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março 30, 2006

Essas difíceis imparcialidades

Na semana passada ouvi Luís Osório dizer, durante uma entrevista a Maria José Nogueira Pinto, que tinha votado nela para a Câmara de Lisboa.
Achei mal que o tivesse feito, mas avancei, encolhendo os ombros. Ontem, no entanto, Osório contou que vários ouvintes protestaram por ele o ter feito. E isso já é muito interessante, a partir do momento em que alguém decide protestar por uma questão como essa.
Estou com esses ouvintes:
- Não defendo que o jornalista seja anódino e indiferente, mas uma revelação dessas - ainda por cima durante a própria entrevista - só provoca «ruído»: distrai os ouvintes do mais importante (o entrevistado), suscita polémicas que colocam o jornalista como protagonista (e isso não faz sentido) e introduz demasiada subjectividade: Osório vai fazer outras revelações do mesmo género? Com que critério? Quando lhe apetecer?

março 01, 2006

(ACTx2) Uma notícia (no mínimo) a merecer atenção

O Diário de Notícias publica hoje, na página 23, uma notícia com este título: "Recifes artificiais para salvar mar da Calheta".
Não está em causa o interesse da notícia, mas há duas coisas no mínimo estranhas:
- é publicada uma foto dos recifes artificiais (disponível na ligação on line) que é pura publicidade à empresa promotora (sob a capa do famoso «direitos reservados»); aliás, a publicidade à empresa é absolutamente despropositada e gratuíta, numa foto tirada debaixo de água;
- Último parágrafo da referida notícia: «Enquadrada na política de inovação constante do Grupo Mota-Engil, a CPTP apresenta-se como "uma moderna e versátil frota de equipamentos sem paralelo em Portugal", que desde 1930 marca presença em obras portuárias de referência» (sublinhado meu).

Distracção?
Talvez valesse a pena a atenção do provedor.

ACT a 3/3/06: acabo de tomar conhecimento de que o assunto será tratado pelo provedor dos leitores do DN e que quer o editor quer a jornalista prestam esclarecimentos.

ACT a 6/3/06: É a crónica de hoje de José Carlos Abrantes. Que subscrevo na íntegra (para a encontrar on line tive de ir à interessante página pessoal de JCA)

novembro 23, 2005

Passou-me na altura, mas

... vai sempre a tempo.
Numa interessante (e oportuna) entrevista de Dina Margato a Constança Cunha e Sá no JN de domingo, diz-se isto:
"Maria João Avillez entrevistou a irmã na qualidade de candidata à Câmara de Lisboa e optou por não falar no parentesco".

Na altura não me apercebi. Mas concordo plenamente com a editora de política da TVI:
"Acho que se impunha que assumisse. Ela era uma candidata, afinal. Já fazer a entrevista poderia ser questionável; mas devia tê-lo dito".

setembro 15, 2005

Mais de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira acha que não é correcto, nas notícias sobre o Katrina, referir a condição de superpotência dos EUA. PP acha que isso é um sinal de falta de imparcialidade por parte dos jornalistas (neste caso) portugueses. Uma questão de enviezamento. Disse-o e escreveu-o diversas vezes, nomeadamente na última Sábado.

Eu, que não tive oportunidade de fazer nenhuma notícia sobre o Katrina, acho que faz todo sentido, directa ou indirectamente, invocar essa condição. Não é a mesma coisa aquilo acontecer no Bangladesh, na Nigéria ou na China.
Acontecer nos Estados Unidos, com aquelas consequências, dramatiza o impacto mediático - se os danos não são controláveis, ali ou em Timor, já a protecção e o auxílio às vítimas teriam de ser proporcionais às condições que o país oferece (afinal é padrão de qualidade de vida a nível mundial).

