Já agora...
O jornal Público, na página de comentário audiovisual (desculpe, professor Meditsch, chamar audiovisual à rádio, mas é para simplificar), faz hoje uma crítica a algo que se ouviu ontem na TSF. Não ouvi, mas se é como conta a jornalista do Público, ela está certa (aditamento: a jornalista da TSF contesta, em "direito de resposta" essa versão). Penso que o caso não é suficientemente importante para justificar um artigo de opinião no jornal, mas acho aquele "rodapé" à notícia do inglês esfaqueado desnecessário e - já agora - um pouco perigoso, porque pode ser interpretado - inconscientemente - como uma forma de associar o que afinal não tinha ligação).
Assunto encerrado, porque não há mais a dizer.
Mas é interessante como essa notícia, por exemplo no próprio Público, nos remete para algo que conflitua com o jornalismo: a valorização da nacionalidade dos protagonistas.
No Público: "Adepto inglês esfaqueado por carteirista ucraniano".
No (livro de estilo do) Público ainda:
"4. Discriminação sexista, religiosa, racial ou etária
O PÚBLICO recusa todos os preconceitos e estereótipos de linguagem que firam a sensibilidade comum em assuntos que envolvam a idade, a raça, a religião ou o sexo.
Ninguém deve ser qualificado pela sua origem étnica, naturalidade, confissão religiosa, situação social, orientação ou preferências sexuais, deficiências físicas ou mentais — excepto quando essa qualificação for indispensável à própria informação.
1 — Deve prevalecer a equidade de tratamento: se não é curial referir que o assaltante X tem olhos azuis, é algarvio e gosta do Benfica, por que razão é preciso dizer que é "cabo-verdiano" ou "de etnia cigana", por exemplo? Em síntese: a raça (ou a etnia, ou se é homossexual, ou alcoólico, ou deficiente físico, etc.) não é relevante, não se menciona; se se menciona, tem de se justificar. Ainda no caso racial: "Jovens negros andam a assaltar os comboios da linha de Sintra"? Só jovens negros? "Cigano preso por esfaquear..." Só os ciganos esfaqueiam? Por isso, se for relevante referi-lo, é preciso que haja o indispensável enquadramento".
Uma maior maturidade jornalística vai-nos fazer chegar, mais cedo ou mais tarde, a alguma conclusão:
- é mesmo necessário referir a nacionalidade, em qualquer caso?
- é apenas um problema de destaque (neste caso, de título), sendo que no interior terá sempre de ser referido?
- é possível fazer esta notícia sem referir a questão da nacionalidade do suposto agressor?