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fevereiro 13, 2006

Pudor?

Um insulto, por si só e sem contexto, não merece ser valorizado. Mas quando a notícia é o protesto de uma população contra determinado governante (mesmo Presidente da República), mandar retirar os insultos de uma reportagem é uma forma - do meu ponto de vista - de reescrever a história. Os jornalistas não podem fazer isso e, sobretudo, não têm esse direito!

junho 23, 2005

"A exactidão é mais importante do que a rapidez"

A BBC anunciou que "vai introduzir um desfasamento temporal na sua cobertura ao vivo de acontecimentos sensíveis, como o massacre na escola de Beslan, na Rússia, anunciou hoje a empresa. Este desfasamento, que poderá chegar a alguns segundos,
permitirá aos editores cortar cenas que considerem demasiado chocantes para os telespectadores
" (via Lusa).
À primeira vista parece que estamos a falar de censura.
Mas é preciso ter em atenção que a regra se aplica apenas a imagens que estejam a ser recebidas em directo - e imagens em directo são imagens sem intervenção editorial (mais facilmente manipuláveis).
A experiência é nova (e só entra a 25 de Julho) e está sujeita a uma avaliação posterior. Mas por mim vejo-a com bons olhos. Sobretudo por isto: "A política editorial agora revista inclui pela primeira vez o compromisso perante o público de que para a BBC "a exactidão é mais importante do que a rapidez".

junho 19, 2005

Foi mesmo censura!

Depois de duas actualizações, e como o texto está a ficar enorme, opto por uma síntese: o caso de Vila Real está - a menos que surja algum dado surpreendente - explicado: tratou-se de uma espécie de censura pós-moderna, da mais rasteira que é possível imaginar, da qual saem mal, em doses iguais, o secretário de Estado, cuja dimensão cívica o impeliu a exigir a correcção de um texto jornalístico, e o director do referido jornal que aceitou essa exigência absurda (e mantenho uma distinção entre uma hipotética correcção da entrevista e do texto introdutório, da exclusiva responsabilidade do jornalista).

junho 17, 2005

(act) Défice... democrático!

O JN conta hoje uma história (estória?) fascinante sobre o jornalismo aplicado à realidade!
Resumidamente, se percebi bem e não faltam elementos decisivos: o secretário de Estado Ascenso Simões deu uma (longa) entrevista a um jornal da sua terra, Vila Real, com a condição de a poder ler antes de ser publicada. Mas de acordo com o secretário de Estado, o jornal não terá respeitado esse acordo e publicou uma versão não autorizada. Em resposta, Ascenso Simões "mandou" retirar a edição, que foi recolhida na íntegra, uma hora depois de estar nas bancas de Vila Real. E já saiu uma segunda, com as devidas emendas.

Algumas notas, independentemente de outras conclusões que os leitores deste blogue possam tirar:
- estes acordos prévios (que implicam que o protagonista tenha uma última palavra sobre o que vai sair) são negativos para o jornalismo;
- mas se as duas partes aceitaram os termos, devem respeitá-los;
- Ascenso Simões sai mal da história (a liberdade de imprensa é fantástica, desde que seja sobre os outros...); quanto ao director do jornal, é melhor esperar pelas suas explicações (prometidas para a próxima edição);
- finalmente: de acordo com o JN, Ascenso Simões não corrigiu a sua própria entrevista mas «terá procedido a "uns ajustes" na introdução à entrevista, onde estaria descrito o seu percurso político e profissional, desde a juventude, omitindo alguns factos descritos e acrescentando outros, aos quais não era feita inicialmente qualquer referência»; assim sendo, por que é que a edição foi retirada? Ou o acordo incluía rever não apenas as declarações de AS passadas a papel mas também todos os textos do jornal sobre o secretário de Estado? Cheira-me a esturro...-

ACT a 18/6/05: o Público reproduz hoje uma notícia da Lusa, em que aparecem mais pormenores deste caso. O director do jornal, por exemplo, presta algumas declarações e confirma - entre outras coisas que estão na notícia do JN - que o secretário de Estado "efectuou pequenas alterações ao corpo da entrevista, mas mudou principalmente a introdução do texto, onde se falava do seu percurso político".
Insisto nesta ideia: não gosto de acordos de visionamento prévio de entrevistas, mas (porque há discussão sobre de quem é a "propriedade" das declarações) não o vou discutir. O que não é possível aceitar é que um qualquer protagonista mude um texto jornalístico, como parece ter sido o caso. Chamo a isto censura. E não compreendo por que é que o director do jornal aceitou retirar a edição original. Um caso destes em tribunal ridicularizaria o seu promotor!