Ou seja, aquilo que se viu seria compreensível (proporcional) no México. Nos Estados Unidos não. Esquerdismo ou anti-americanismo? Não. Jornalismo.

agosto 22, 2005

Aposta e ganha (1)

Leio no DN de sábado:
"Mesmo antes de arrancar o campeonato de futebol, a betandwin.com aproveitou a conferência de imprensa sobre o patrocínio para promover o seu negócio junto dos jornalistas. O dossier de imprensa com a informação sobre o acordo com a Liga de Futebol continha também um 'voucher' no valor de 50 euros. O cartão distribuído pelos jornalistas convidava-os a apostar, fornecendo um código de acesso ao site e as instruções de como jogar nas diferentes opções disponíveis online."
Algumas considerações:
- é uma técnica de relações públicas usada frequentemente (envolver os jornalistas com o produto, deixá-los mexer e - se possível - até ganhar...);
- do ponto de vista do meu trabalho jornalístico faz sentido que eu saiba o que é e como funciona a "betandwin.com". Só assim posso explicar aos ouvintes/leitores/telespectadores; e para isso tenho de experimentar;
- mas com o dinheiro da própria "betandwin.com"? Se, por sorte, ganhar nas apostas conseguirei manter a mesma isenção?
Uma nota final, em suspenso, porque o assunto é ingrato: sei que, como jornalista, estou frequentemente a ser envolvido em estratégias de comunicação das entidades que me contactam; também sei que não são os 50 euros que me retiram independência; mas sinto que não devo aceitar a oferta se tenho uma expectativa editorial de me relacionar com a "betandwin.com".

agosto 16, 2005

(act) Incompatibilidades no comentário

Pode um comentador de futebol ser um treinador?
A pergunta é clássica e suscita as mais diversas opiniões - o Correio da Manhã recupera hoje, novamente, a questão, neste artigo.
Na minha opinião, não.
É claramente um problema de incompatibilidade: um treinador, mesmo no desemprego, não tem a mesma capacidade para criticar o clube, o jogador ou o dirigente com os quais pode estar a trabalhar na semana seguinte. E há imensos exemplos, sobretudo na televisão.
Quanto mais polémico for (isto é, quanto mais feridas estiver disposto a abrir) menos hipótese tem o treinador de o voltar a ser. Por isso protegem-se, jogam à defesa - querem continuar a ser treinadores e o comentário é apenas uma experiência passageira.
Já não tenho as mesmas dúvidas se estivermos perante um ex-treinador.

Act a 17/8: Leio no suplemento Actual do Expresso de 13/8: "Uma recensão - por sinal demolidora - da escritora Marianne Wiggins ao mais recente livro de John Irving, «Until I Find You«, publicada no «Washington Post» há mais de um mês, foi «desautorizada» pelo jornal, após queixa do autor. É que aos críticos daquele diário estão vedadas recensões de obras escritas por amigos ou conhecidos. E Irving é amigo de Salman Rushdie, com quem Wiggings foi casada até 1993. Em consequência, Irving e Wiggins conheciam-se. Pelo facto, o periódico norte-americano pediu desculpas".

agosto 02, 2005

Carmona vai ganhar!

Pelo menos, se depender do Expresso!
Em duas semanas seguidas, duas fotos altamente moralizadoras para Carmona Rodrigues no Expresso, sem que houvesse qualquer critério visível de notícia:
Numa, "Carmona acelera até Faro", vê-se o candidato do PSD a atestar a sua BMW 650 rumo à concentração motard. Na última página.
Noutra, na revista Única, secção "Protagonistas", Carmona joga futebol em grande estilo, num jogo de que não há qualquer indicação. Título "Carmona ao ataque. O candidato desportista".
Ao menos que o "apoio" esteja suportado com critérios de notícia. Agora assim?! Carrilho está feito!

julho 11, 2005

Isto está bem?

Do Público de ontem (pág. 13):
"TC viabiliza aumento escandaloso dos partidos na Madeira"
Escandaloso?
Os leitores mais fiéis sabem que, na maior parte dos casos, defendo uma ideia conservadora do jornalismo, relativamente a algumas inovações/adulterações que se verificam, sobretudo, nos últimos anos. É mais um caso.
Também acho que os aumentos em causa são realmente escandalosos, mas o jornal não o deve dizer (porque é uma forma de enviesar a leitura, é uma forma de ser parcial*) - a menos que tenha alguém para citar. E não é o caso.
Se alguém tiver o Livro de Estilo à mão e puder ajudar a enquadrar a situação (uma vez que só amanhã o posso fazer) agradeço.

* Se no jornal acham que o assunto é escandaloso, então podem tratar o assunto jornalisticamente, desenvolvê-lo, procurar reacções, explicações, ouvir as partes, etc. Será o seu contributo.

junho 02, 2005

Por outro lado, um leitão?

