas e democratas saúdam XVII Congresso" ou "o que mais vincadamente se recorda é o forte sentimento de se haver contribuído para mais um passo na história de uma luta ao serviço dos trabalhadores e do povo" são apenas dois exemplos;
- Insistência em determinados temas, apenas os que fazem a agenda do PCP (seja a nível social, político ou internacional);
- Evidente mistura de factos e opinião, por exemplo nos títulos: "O inequívoco voto contra do PCP" é um exemplo; outro "Idosos merecem viver com dignidade"; E estes títulos não aparecem como citações atribuíveis a alguém...

* lida a edição de 9/12/04

dezembro 12, 2004

Faz sentido?

Ao ler a lista de jornalistas candidatos às próximas eleições do Sindicato, algo me fez parar: na lista para a Direcção está uma jornalista do jornal "Avante" (por sinal com um número de carteira profissional bem antigo).
De uma forma muito simplista: pode um jornalista de um jornal como o "Avante" (ou o "Povo Livre" ou o "Acção Socialista") ser considerado jornalista?
Que margem de manobra tem um jornalista do "Avante" para... fazer jornalismo? Tem independência editorial? Tem liberdade para questionar, ouvir, contra-reagir, procurar, desenvolver?
De uma forma ainda mais simplista: qual a diferença entre alguém que escreve num jornal que é conhecido por ter um alinhamento ideológico pré-determinado, um jornal que se caracteriza por elogiar sempre um lado e criticar todos os outras, e um «press release»?
De uma forma esmagadoramente simplista: por que é que a lei diz que a carteira profissional é incompatível com a elaboração de «press releases» e não é com um jornalismo... que não é jornalismo? (Por alguma razão "Avante", "Acção Socialista" ou "Povo Livre" não são considerados como jornais a incluir, por exemplo, numa revista de imprensa...).

(Das duas, uma: ou estas questões são resultado de algum preconceito - que rectificarei na primeira oportunidade - ou há alguma coisa que não percebi bem; agradeço os contributos que possam deixar)

novembro 05, 2004

O vai e vem (assessores e jornalistas)

Espero que o PS formalize a proposta
e não se fique pelo "pondera também introduzir no Estatuto dos Jornalistas uma norma que impeça o trânsito sem limites (períodos de nojo ou "quarentenas") das assessorias de imprensa para as redacções".
(Não resolve o problema - que, aliás, não tem resolução - mas atenua a suspeita de parcialidade no regresso ao jornalismo. A dificuldade está em enquadrar legalmente a situação: 'não pode voltar a exercer o jornalismo durante um determinado período de tempo' ou 'só pode exercer a profissão em áreas de actividade que não tenham qualquer relação directa e indirecta com a função exercida anteriormente na assessoria'?) Lido no Jornal de Negócios, dito por Vital Moreira: "Há regras de quarentena, nojo ou incompatibilidade que deviam ser seguidas pelos jornalistas que saem de assessores".

novembro 03, 2004

Jornalista-Assessor-Jornalista (incompatibilidades para além da lei)

O Público traduz hoje a notícia que o "Jornalismo e Comunicação" divulgou na segunda-feira sobre a decisão do governo holandês de deixar de contratar jornalistas para alguns trabalhos de assessoria mediática ("media training", coordenar reuniões e redigir textos). Duas notas:
- Em alguns países da Europa (a Espanha e, pelos vistos, a Holanda, por exemplo) não existe uma incompatibilidade legal entre assessoria e jornalismo. Cada um pode desempenhar as funções que entende, até em simultâneo.
- Em Portugal (e não só...) o Estatuto do Jornalista define incompatibilidades, nomeadamente com as assessorias de imprensa.
Num caso ou noutro, o problema é mais do que legal. Por isso, o governo holandês anuncia que deixará de contratar jornalistas porque isso "pode aparentemente causar dúvidas no público sobre a independência do jornalismo".
Lá como cá. Com ou sem leis.

outubro 28, 2004

"O jornalista viajou a convite..."

Também hoje na página 46 do Diário de Notícias.
Não queres ver que a moda vai mesmo pegar...
Aplausos.

outubro 24, 2004

Para repetir?