ACT a 19/6/05: No JN de ontem, que só hoje li: "A alteração mais significativa foi feita na parte dos dados curriculares, da qual foram retiradas referências ao facto de Ascenso Simões ter começado de baixo e subido na política a pulso, de ter sido funcionário do PS e de ter trabalhado na Câmara de Santa Marta de Penaguião. A nova versão menciona, apenas, os cargos de governante, deputado e vereador da oposição em Vila Real".

maio 15, 2005

(jc) Análise dos três diários

Penso que o dia de hoje terá sido a última oportunidade para testar a experiência de A Bola.
Do dia de ontem houve duas situações claramente polémicas:
- as declarações do treinador do Rio Ave, contestando a arbitragem e, em concreto, o primeiro golo do FC Porto (1);
- as declarações violentas do treinador do Boavista que – com toda a razão, permitam-me – se atirou à arbitragem do jogo em Guimarães (2).
O que fizeram O Jogo e o Record? Publicaram-nas com normalidade; acrescentando no comentário ao jogo de Guimarães uma nota negativa para o árbitro;
O que fez A Bola? Fez a mesma coisa no Guimarães-Boavista (ou seja, reproduziu o “ataque” do treinador à arbitragem e a nota negativa para o árbitro) mas ignorou a parte das declarações do treinador do Rio Ave, em que este se referia aos eventuais erros da arbitragem. Porque não se enquadram? Por falta de espaço? E no caso do Boavista
Terá sido este o seu contributo para a Semana do Futebol?

(1) “O primeiro golo foi fora-de-jogo, tendo ainda McCarthy dominado a bola com o braço”.

(2) "Era impossível ganhar aqui"
Pedro Barny não poupou críticas à arbitragem, que acusou de ter errado em lances cruciais. «Como o golo do Vitória, precedido de fora-de-jogo e a expulsão de Carlos, que justificava, isso sim, um cartão amarelo ao Silva, por simular falta inexistente», protestou. O técnico boavisteiro afirmou ainda que, «por tudo o que se viu», era «mesmo impossível ganhar em Guimarães». Para Pedro Barny, o encontro ficou decidido exactamente após a expulsão de Carlos, «que marcou a equipa», numa altura, lembra, «em que o Boavista estava a dominar o jogo e o Vitória ainda não tinha ido à baliza adversária». «Tenho jogadores a chorar no balneário, mas eles lutaram contra todas as adversidades e mereciam melhor sorte», lembrou. Quanto à expulsão de João Pinto, um comentário: «Parece que no seu final de carreira os árbitros sentem prazer em expulsá-lo. Não acredito que cada vez que ele fale com um árbitro seja mal educado, de modo a justificar tamanho castigo.»

Censura?

Relativamente a isto e a isto:

Vítor Serpa congratula-se, na edição de hoje, com os resultados da sua “Semana do futebol” – ou seja, numa semana tão decisiva não ter havido grandes polémicas. A Bola reclama a sua quota-parte no sucesso.
Terá razão?
Acho muito duvidoso.
Um mérito é indiscutível: ao anunciar uma medida que é insólita em Portugal provocou a discussão. Não apenas em espaço meta-jornalísticos, mas – acredito – no próprio universo do futebol.
Mas acho duvidoso, porque tenho muitas dúvidas sobre 1) a experiência em concreto; 2) a metodologia que terá sido seguida.
1) a experiência não foi verdadeiramente testada porque não surgiram dois ou três casos que a pusessem à prova; dir-se-á: foi por mérito de A Bola. Poderá ter o seu quinhão, mas daí até…
2) censurar é uma opção errada; A Bola não explicou como faria isso, mas deduz-se que seria da forma mais simples: ignorando pura e simplesmente essas declarações. Penso que haveria outras formas, mais pedagógicas, de sinalizar a intervenção editorial no próprio espaço do jornal – afinal, em muitos casos não será fácil perceber quando é que estamos perante "expressões, atitudes, ou comportamentos que apelem à violência, ao desrespeito por princípios éticos desportivos ou à dúvida infundada sobre a integridade moral e cívica de qualquer cidadão".
Como se vê pelo exercício seguinte, ficam dúvidas.
Vítor Serpa promete, entretanto, outras semanas iguais a esta.