Não vi (daí o atraso), mas ouvi esta manhã Eduardo Cintra Torres referir-se ao caso na manhã da Renascença. Posteriormente confirmei com diversos camaradas de redacção que terá sido mesmo assim e encontrei este texto de Miguel Gaspar: Ana Sousa Dias no domingo em que o Benfica foi campeão apareceu (o programa todo? Só um bocado? não é relevante) com um cachecol do Benfica no programa de entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa!
Considero isso tão grave como o juiz que esteve na sede do PS com um cachecol deste Partido ou os jornalistas que no Euro 2004 mostraram parcialidade – e que tanto critiquei!
Ou Ana Sousa Dias deixou de se considerar jornalista (e era bom que o soubéssemos o mais cedo possível), ou considera que o futebol é um caso à parte/menor (e isso é grave, pelos precedentes que abre) ou, finalmente, não se importa – e vamos vê-la, numa das próxima emissões com a bandeira do PS (ou de outro partido qualquer) pelos ombros! Ainda por cima no serviço público de televisão?
Sinceramente, já tenho saudades dos leitões do Juca Magalhães! Também faziam mal, mas eram mais saborosos!!!

PS - Declaração de interesses: sou adepto do Sporting (mas reagiria da mesma forma se o cachecol tivesse sido verde!)

maio 20, 2005

Um caso que envergonha ou está tudo bem?

Os leitores mais antigos deste espaço lembram-se certamente como critiquei a cobertura da generalidade dos media portuguesa no Euro 2004, a quem acusei de falta de isenção e neutralidade e de adesão à causa.
Um ano depois muitas dessas críticas repetem-se relativamente à cobertura da morte do Papa João Paulo II.
Talvez por receio de reacções emotivas (e se foi isso há uma falha da minha parte) ou apenas por distracção, não fui tão acutilante como com o futebol (limitei-me a este texto).
Mas as declarações, ontem, do próprio cardeal patriarca de Lisboa substituem tudo o que pudesse dizer: ao chamar a comunicação social para um balanço da cobertura, que considerou positiva, D. José Policarpo disse estas duas coisas notáveis:
- “Os profissionais dos media exageraram um bocado”.

- a cobertura portuguesa foi "feita na maior parte dos casos até com uma grande emoção".

maio 09, 2005

Notas sobre a entrevista de Magalhães Crespo

Cumpro a promessa e deixo ficar uma opinião mais definitiva sobre este caso:
Ouço todos os dias a Renascença, a diversas horas, e tenho do seu jornalismo uma ideia muito positiva. Não acho que, globalmente, se perceba o sujeitar a uma missão - considero-a isenta e na maior parte das vezes completa (só não o será mais por falta de tempo para desenvolver alguns temas).
Então qual é a "crise"?
Levadas à letra, as declarações de Magalhães Crespo seriam incoerentes: um jornalismo de "missão" não permite uma informação "isenta (...) e objectiva".
Eu não acho que a redacção da Renascença sinta que está sujeita a uma missão!

PS - Faço por vezes comparações de casos em concreto, mas nunca me atreveria a comparar o jornalismo da Renascença com o da TSF - os meus antigos camaradas que agora trabalham na Renascença continuam a ser os mesmos (bons) jornalistas.

maio 03, 2005

Agora, algo completamente diferente

Magalhães Crespo, gerente da RR, deu uma entrevista a O Independente de há duas semanas.
Durante este período de tempo, o recorte tem estado em cima da minha mesa. E não é tanto por ter medo de estar a fechar a porta da RR, é porque precisei de mais tempo para tentar formular algumas ideias de modo a que não haja más interpretações, sobretudo de quem lá trabalha.
O que diz Magalhães Crespo?
Basicamente isto:
(...)
"- A Renascença aceita um jornalista que seja ateu?
MC - Um jornalista ateu provavelmente viria enganado e não se sentiria bem aqui.
- Porquê?
MC - Porque estamos aqui a cumprir uma missão. Se alguém não estiver de acordo com a orientação geral da casa dificilmente se vai enquadrar. Mas tenho admitido pessoas que não são crentes.
- A missão da Renascença é fazer jornalismo ou passar a mensagem de Deus?
MC - A missão da Renascença é ser a emissora católica portuguesa antes de tudo o mais.
- Quem ouve a emissão da Renascença pode esperar uma informação isenta em aspectos religiosos?
MC - Isenta, completa e objectiva. É a norma que existe".
Algumas ideias:
- registo a honestidade de MM;
- mas fico com esta grande dúvida: como é que é possível conciliar uma informação isenta e objectiva com o cumprimento de uma missão?

