O poder do directo
(esta é uma reflexão que resulta de um conjunto disperso de protestos recebidos via telefone ou email nos últimos tempos)
Os ouvintes aceitam - e de alguma forma desejam - a intermediação feita pelos jornalistas que, através de um processo mais ou menos complexo de selecção da realidade, escolhem determinados factos em detrimento de outros.
Há, contudo, uma situação em que o ouvinte recusa a intervenção jornalística, preferindo ser ele próprio "testemunha" integral dos acontecimentos: os directos de discursos, conferências de imprensa ou debates parlamentares.
Nestes casos de transmissão em directo, o ouvinte quer o jornalista intervenha o menos possível. E como é que o jornalista intervém? Pontuando, ciclicamente, essas intervenções, com pequenos resumos, pequenos enfoques, notas que precisam de ser reforçadas.
Como essas notas são feitas durante as intervenções (e não, apenas, no final), há - em muitos casos - um corte no discurso, uma interrupção na compreensão do discurso.
Já expliquei a muitos ouvintes que essas notas se destinam, sobretudo, aos que entretanto chegam e perderam o que aconteceu até aí. Mas acho que não convenci nenhum deles. Ficam irritados, acham que lhes estamos a chamar atrasados e que dispensam muito bem esses comentários (muitos deles - reconheça-se - meramente repetitivos).
Provavelmente têm razão!
O directo é um momento (mágico) de partilha de informação, em que o ouvinte passa a ser testemunha. Em que sente (inconscientemente?) que está a viver aquela ocasião. E não quer ser "prejudicado". Tem esse direito!
Daí que seja necessário, ao repórter que acompanha esse directo, encontrar os momentos certos para fazer a "pontuação": geralmente as palmas ou interrupções marginais (um copo de água...). Também é importante diferir no tempo essas intervenções, evitando um excesso de presença. Mas que isto não signifique diminuir-se como jornalista: uma coisa é repetir a ideia que acabou de ser dita, outra bem diferente é explicar um determinado contexto que não ficou claro no discurso.