Até agora - que me lembre - apenas o Diário Económico o fazia por sistema (isto é, sempre!).
Mas hoje encontrei no Público (pág. 30) a seguinte referência: "O jornalista viajou a convite do Conselho de Exportadores de Produtos do Mar da Noruega".
É um acto de transparência e uma forma sincera de credibilização (embora, apenas por razões "plásticas" não vejo como é que seja possível de reproduzir em rádio, sem que isso seja potencialmente mal interpretado pelos ouvintes; a rádio não permite mudar o corpo e o tipo de letra, dando-lhe o destaque lógico).

agosto 19, 2004

Assessores-jornalistas-assessores

(mais...)
"Enquanto denuncia as incompatibilidades de advogados que passam a ministros, participa ela própria [a classe jornalística] numa vil ciranda, em que se é num mês assessor de um gabinete ministerial para, sorrateiramente, regressar no mês seguinte à redacção e produzir uma prosa isentíssima sobre a política que acabou de servir. A promiscuidade não é de hoje. A falta de vergonha é. Sempre houve alguns cuidados, "períodos de nojo". Agora nem o nojo incomoda".
Sérgio Figueiredo, editorial de hoje do "Jornal de Negócios"

agosto 16, 2004

Assessores-jornalistas-assessores

Das duas uma: ou a prática, por continuação, por hábito, por desgaste, se institucionaliza e - daqui a algum tempo (10 anos?) - será perfeitamente normal o vaivém entre jornalismo e assessoria ou é preciso clarificar a situação, "regulamentando" hipotéticas incompatibilidades, nomeadamente na hora do regresso.
Duas referências próximas, que justificam este texto:
- "Onde estão os assessores de Durão Barroso/Maioria regressa às origens" (Jornal de Negócios, de hoje);
- A confusão de Souto Moura, primeiro no comunicado (obrigado LPM...) e hoje em declarações aos jornalistas: a sua portavoz é uma jornalista...

PS - ser assessor de imprensa é, talvez, a profissão mais instável, até porque são raros os que têm uma ligação efectiva à estrutura de que dependem: Sara Pina fez aquilo que o seu chefe queria que ela fizesse (caso contrário, não teria trabalhado tantos anos naquele gabinete); quando as coisas correm mal, paga o assessor ("que nem pertence ao meu gabinete"). Actualização a 17/8: deselegante, no mínimo, a forma como Souto Moura se referiu à sua assessora de imprensa! Uma coisa é sacudir a caspa das costas, outra é vir dizer "não fui eu que a nomeei para o cargo, está lá há quatro anos"...

julho 04, 2004

"Hoje, se se fala de alguma coisa que colide com os interesses económicos do grupo a que pertence o meio de comunicação onde estamos inseridos temos a censura, que é a censura da prateleira".
(Jorge Perestrelo, Focus, 30/6/2004);

PS - Da mesma entrevista (interessante, por sinal), outra citação, que se relaciona com um tema recorrente, aqui, nas últimas semanas: "Existe uma relação muito próxima entre jornalistas e jogadores. Eu, por exemplo, sempre me resguardei desse contacto, a nível de jogadores e de presidentes de clubes. O Sousa Cintra fartava-se de convidar jornalistas para irem a casa dele, com patuscadas. Eu nunca fui. Quero sentir-me à vontade para poder falar mal ou bem quando eu quiser".
Ainda na mesma entrevista, Jorge Perestrelo diz "recusei três campanhas de publicidade que me davam bom dinheiro. Recusei porque, como sabe, o nosso código deontológico proíbe-nos de fazer publicidade". O "kit kat" foi uma pausa?

junho 04, 2004

Incompatibilidades - uma citação:

"Daí [«a fase promíscua da relação entre jornalista e o poder»] que me insurja amiúde com a Comissão da Carteira Profissional do Jornalista que apreende a carteira a um jornalista que grave um «spot» de rádio ou de televisão, mas não a retira a quem redige essa mesma publicidade, ou a quem mantém relações promíscuas com fontes de informação de conveniência. Isto, de facto, não faz qualquer sentido".
Correia, Fernando - "A Rádio Não Acontece... Faz-se", Produções Editoriais, Lisboa, 2004

maio 18, 2004

Incompatibilidades - ser o biógrafo...

Não é a primeira vez que este assunto é abordado publicamente, mas prevalece a visão corporativa. Além disso, trata-se de um fenómeno novo em Portugal... o das biografias mais ou menos oficiais, escritas por jornalistas.
Eu nunca escrevi nenhuma, mas qualquer um aceitará que é necessária uma grande cumplicidade entre biografado e biógrafo. Este terá acesso a informação privilegiada, que não poderá usar, e é óbvio que não está ali para desagradar àquele.
Ora isto remete imediatamente para a esfera das decisões pessoais, que é o primeiro nível de avaliação das incompatibilidades jornalísticas.
Mas o problema assume outra proporção neste cenário, nada ilógico: o biógrafo, que é jornalista, obtém, por outras fontes, informações relevantes sobre o seu biografado. Vai usá-las, desagradando àquele? Ou vai diminuir-se, anular-se, evitando fazer essa notícia?
Deixo espaço para contributos externos, mas a mim parece-me óbvio que o biógrafo (um direito que qualquer um tem, seja jornalista ou não) não deve trabalhar editorialmente assuntos directa ou indirectamente relacionados com o biografado. Para sua defesa e do órgão de comunicação social em causa. É incompatível.