PS - atenção a este jornalista de O Independente, autor da entrevista, José Eduardo Fialho Gouveia. Tem talento!

abril 18, 2005

Muito a tempo

"Será permitido a um representante de um Estado laico chamar «Sua Santidade» ao Papa João Paulo II, sem ofender a neutralidade religiosa do Estado?".
Esther Mucznick in Público de 15/4/05

A minha opinião é que os jornalistas não devem chamar Sua Santidade ao Papa: embora não seja um sinal de comprometimento, acaba sempre por ser uma deferência. Afinal estamos a dizer que é uma "santidade"...

janeiro 11, 2005

Os outros também!

"O PÚBLICO viaja em avião fretado pela Presidência da República"

Os outros jornalistas irão dizer alguma coisa?
É uma informação relevante para o leitor?

setembro 01, 2004

Coisas que fascinam /Incompatibilidades

Ficou perdido, mas não esquecido, o artigo de José Vegar na Grande Reportagem de 21/8/04. Chamava-se: "Cassetes - Colisão Fatal".
São oito páginas mas retiro dois excertos:
- "[Carlos Tomás, jornalista do JN, autor do livro «Carlos Cruz - As Grades do Sofrimento"] acrescenta ainda que a sua convicção de que «Cruz é inocente» não implica «qualquer proximidade com a defesa» do conhecido apresentador de televisão e que, após a publicação do livro, deixou de trabalhar, por decisão própria no processo Casa Pia (a direcção do JN informa que, tendo autorizado Tomás a publicar o volume, tomou a iniciativa, após conhecer o seu conteúdo, de o suspender da cobertura do tema, «para evitar efeitos de simpatia»)."
- "Sobre o seu trabalho em torno do processo Casa Pia, Van Krieken [«jornalista free lancer e empresário na área da construção de sites na internet e que trabalha há cerca de ano e meio no processo Casa Pia») afirma não ter «nenhuma colagem à defesa», limitando-se a cumprir a sua função de jornalista que é a de «escrever o que se passa, fazer o contraditório(...)»."
Uma nota, que remete para a questão das incompatibilidades e das imparcialidades, arrumadas como opções íntimas ou posições públicas:
- O jornalista Carlos Tomás não deveria ter suspendido a cobertura jornalística da Casa Pia não após a publicação mas mal tomou a decisão de escrever o livro? Ao ficar à espera do momento da publicação deu azo que surgissem dúvidas sobre a isenção dos escritos anteriores. Não havia razão para isso? E após a saída já havia?

julho 20, 2004

Mais relatos de futebol

Um comentário ao texto de 16/7, sobre o voto de LCR em John Kerry, suscita-me esta história que partilho com os leitores: há uns anos, dava eu aulas na ESJ do Porto e logo numa das primeiras um dos alunos veio com a mesma teoria. "(qualquer coisa do género) nos relatos de futebol vê-se logo de que clube são os relatadores, pelo tempo de cada golo relatado".
Embora esteja no limite de considerar que relato de futebol não é jornalismo (voltarei a este tema oportunamente), mantenho uma grande admiração profissional pelos relatadores de futebol. E como, além de "Jornalismo Radiofónico, havia uma cadeira chamada "Relatório de Estágio" que eu também coordenava, "obriguei" esse aluno a fazer este trabalho: durante dois meses ouviria e gravaria todos os relatos de Benfica, Sporting e FC Porto e faria uma análise quantitativa e analítica dos tempos e dos golos. No final a amostra incluía mais de uma dezenas de jogos e o rapaz mudou de opinião.
Alguém acredita que um relatador - de uma rádio nacional - (consegue) cronometra(r) os segundos de relato quando há golo em função das suas paixões clubísticas? Eu não. E aquele pequeno estudo mostra-o.
Mas é, indiscutivelmente, um dos estereótipos à volta do jornalismo.
Combatê-lo só é possível com um comportamento editorial (rigoroso, equitativo/equilibrado, factual), que - infelizmente - nos relatos de futebol vamos vendo cada vez menos.