maio 10, 2005

(act) Mais de A Bola

(mais)

Coisas curiosas que (não) encontrei nos jornais de hoje:
- O Jogo e o Record ignoram o assunto nas suas edições de hoje;
- Mas os directores de O Jogo e do Record assinam textos no Correio da Manhã sobre o assunto e falam no Público;
- O presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas elogia, no mesmo CM, a opção;
- No DN, Vítor Serpa confirma que se trata de uma acção pontual, e assume «esta atitude como "uma pedrada no charco" contra a manipulação que os diários desportivos têm sofrido»*;
- Neste mesmo artigo, um sociólogo do desporto, António Sousa Santos, critica a opção: «este tipo de notícias vai aguçar a curiosidade dos leitores, o que faz desta decisão editorial uma simples "operação de marketing". "Pode ter um efeito de choque, mas que é absorvido de imediato", resumiu. "O jornal A Bola está com problemas de consciência e com esta decisão não vai apagar nenhum fogo", acusou o sociólogo, garantindo, mesmo assim, que não vai perder leitores porque tem um "público fidelizado".»;
- Em A Bola, apenas um pequeno texto chamado "Decisão editorial de «A Bola»", que em três parágrafos resume a posição divulgada ontem;

* Isso quer dizer que a manipulação segue dentro de momentos? Um mérito A Bola tem: permite discutir o assunto!

Act: Sugiro este texto: «"A Bola", calculista ou não, ao lançar a "semana do futebol", veio dizer que há problemas no desporto que não são do foro desportivo e problemas no no jornalismo de desporto que não são jornalismo»

maio 09, 2005

O texto de A Bola na íntegra

«A Bola» e a semana do futebol
O descontentamento foi-se generalizando, muitos dirigentes desportivos, no desempenho das suas importantes funções, foram perdendo o sentido do rigor, do bom senso e até das suas próprias responsabilidades desportivas e cívicas; os processos judiciais, ainda em desenvolvimento, vieram reforçar a dúvida quanto à honestidade do jogo e à transparência dos resultados; a arbitragem viu a sua credibilidade dizimada; os jogadores foram atirados para um estúpido degredo social, evitando a todo o custo qualquer discurso além do entediante lugar-comum; os técnicos vivem a amargura da necessidade do resultado imediato, como factor decisivo de sobrevivência profissional.
Ajudou-se, assim, a instalar um ambiente de guerrilha crónica, aqui e ali caótico na discussão, que agride quem gosta de futebol e, acima de tudo, paralisa a evolução do jogo e desrespeita a natural vocação dos estádios como espaços de festa e lugares de entretenimento, propícios, pois, a ser usufruídos pelas famílias, por crianças, por adolescentes e por adultos.
A tudo isto não queremos, nem podemos, ficar indiferentes. Por isso, A BOLA decidiu não pactuar com este estado de coisas, assumir-se como forte opositora da guerrilha institucionalizada no futebol e lançar o desafio do arranque de um movimento verdadeiramente regenerador, capaz de devolver ao jogo a sua alma, a sua essência de espectáculo mítico, vibrante, emotivo, apaixonado, mesmo. Capaz de defender o futebol português dos ventos da violência e da acção manipuladora do espectáculo.
Por isso A BOLA decidiu lançar esta semana, e, não por acaso, a semana de um jogo que será certamente decisivo para o título, como a SEMANA DO FUTEBOL.
Ao longo da semana, A BOLA compromete-se a não publicar, por opção editorial, todas as afirmações, venham de onde vierem, de dirigentes, de treinadores, de jogadores, de árbitros e até de colunistas, que de forma directa e declarada optem por expressões, atitudes, ou comportamentos que apelem à violência, ao desrespeito por princípios éticos desportivos ou à dúvida infundada sobre a integridade moral e cívica de qualquer cidadão que, por qualquer forma, seja protagonista no grande jogo ou em qualquer outro jogo da jornada.
Esta é a nossa decisão, amadurecida e desde já anunciada pela razão prioritária da relação de A BOLA com os seus leitores. Não seremos, pois, por decisão própria, veículos da violência verbal, da suspeição, da manipulação de todos os que entendem que tudo vale para atingir os fins, e que esperam, por isso, usar e abusar da imprensa desportiva.
Fazemo-lo em nome da defesa dos mais legítimos direitos de cidadania dos intérpretes do espectáculo; em defesa dos valores éticos e desportivos essenciais à credibilidade do jogo de futebol; em defesa da honestidade na relação com os nossos leitores, a quem certamente não servimos se nos conformarmos com a missão de meros agentes no acto premeditado da manipulação; mas, acima de tudo, creiam, tomámos esta opção em defesa do respeito que todos nós, aqui em A BOLA, temos por nós próprios.

