O directo - falar claro
Um caso muito interessante aconteceu na quinta-feira passada e vale a pena contá-lo aqui, porque tem tudo a ver com a dificuldade de fazer rádio... em directo.
No parlamento o primeiro-ministro falava sobre insegurança, Iraque e etc. quando afirma: "Temos excelentes relações com a República Popular da China (gerimos a transição de Macau), mas ninguém pretende que a China seja uma democracia pluralista. Alguém defende que vamos romper relações diplomáticos com a China?".
Poucos minutos depois, na antena da TSF, António José Teixeira falou em "gaffe" do primeiro-ministro, acrescentando que "a hipocrisia das relações internacionais tem limites". Para o comentador, DB "provavelmente não quereria dizer - mas disse".
Por uma questão de interesse pessoal, indaguei, a seguir, do alcance do discurso do primeiro-ministro. E de S. Bento explicaram-me que DB usou a palavra "pretender" no sentido inglês - ou seja, terá querido dizer "ninguém acha/entende que..." e não "ninguém deseja que...".
Conclusões:
- a rádio vive no momento, muito mais em directo, como era o caso;
- no jornal seria sempre possível, mais tarde, contactar o gabinete do primeiro-ministro e perceber o que estava em causa;
- a semântica plural de determinadas palavras acentua o grau de descodificação;
- os políticos (e os protagonistas em geral) devem preocupar-se não apenas com o que dizem mas também como dizem. Uma formulação "à inglesa" gera equívocos. Da próxima será assim tão simples?