maio 03, 2004

Mais "Imparcialidades e incompatibilidades"

Se tiverem paciência, solicito uma leitura do texto do dia 8 de Abril.
Volto ao assunto porque o jornalista/comentador da revista "Doze", Rui Santos, escreve na última edição:
"Há, hoje, enviados especiais que, depois de receberem o seu nome inscrito nas camisolas da selecção e de se pegarem como pastilha elástica àqueles que pretendem entrevistar (e entrevistam), vêm mais tarde (em artigos de opinião!!!) sublinhar as proezas daqueles que procuram os fretes. Tudo isto é feito com um à-vontade extraordinário, em nome do "amiguismo" (...). Hoje, consegue-se uma entrevista; amanhã, agradece-se com um artigo de opinião laudatório".
Não gosto do estilo "toca e foge" do texto (insinuante, sem dizer de quem se está a falar), não acho que não se possa escrever um artigo de opinião (até elogioso) sobre quem se entrevistou e desconheço se há um contexto anterior que possa ser importante para compreender a coisa, mas como se relaciona com algo que escrevi, também não ignoro.
É a clássica dicotomia entre o ser e o parecer. E como a maior parte das vezes basta parecer...

PS - Muito a montante, pode estar uma outra situação que caracteriza o nosso jornalismo quotidiano: a abundância de artigos de opinião; o jornalismo de há décadas tinha muitos defeitos, mas os nossos antigos não faziam tudo mal! A separação entre factos e opinião, a distinção clara entre os dois géneros e uma demarcação mais ou menos clara entre jornalistas que opinam e os que não pareciam-me bons princípios (lembram-se de um texto sobre a participação, como comentadores, num "Forum TSF" de dois relatadores de futebol da própria TSF? É isso mesmo!).

abril 08, 2004

Imparcialidades e incompatibilidades.

Um jornal desportivo noticiou no último dia do mês passado (e deixei passar algum tempo, para retirar alguma carga pessoal) que um dos jornalistas que acompanhavam o estágio da selecção fez anos e foi distinguido pelo seleccionador e pelos jogadores, que lhe cantaram os parabéns durante a palestra. Recebeu, ainda, da Federação uma camisola com o seu nome e número (50 - o do aniversário).
É uma situação, só por si, promíscua?
Na minha opinião não.
Não tenho do jornalismo uma visão de "faca nos dentes" nem de distância absoluta face aos protagonistas.
E, por isso, considero que, por si só, este facto não vai impedir o jornalista de criticar negativamente aqueles que com ele tiveram aquela distinção.
É certo que há o ser e o parecer. Mas isso é da esfera pessoal de cada um.
Compreenderia que um jornalista, a trabalhar com a selecção, e invocando as suas próprias incompatibilidades/consciência, recusasse a "homenagem"? Claro que sim.
Na memória de muitos ainda está o episódio triste da selecção no último mundial de futebol.

março 10, 2004

Incompatibilidades- escrever sobre acções e comprá-las...

O Expresso de sábado faz uma página com um tema suscitado há algumas semanas, num artigo de opinião de Pinto Balsemão, a propósito de uma directiva europeia sobre mercados financeiros (e que motivou um texto, aqui, a 27/1/04).
O Expresso mandou um questionário a 150 jornalistas de Economia, com perguntas sobre eventuais incompatibilidades entre escrever sobre bolsa e ter acções (recebeu 62 respostas).
O texto não está on line e, devido à extensão e complexidade de argumentos, exige uma leitura.
Reafirmo apenas a minha posição: jornalista que escreve sobre bolsa não deve ter acções (aliás, o director do Público promete incluir a questão no próximo livro de estilo); aceito, no limite, a hipótese de investir em fundos de acções (onde não se controla a unidade), como sugere o Código de Conduta do Expresso.
Qualquer outra alternativa, como declarar as acções ou haver uma autoridade de controlo, só pode dar mau resultado.