julho 16, 2004

Opinião/factos/imparcialidade

De acordo com vários relatos (aqui), o correspondente da SIC nos Estados Unidos, ao responder a uma pergunta, terá dito, num destes dias: "se me perguntas a minha opinião, preciso de dizer primeiro que vou votar John Kerry".
LCRibas sentiu que, para dar a sua opinião, devia mostrar o jogo aos telespectadores. Foi honesto.
E isso não deve ser contestado.
Contesto, isso sim, a mistura entre comentário/opinião e factos/repórter.
LCRibas não tem, como a esmagadora maioria dos jornalistas, de emitir juizos de valor sobre os factos que noticia. Tem, obviamente, as suas opiniões, mas não precisa/não deve partilhá-las. Para tratar dos factos com rigor e equidade os ouvintes não precisam delas para nada.
Os telespectadores da SIC que o ouviram olharão para ele, a partir de agora, da mesma forma? Não irão misturar as coisas? Não irão dizer "é normal que ele não goste do Bush, ele é do Kerry!".
É muito perigosa esta mistura.
A um repórter não deve ser pedido que emita opinião sobre matérias que trata quotidianamente - e ele próprio deve recusá-lo. Pode e deve interpretar, explicar, contextualizar (naquilo a que o Público chama de "análise"), mas nunca opinar.
Já agora: qual a diferença entre este "eu vou votar John Kerry" e os cachecóis ao pescoço de alguns jornalistas portugueses durante o Euro 2004?

julho 09, 2004

Carta aberta ao presidente
do Conselho Deontológico
do Sindicato dos Jornalistas

Caro Óscar,
Penso que ainda és tu o presidente, embora o teu órgão ande desaparecido e o sítio do Sindicato fale no biénio 2002/2003 (já se sabe como os jornalistas são os piores a comunicar...).
Provavelmente tens outras coisas para fazer, é o normal, embora quem ocupa esse lugar – enquanto o ocupa – tenha de fazer mais do que um esforço.
Mas, pronto, imagino que não possas mesmo.
Só que, desta vez, peço a tua intervenção – a sério!
Se não estiveste fora de Portugal durante o último mês acompanhaste o envolvimento de alguns dos teus camaradas de profissão na cobertura do Euro-2004.
E certamente não gostaste. Mas não disseste nada? Ou gostaste?
Ouviste os teus camaradas a bater palmas em conferências de imprensa, ouviste jornalistas a agradecer no lugar de fazer perguntas, viste – certamente – jornalistas de cachecol (como já tinhas visto nas vitórias do FC Porto).
Mas não disseste nada? O que se passa com o teu órgão?
Caro Óscar,
Sou sindicalizado desde que tenho carteira profissional, o que não me dá direitos especiais mas alicerça o que vou dizer a seguir: nunca tive em muito boa conta o Conselho Deontológico do nosso Sindicato, por ausência, sobretudo. Mas não há outro. E isso é que é chato.
Por isso, sem alternativa, peço-te que intervenhas. Com dois objectivos: deixar claro, para gerações futuras, que aquilo não foi um comportamento deontologicamente correcto (ou foi?) e ajudar os mais jovens a orientarem-se. Ainda vão pensar que afinal aquilo que aprenderam estava errado.
Faz um esforço, Óscar!
Depois voltas a desaparecer.
Eu e certamente mais alguns ficamos-te agradecidos.

João Paulo Meneses
Sócio 1811

PS – Esperei alguns dias, mas o campeonato acabou há quase uma semana. Está na hora, não?

junho 29, 2004

Jornalismo patriótico e independência/imparcialidades

Não duvido do que escreve o editor de desporto do JN (domingo), mas custa-me a acreditar..
"Bem mais surpreendente é que parte dos jornalistas que acompanham o dia-a-dia da selecção em Alcochete voltasse ontem a aplaudir entrada do seleccionador na sala de imprensa. Apesar da entusiasmante carreira da selecção, dos jornalistas espera-se e exige-se sempre um mínimo de frieza, de racionalidade e de distanciamento. Um jornalista não deve oferecer, ou receber, prendas dos protagonistas das matérias que trata, como aconteceu com o triste episódio da camisola autografada por alguns e entregue a Scolari no dia anterior ao jogo com a Inglaterra. Até para que não se corra o risco de se levantarem suspeitas sobre promiscuidade entre ambas as partes."
Estou a beliscar-me sete vezes, nesta altura...
E ainda bem que há jornalistas sem receio de ideias corporativas e que não têm medo de o denunciar...

Onde é que isto foi publicado?

(parece que foi num jornal inglês, tipo Sun ou Daily Mail, mas não, foi mesmo num jornal diário português...)

