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janeiro 09, 2006

Sobre o provedor do Público

A propósito da criação do blogue do provedor dos leitores do Público (já está na lista), recupero um tema que Manuel Pinto comentou no próprio dia em que foi publicado: a acutilância do último texto de Rui Araújo.
É apenas a sua segunda crónica, e não é possível perceber com clareza um estilo, mas a confirmar-se esta (notável) franqueza, teremos entre os três provedores diários três estilos bem claros:
- Rui Araújo na linha de Estrela Serrano (o chamado "sem-papas-na-língua");
- José Carlos Abrantes mais pedagógico, mais comentador, mais reflexivo;
- Manuel Pinto entre os dois, tentando conciliar as duas tendências;
(se algum dia exercesse esta função, estaria mais perto da primeira opção...)


PS - Os responsáveis editoriais da Cofina lembram, sempre que podem, que o Record tem um provedor dos leitores (e, é verdade, foi o primeiro jornal a criar essa figura de intermediação). Acontece que ao contrário do que fazia David Borges há alguns anos, Rui Cartaxana fala sobre futebol, numa espécie de consultório semanal.

Dos provedores

1) Manuel Pinto cumpriu aquilo que antes já tinha sido aqui referido e, no texto desta semana, desenvolve a falha deontológica na identificação da bebé de Viseu. Sim, afinal, alguém discute o jornalismo!
É um texto muito interessante [e não, obviamente, por eu lá ser referido!] porque relata os constrangimentos que se vivem numa redacção. Um excerto: "O comportamento do Jornal de Notícias, neste caso, merece reprovação por dois motivos em primeiro lugar, por ter-se servido do argumento da infracção alheia para também infringir, numa matéria em que está em causa um direito fundamental da pessoa humana; em segundo lugar, por não terem funcionado mecanismos de alerta e de mudança de comportamento, quando, na edição do dia 15 de Dezembro o nome da vítima foi várias vezes impresso, incluindo na primeira página, sendo que havia na Redacção quem tivesse clara noção de que a identidade da bebé não devia ser revelada."

(CORR)2) Rui Araújo escreveu ontem a primeira crónica no Público, ainda que de apresentação. Uma forma original de começar (porque pessoal). Espero que saiba seguir a herança dos seus antecessores - o provedor, se fica (CORR: apenas) à espera das cartas dos leitores para agir, provavelmente, as suas crónicas representarão pior as expectativas dos leitores (ainda que não formalizadas).

agosto 25, 2005

Eu gosto do 24 Horas

Não estava de férias na altura mas passou-me (até porque costumo ler pelo menos a primeira página). E só esta semana, via "Inimigo Público" de Verão (!), é que me apercebi: o 24 Horas fez mais uma das suas primeiras páginas históricas no dia 12 de Agosto.
Na véspera o jornal tinha noticiado que o advogado de Carlos Silvino, no processo Casa Pia, tinha sido apanhado com álcool a mais. Durante esse dia aperceberam-se no jornal que se tinham enganado (afinal era o próprio advogado das alegadas vítimas da Casa Pia e não José Maria Martins). No dia 12 de Agosto a manchete era: "O advogado da Casa Pia é que foi apanhado pela GNR". E ante-título (mas com letras bem grandes): "O advogado de Bibi não ia com álcool a mais. O 24 Horas errou, pede desculpas a José Maria Martins e aos leitores".

Não é a primeira vez que o 24 Horas faz uma manchete destas. Lembro-me quando escreveu que Jardel recebia da Segurança Social portuguesa. No dia seguinte corrigiu, com igual destaque, na primeira página, incluindo um pedido de desculpas. Há, penso, mais dois casos parecidos.

O que dizer desta contrição pública?
Primeiro que é muito saudável; segundo, que mais nenhum jornal a faz de uma forma tão exposta; terceiro, que é inteligente, evita processos em tribunal (ainda que neste caso se fale num pedido de 200 mil euros de indemnização), e que mostra que o marketing da sinceridade funciona; quarto, contraria a má imagem de jornal tabloide, com laivos sensacionalistas; quinto, que é mau jornalismo dar uma manchete daquelas, envolvendo directamente uma pessoa, sem a confirmar;

Nota final: eu gosto (simpatizo?) do 24 Horas. Acho que faz falta no nosso jornalismo um jornal que exercite o tabloidismo de uma forma ingénua (é um elogio...) ou inocente. Às vezes é divertido, outras nem tanto (e muitas irritante). Mas o facto de haver um jornal, que até é um sucesso de vendas, como o 24 Horas, é também uma forma de evitar o aparecimento de jornais bem mais perigosos para a comunidade.

outubro 01, 2004

A memória é curta?
"Independente: Alfredo Maia, presidente do Sindicato, afirmou que não deve haver sanções para violações deontológicas. Concorda?
Óscar Mascarenhas: Essa foi uma decisão do II Congresso dos Jornalistas portugueses em que se abordou a questão da deontologia.
Independente: Mas acha que isso faz sentido?
Óscar Mascarenhas: Os jornalistas entenderam que não devia haver sanções para violações deontológicas. Quando essa violação atingir direitos de outras pessoas os jornalistas devem ser julgados em tribunais comuns.
Independente: E concorda com essa decisão do congresso?
Óscar Mascarenhas: Não deve haver um código de sanções para violações deontológicas. Deve haver uma reprovação pública dos comportamentos. Dizer que um jornalista cometeu uma falha ética é suficientemente grave. O nosso único património é a credibilidade e a honorabilidade profissional. Um jornalista que falha a esse nível perde credibilidade
".
(in Independente de hoje)