Uma estória triste mas verdadeira...
Um certo e determinado ministro disse em meados de Maio que iria, no prazo de duas semanas, apresentar medidas urgentes para resolver um grave problema.
As duas semanas passaram e um jornalista (que tinha guardado o recorte do anúncio) ligou para saber novidades.
Resposta do assessor de imprensa (até há pouco jornalista): tão cedo não vai haver nada, seguramente nas próximas semanas não iremos revelar nada;
Admirado, o jovem jornalista falou com o seu editor, que – surpreso – lhe pediu um novo contacto com o mesmo assessor – será mesmo assim?
O segundo contacto fez-se mas a resposta foi a mesma.
O jornalista pegou nesses dados, juntou-os aos que já tinha do passado e começou a ouvir reacções dos chamados “parceiros sociais” (todas negativas).
Duas horas depois, o mesmo assessor – assustado com algo que teria chegado ao conhecimento do ministro – telefonou a dizer que as medidas seriam anunciadas até ao fim deste mês. Mas não podia (não sabia?) uma data. E a notícia acabou por não ser feita.
No dia seguinte o ministro, no final de uma cerimónia, anunciou algumas das medidas e 24 horas depois a informação está em vários jornais, entre os quais o Expresso: neste são anunciadas mais medidas e uma data em concreto.
Notas a retirar desta estória:
- o assessor de imprensa ou mentiu ou foi incompetente (porque reafirmou uma informação sem ter disso confirmação - o que não é nada provável);
- o assessor de imprensa não quis dizer a data para não estragar a notícia do Expresso;
- a mentira terá sido uma forma de desmobilizar o jornalista. E conseguiu-o...
Por que é que esta estória vale a pena? Porque mostra (mais uma vez - é um dos temas recorrentes desta página) como a dialéctica jornalística é profundamente instável/precária (o que gera muita incompreensão nos receptores). Se a notícia tivesse sido emitida (no caso da rádio) na hora seguinte à primeira informação, seria a seguir desmentida? Mesmo confirmada duas vezes com a mesma fonte oficial?