janeiro 29, 2004

Incompatibilidades

Li, na segunda-feira, o texto de Eduardo Cintra Torres no Público. E achei que merecia uma nota porque aborda um dos temas mais interessantes no jornalismo, as incompatibilidades profissionais e deontológicas (por causa de haver, na SIC, vários jornalistas com ligações indirectas ao processo Casa Pia).
Achei que a teoria que o crítico defende não tem substância (a SIC estava do lado das vítimas até Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues serem citados, depois passou para o lado dos acusados) e fiquei à espera de eventuais reacções - porque o texto "A imprensa é livre, os jornalistas não" põe em causa a honestidade profissional dos jornalistas citados.
As reacções ocupam uma página do Público de hoje.
Uma nota pessoal: ECT não conseguiu provar a sua teoria (nem acredito que o vá conseguir, basicamente por, acredito, não ser verdade) e os jornalistas em causa demonstram o que fizeram para não se tornarem incompatíveis.
Cito Daniel Cruzeiro: "Pode um crítico de televisão pôr em causa o trabalho de uma redacção inteira, sem enunciar um único facto objectivo, uma única razão concludente, apenas «coincidências»?"

janeiro 27, 2004

Incompatibilidades - acções e recomendações

Francisco Pinto Balsemão publicou no Expresso de sábado um artigo na opinião, na sua qualidade de presidente do European Publishers Council.
Nele relata a intenção da Comissão de Europeia de estabelecer regras muito rígidas relativamente ao noticiário financeiro.
Basicamente, o comissário que criou a MADID (Market Abuse Implementation Directive) quer que os autores de análises bolsistas identifiquem os seus interesses em acções. Algo, aliás, que se relaciona com uma preocupação do Código de Conduta do próprio Expresso.
Balsemão considera esta directiva "impraticável e inaceitável, ao obstruir o jornalismo financeiro, minaria também o objectivo de bem informar os investidores".
Como o texto não está on line, recomendo a sua leitura antes de mais desenvolvimentos.
Voltarei ao assunto.

dezembro 23, 2003

Incompatibilidades e imparcialidade... a brincar

A decisão da BBC de passar a proibir os jornalistas e apresentadores de escreverem em jornais, justificada como um garante de imparcialidade, não pode ser levada a sério.
Diz a BBC que "quando os nossos jornalistas escrevem em jornais isso é visto como uma extensão do seu trabalho na BBC" e que "a imparcialidade é um elemento essencial da reputação da BBC e do nosso jornalismo".
Em suma, como os jornalistas escrevem artigos de opinião em jornais que se sabem ser alinhados mais à esquerda ou mais à direita, a BBC sai prejudicada.
Curioso como a empresa só se lembrou agora, quando esta é uma tradição com décadas; curioso como isto aparece a seguir ao caso-Kelly; curioso, finalmente, como nenhum outro órgão de comunicação social, no mundo se lembrou disto (com este motivo, uma vez que pode argumentar-se com a necessidade de exclusividade).
Trata-se de uma brincadeira, sem dúvidas: o problema é que, depois de ter feito as revelações na rádio BBC sobre as armas do Iraque, o jornalista da BBC Andrew Gilligan publicou um texto no "Mail on Sunday" onde contou mais coisas e revelou, por exemplo, o nome da fonte.
Na BBC acredita-se que a polémica teria sido muito menor se Gilligan se tivesse limitado à rádio.
E para cortar o mal para raíz proibe. Pode resultar. Não me venham é falar em incompatibilidades por causa da imparcialidade...

dezembro 15, 2003

A imparcialidade dos jornalistas e as incompatibilidades

O comportamento de alguns jornalistas (deduz-se que seriam jornalistas) na conferência de imprensa de ontem, mal foi anunciada a captura de Saddam Hussein, remete para o domínio da equidistância e da isenção perante os factos.
Enquanto a maior parte se mantinha impávida (ainda que não totalmente serena...), uns batiam palmas e outros, de pé, gritavam o seu contentamento - pelas imagens da televisão.
Não são os jornalistas cidadãos como os outros?
Quando são... jornalistas não.
Dir-se-á que para os iraquianos a notícia tem uma dimensão afectiva que ultrapassa o comportamento profissional - como o 25 de Abril de 1974 para nós?
Mas, com esse exemplo, vou buscar imagens (de memória) de comportamento altamente profissional de muitos repórteres.
Outra coisa diferente é a convicção pessoal de cada um; quando não estamos em "funções" podemos manifestarmo-nos da forma que entendermos.
O que está em causa é a capacidade de nos mantermos imparciais e equidistantes relativamente aos factos. Aqueles jornalistas conseguirão ser isentos quando tratarem de informações sobre SH?

dezembro 04, 2003

Incompatibilidades - um caso exemplar (e próximo)