"Jorge Andrade, o nosso herói
Ricardo foi inesquecível. Rui Costa emocionou-nos. Rendemo-nos a Cristiano Ronaldo. Contudo, o nosso herói do Portugal-Inglaterra é Jorge Andrade. Muita gente não se apercebeu, mas o jogador do Coruña foi decisivo para o resultado final. Conseguiu pôr o puto-maravilha, Wayne Rooney, dos ingleses fora do campo ao fim de 27 minutos. Pouco mais se pode ter dado por ele. Aliás, foi dos menos pontuados pelos jornalistas desportivos. Mas há que repor a verdade: conseguiu um feito extraordinário, que pode ter resolvido o jogo. Está bem que partiu o pé ao pobre Rooney e não se deve aleijar ninguém. O miúdo ficou com um osso partido, que Eriksson não soube bem dizer qual, e deve ficar parado por seis semanas. Mas claro que foi tudo sem querer. Tanto é assim que o árbitro não marcou falta, nem muito menos mostrou algum cartão ao nosso herói."
(jornalismo patriótico não, mas isto?!...)

junho 25, 2004

Bom senso/imparcialidade

A selecção está a enlouquecer os portugueses e os jornalistas (portugueses...) estão contaminados (os cachecóis nos directos, a perda de neutralidade transformando desejos em notícias, o "vamos ganhar logo", etc, etc).
Mas daí até perder o bom senso...
Ouvi (nos últimos três dias):
"Paulo Ferreira, o melhor defesa direito do mundo" ou "temos connosco Ricardo Carvalho, o melhor central do mundo"
A fórmula "aquele que é considerado o melhor..." (mais discreta) já seria abusiva (considerado por quem?) e a alternativa "aquele que muitos consideram o melhor..." demagógica mas no limite; agora confundir convicções pessoais com notícias???
"O melhor do mundo" pressupõe que quem o diz conhece todos os campeonatos onde pode haver jogadores de grande nível (Brasil, Argentina, por exemplo), mas mesmo que isso aconteça, não deixa de ser a opinião de um jornalista.
E um jornalista não deve partilhar as suas opiniões com leitores, ouvintes ou telespectadores.

maio 03, 2004

Mais "Imparcialidades e incompatibilidades"

Se tiverem paciência, solicito uma leitura do texto do dia 8 de Abril.
Volto ao assunto porque o jornalista/comentador da revista "Doze", Rui Santos, escreve na última edição:
"Há, hoje, enviados especiais que, depois de receberem o seu nome inscrito nas camisolas da selecção e de se pegarem como pastilha elástica àqueles que pretendem entrevistar (e entrevistam), vêm mais tarde (em artigos de opinião!!!) sublinhar as proezas daqueles que procuram os fretes. Tudo isto é feito com um à-vontade extraordinário, em nome do "amiguismo" (...). Hoje, consegue-se uma entrevista; amanhã, agradece-se com um artigo de opinião laudatório".
Não gosto do estilo "toca e foge" do texto (insinuante, sem dizer de quem se está a falar), não acho que não se possa escrever um artigo de opinião (até elogioso) sobre quem se entrevistou e desconheço se há um contexto anterior que possa ser importante para compreender a coisa, mas como se relaciona com algo que escrevi, também não ignoro.
É a clássica dicotomia entre o ser e o parecer. E como a maior parte das vezes basta parecer...

PS - Muito a montante, pode estar uma outra situação que caracteriza o nosso jornalismo quotidiano: a abundância de artigos de opinião; o jornalismo de há décadas tinha muitos defeitos, mas os nossos antigos não faziam tudo mal! A separação entre factos e opinião, a distinção clara entre os dois géneros e uma demarcação mais ou menos clara entre jornalistas que opinam e os que não pareciam-me bons princípios (lembram-se de um texto sobre a participação, como comentadores, num "Forum TSF" de dois relatadores de futebol da própria TSF? É isso mesmo!).

março 02, 2004

Incompatibilidades e imparcialidades

Os jornalistas acreditados em Bruxelas elaboraram um código de conduta, que merece duas notas, pelo insólito da ideia:
- a proposta de criar "padrões internos para monitorizar os interesses pessoais dos funcionários e patrões que possam comprometer a independência eleitoral, os quais devem ser transmitidos ao chefe de redacção" é ousada; demasiado?
- da mesma forma, a intenção de "disponibilizar informação sobre perfil do(s) proprietário(s) e os interesses externos da organização" é um bom esforço (na linha daquilo que o Le Monde decidiu recentemente). Concretizável?
PS - só não parece muito correcta a frase: "[declarar] que todos os assuntos relacionados com a ética jornalística são um assunto apenas para os jornalistas e profissionais de média". Será mesmo assim ou é da tradução?