A posição de A Bola

A posição do jornal A Bola, anunciada hoje em primeira página, e que está aqui na íntegra, suscita - desde já - uma série de questões:
- É uma forma de censura? E, sendo assim, isso é legítimo?
- Como será concretizado? Sinalizando determinada declaração (espaço em branco) ou ignorando-a pura e simplesmente?
- Começa hoje? Nesse caso, as declarações de José Couceiro e Reinaldo Teles, ontem no final do jogo (pág.8) não se enquadram? E o texto "Proença sob fogo" (pág. 29)?
- Porquê (apenas) uma semana? Tem um objectivo simbólico ou é para prosseguir, sendo uma experiência?
- Visa apenas provocar a discussão ou pretende ser mais consequente e profunda?

A iniciativa é tão insólita que fará sentido ver como evolui para uma opinião mais a sério.

fevereiro 20, 2005

O jornalismo como arte instável

Mário Soares meteu água (à luz da práxis instituída) quando falou em maioria absoluta do PS (ou então deu um murro na hipocrisia instalada - para este caso/âmbito em concreto é indiferente).
A comunicação social (rádios e televisões) reproduziu.
A CNE interveio e solicitou que essa declaração não fosse reproduzida. A partir daqui levantam-se algumas dúvidas:
- passar a ignorar completamente o caso, incluindo a posição da CNE, em nome do interesse noticioso?
- ignorar a recomendação da CNE e manter a declaração do ex-presidente no ar (antes ou depois, acrescentando que a CNE pensa abrir um processo/queixa?)
- acatar a recomendação da CNE? Mas como cumprir o que diz a CNE sem explicar aos ouvintes (que entretanto chegaram à antena ou nem se aperceberam) o que está em causa? Ou seja, sem dizer o que Mário Soares disse, ainda que com outras palavras e sem o som?
- esta última opção - que, pelo menos, foi a que a TSF seguiu - é a mais sensata em nome do interesse dos ouvintes (é a que serve melhor a compreensão da mensagem). Mas será eticamente aceitável?

PS - diz a CNE que "A lei obriga a que não se fale nas forças políticas e orientação de voto numa proximidade de 500 metros das urnas". Portanto, o problema não é as rádios e as televisões terem reproduzido (a substância d)as declarações de Mário Soares mas ele ter dito isto dentro dos tais 500 metros. Se fosse a 503 já não havia problema???

maio 31, 2004

Censura no Público?

Boquiaberto! Lê-se e não se acredita! Será mesmo?
O Correio da Manhã de hoje desenvove uma notícia de ontem do Diário de Notícias, dando conta de um alegado caso de censura no Público.
As duas notícias contam que o director do jornal retirou uma notícia, envolvendo Manuela Ferreira Leite, para, alegadamente, ser melhor escrita! A editora do Nacional deverá ter-se demitido.
No Público, provavelmente um dos últimos bastiões da liberdade de expressão na imprensa portuguesa?!
Será mesmo?
É grave, muito grave mesmo. O Conselho de Redacção já se pronunciou sobre um acto que considera "inaceitável" e que "configura um acto de censura".
No Público, até agora, nem uma linha.
E agora?