A escrita criativa- de mais?
Há uma evidente incompatibilidade entre a escrita radiofónica e a literatura (*).
Se mesmo nos jornais se diz que literatura e jornalismo não têm nada em comum depois da escrita, na rádio isso é ainda mais evidente.
A rádio deve falar simples e, comparando a rádio que se faz em Portugal com a nossa imprensa, isso é uma realidade.
Onde é que entra a criatividade?
Na escolha de palavras que refresquem os lugares-comuns e possam estimular a escuta, mas sem que se tornem, elas próprias, "ruído" (ou seja, o ouvinte fica a pensar naquilo que o jornalista/animador disse e não nos factos).
É difícil?
Não, é muito difícil! Por isso, para evitar danos colaterais, é preferível jogar simples e directo.
Vem isto a propósito de algo que ouvi ontem durante um dos relatos do Benfica: "Simão recebe, temporiza e passa para...".
Temporiza?
Como princípio, é saudável refrescar a linguagem do dia-a-dia, sendo que no relato há ainda um desafio quase dramático: criar o próprio estilo!
Mas à custa do ouvinte?
Temporiza significa pára (ganha tempo). Não é mais simples?
(*) Num velho livro, que já só há nas bibliotecas, chamado "A Rádio" (Lavoine), um tal Terrien escreve: "Não estás cá para fazer carreira de escritor. Na imprensa escrita podemos sempre reler-nos, completar-nos. Não quando nos encontramos diante de um microfone. O mesmo acontece com o ouvinte: é preciso que ele capte imediatamente, senão deixa de ouvir".
PS - Mas não foi à custa da perplexidade dos ouvintes que o mais carismático dos relatadores, Jorge Perestrelo, construiu o seu estilo? Foi, mas também de um conceito de "espectáculo" para além dos factos. Já não interessa tanto o que diz, se tem (alguma) piada...