dezembro 24, 2003

Não era minha intenção insistir no assunto, mas um e-mail, daqueles que são refundidos centenas de vezes, fez-me parar para pensar em algo que já tinha sido comentado, mas que me passou despercebido: o facto da jornalista da SIC, ferida no Iraque, ter sido transportada num avião do Estado português, deduz-se a expensas do mesmo erário.
O governo, na altura, e para evitar mais polémicas, tratou de enviar um avião fretado pelo INEM. A jornalista chegou sem problemas e a história estaria contada.
Mas há, aqui, claramente, um caso de favor.
De que a SIC não precisaria.
Que legitimidade terá esta estação de televisão (ou qualquer outro órgão de comunicação social, nas mesmas circunstâncias) para falar, relativamente a outro caso, em tratamento de favor, em benefício excepcional, em proximidade perigosa com o poder? Trata-se de uma incompatibilidade que pode pôr em causa a imparcialidade.
Além disso fica a ideia - desajustada e inflamável - de privilégios só por se tratar de jornalistas!
Diferente seria se a jornalista tivesse apanhado uma boleia ou o avião fizesse um pequeno desvio. Mas, no caso em apreço, o avião foi de propósito ao Kuwait, o que terá custado alguns milhares de contos.
Nas contas anuais da SIC isso não teria significado e a estação ficava isenta de suspeitas e associações mais ou menos perigosas...
O barato sai caro!

dezembro 23, 2003

Incompatibilidades e imparcialidade... a brincar

A decisão da BBC de passar a proibir os jornalistas e apresentadores de escreverem em jornais, justificada como um garante de imparcialidade, não pode ser levada a sério.
Diz a BBC que "quando os nossos jornalistas escrevem em jornais isso é visto como uma extensão do seu trabalho na BBC" e que "a imparcialidade é um elemento essencial da reputação da BBC e do nosso jornalismo".
Em suma, como os jornalistas escrevem artigos de opinião em jornais que se sabem ser alinhados mais à esquerda ou mais à direita, a BBC sai prejudicada.
Curioso como a empresa só se lembrou agora, quando esta é uma tradição com décadas; curioso como isto aparece a seguir ao caso-Kelly; curioso, finalmente, como nenhum outro órgão de comunicação social, no mundo se lembrou disto (com este motivo, uma vez que pode argumentar-se com a necessidade de exclusividade).
Trata-se de uma brincadeira, sem dúvidas: o problema é que, depois de ter feito as revelações na rádio BBC sobre as armas do Iraque, o jornalista da BBC Andrew Gilligan publicou um texto no "Mail on Sunday" onde contou mais coisas e revelou, por exemplo, o nome da fonte.
Na BBC acredita-se que a polémica teria sido muito menor se Gilligan se tivesse limitado à rádio.
E para cortar o mal para raíz proibe. Pode resultar. Não me venham é falar em incompatibilidades por causa da imparcialidade...

dezembro 15, 2003

A imparcialidade dos jornalistas e as incompatibilidades

O comportamento de alguns jornalistas (deduz-se que seriam jornalistas) na conferência de imprensa de ontem, mal foi anunciada a captura de Saddam Hussein, remete para o domínio da equidistância e da isenção perante os factos.
Enquanto a maior parte se mantinha impávida (ainda que não totalmente serena...), uns batiam palmas e outros, de pé, gritavam o seu contentamento - pelas imagens da televisão.
Não são os jornalistas cidadãos como os outros?
Quando são... jornalistas não.
Dir-se-á que para os iraquianos a notícia tem uma dimensão afectiva que ultrapassa o comportamento profissional - como o 25 de Abril de 1974 para nós?
Mas, com esse exemplo, vou buscar imagens (de memória) de comportamento altamente profissional de muitos repórteres.
Outra coisa diferente é a convicção pessoal de cada um; quando não estamos em "funções" podemos manifestarmo-nos da forma que entendermos.
O que está em causa é a capacidade de nos mantermos imparciais e equidistantes relativamente aos factos. Aqueles jornalistas conseguirão ser isentos quando tratarem de informações sobre SH?