Passou despercebido um caso que configura um valor que aqui já se defendeu diversas vezes: os jornalistas são cidadãos como outros, com os mesmos direitos constitucionais, mas há óbvias incompatibilidades com determinadas funções:
O anterior treinador do Desportivo de Chaves, José Alberto Costa (JAC), depois de despedido, acusou um jornalista de ser um dos responsáveis pelo sucedido. É o costume, a culpa é sempre dos jornalistas, dirão alguns.
Acontece que o jornalista em causa, Carlos Veras, correspondente de O Jogo em Chaves, foi director do departamento de futebol do clube. Ter-se-ão incompatibilizado e JAC exigiu a saída de Carlos Veras, o que aconteceu. Diz o antigo treinador: "Como é jornalista, passou a frequentar os treinos e, um dia, fui confrontado com ele e disse-lhe tudo o que tinha para dizer. Acabei por ser vítima de um sujeito que, enquanto director, foi oposição ao meu trabalho".
Já Carlos Veras comentou: "Tive problemas com o técnico, porque ele pretendia utilizar a minha condição de homem da comunicação social para alterar as minhas crónicas e influenciar os restantes companheiros de imprensa, algo que acho indecente" (citações tiradas de O Record).
Não pretendo, obviamente, julgar ninguém nem, sequer, apurar quem tem razão. E até parto do princípio que o jornalista em causa, durante o tempo em que foi director do Chaves, não escrevia em O Jogo sobre os jogos desse clube.
Mas torna-se óbvio, pelo menos, que o facto de ter continuado a acompanhar o clube, depois de ter saído, só podia acabar mal.
Aos jornalistas, como aos políticos, não basta ser. É preciso parecer...
PS - quem assinou a notícia em O jogo sobre a saída de JAC? Carlos Veras, precisamente. Eu não o teria feito.

novembro 20, 2003

Pergunta um leitor deste espaço sobre as incompatibilidades entre jornalistas e políticos.
No livro o assunto é desenvolvido com alguma atenção, mas vale a pena abordá-lo sobre outra perspectiva, a legal.
O Estatuto do Jornalista é claro quando define incompatibilidades com "membros do governo" e "presidentes de câmara ou vereadores", entre outros (artigo 3º, aqui na íntegra), mas esquece-se dos deputados. Deduzo que a única explicação é o legislador nunca se ter lembrado que poderia passar pela cabeça um jornalista querer acumular com a função de deputado...
Defendo, até uma hipotética revisão da lei, que se deve fazer uma leitura extensiva da lei: é óbvia uma incompatibilidade.
Curioso é que nas últimas legislativas foi o próprio presidente do Sindicato dos Jornalistas a candidatar-se a deputado, embora em lugar não elegível (e foi esse o argumento usado). Acho que são lugares incompatíveis, ponto final.

novembro 07, 2003

Já agora, mais uma... incompatibilidade.
Um jornalista da Reuters vive na casa onde também reside um funcionário do Ministério das Finanças inglês. Esse jornalista encontrou um papel com uns números da economia local e divulgou-os uma hora antes do seu anúncio oficial.
Foi um escândalo, o INE inglês abriu um inquérito e a Reuters colaborou. Resultado, estes pormenores foram descobertos e revelados. E o jornalista (tal como o seu editor) censurado...
Um jornalista não pode morar com alguém que possa ser uma fonte de notícia?
Um jornalista não pode é sacar informação indevidamente, sem autorização e à revelia da boa fé de alguém!
Ou, então, vale a máxima: se estás perto de um jornalista guarda todos os documentos no cofre e engole a chave...


Incompatibilidades
Os advogados discutem este fim de semana a possibilidade de impedir a acumulação do exercício da profissão com, entre outras, o jornalismo.
E os jornalistas, que pensam desta acumulação?
A lei é clara quando define as incompatibilidades e nelas não está a advocacia.
Assunto encerrado?
Não é tão simples: um advogado, que exerça, obtém informação privilegiada. Vai usá-la, tirando partido do acesso fácil à comunicação social? Isso é ilegítimo, à luz do Código Deontológico.
Outro cenário: todos os colegas desse advogado sabem que ele é jornalista? Isto é, quando falam abertamente sobre determinado caso (eventualmente em segredo de justiça...) estão conscientes de que ele é jornalista? Tendem, por exemplo, a aproveitar-se dessa situação?
Um jornalista obteve determinada informação, dada por uma fonte, que pode ter relação directa ou indirecta com um caso que patrocina como advogado. O que faz?
Finalmente, estando sujeito a dois “regimes” de sigilo profissional, qual prevalece?
É obvio que estas são questões académicas, mas não me parecem disparatadas.
A lei não impede, mas trata-se de uma acumulação perigosa.
Em primeiro lugar prevalece o nível da gestão das opções íntimas que remete para a honestidade intelectual do jornalista-advogado. Mas pode não ser suficiente!